COMO SE MATA UM JORNALISTA

Texto de Valério Luiz de Oliveira Filho, especial para a Ponte.

imagens: Junião/Reprodução

Há 10 anos, o jornalista esportivo Valério Luiz foi assassinado logo após sair da rádio que trabalhava em Goiânia (GO). O caso ganhou repercussão nacional ao se tratar também de um ataque à liberdade de expressão e até hoje ninguém foi punido.

Em artigo publicado na Ponte, o advogado Valério Luiz de Oliveira Filho narra o fato e a longa luta por justiça que travou nos últimos anos para o seu pai, além de falar das expectativas para o julgamento dos cinco envolvidos no crime.

O advogado descreve a cena que até hoje não esqueceu quando chegou ao local: “o pé do meu pai pendurado para fora do carro, com o tênis cinza de corrida e a meia levantada dos quais eu sempre caçoava”.

De acordo com o inquérito policial, o jornalista foi alvejado por seis tiros disparados por um homem que o aguardava em uma moto na rua da rádio a mando do então vice-presidente do Atlético Clube Goianiense, Maurício Borges Sampaio.

“Meu pai cresceu ali, nos arredores do Estádio Antônio Accioly, e se tornou atleticano. Provavelmente por isso, suas críticas jornalísticas eram mais contundentes quando se tratava do “Dragão Campineiro””.

“Valério era o único jornalista de Goiás com coragem para falar abertamente sobre a causa oculta da ascensão meteórica do Atlético: uma injeção de dinheiro por “patrocinadores tenebrosos”, como ele chamava”.

O Atlético Goianiense reagiu às críticas aos seus dirigentes proibindo algumas equipes jornalísticas de frequentarem as dependências do clube. Também corriam boatos de propostas financeiras para demitir o jornalista.

O advogado destaca a participação de policiais militares no crime: “As investigações demonstraram ainda que o sargento Djalma Gomes da Silva e o cabo Ademá Figuerêdo [quem disparou contra Valério] eram seguranças de Maurício Sampaio”.

Segundo o advogado, “Urbano Malta também era funcionário de Sampaio, uma espécie de faz-tudo, e exercia vigilância sobre a rotina de entrada e saída do alvo, Valério Luiz, a partir de uma discreta casa, ocupada sem aluguel, exatamente em frente à rádio”.

Segundo o advogado, a influência de Sampaio como dono de uma poderosa emissora de rádio e herdeiro de Waldir Sampaio fez com que ele recebesse decisões favoráveis da Justiça e tivesse até jornalistas que defendiam sua soltura.

“Embora com todos os réus já respondendo processo em liberdade, o Tribunal de Justiça de Goiás enviou, definitivamente, Sampaio e os outros quatro a júri popular pelo assassinato do jornalista”.

Com apoio de organizações que lutam pela liberdade de expressão, foi possível publicar artigos em jornais pelo país pedindo que uma decisão do STF que anularia todo o processo fosse revertida.

“Nos anos de 2014 e 2015, tivemos de conviver com páginas e perfis anônimos no Twitter e no Facebook cujo objetivo era difamar a vítima, Valério Luiz, bem como nós, familiares”.

Para o advogado, os diversos obstáculos para buscar justiça ao seu pai ilustra o “coronelismo incrustado nas elites não só de Goiás, mas do país”