Matéria de Gil Luiz Mendes
Diante de mais uma chacina policial no Rio de Janeiro e o assassinato de Genivaldo de Jesus em Sergipe, a Comissão Arns fez um pedido a um órgão da ONU sobre racismo e violência das forças para que observasse a alta letalidade policial no Brasil.
Em entrevista à Ponte, ex-secretário nacional de Direitos Humanos e membro da comissão Paulo Sérgio Pinheiro explica que Brasil virou pária internacional com a política de segurança pública que tem adotado
Com o pedido, a entidade quer chamar atenção da comunidade internacional aos casos registrados para que pressionem o governo Bolsonaro a dar respostas sobre os abusos policiais.
Pinheiro critica que o governo brasileiro tenha tido uma postura negacionista em relação aos direitos humanos: "O Brasil não só informava transparentemente esses fatos à ONU e à Comissão Interamericana, como se comprometia a tomar medidas”.
"Bolsonaro declarou que os assassinos da PM, os que executaram pessoas na Vila Cruzeiro, são heróis. Para ele, policial militar que faz execução sumária é herói. Você acha que algum país democrático quer ficar perto do nosso governo?"
O cientista político também avalia que o crescimento da extrema direita no Brasil e "o horror por parte das Forças Armadas em relação à investigação da Comissão Nacional da Verdade" foram subestimados.
"O Brasil tem o que eu chamo de etnografia branca, que é igual a Israel. Tem um apartheid lá contra os palestinos, aqui o nosso apartheid é contra os negros. [...] As PMs são verdadeiras forças de ocupação das comunidades pobres nas favelas", aponta.
Como membro da Comissão da Verdade, o cientista político diz que os países que julgaram e puniram os responsáveis pelos crimes da ditadura conseguiram avançar melhor na questão dos direitos humanos.
"Eu tenho firme convicção que deveria ter tido alguma sanção aos torturadores e aos ditadores, como na Argentina. Aqui os membros das FA e das polícias que torturaram, assassinaram, sequestraram, estão recebendo as suas pensões sem nenhum problema"
Pinheiro fala que a impunidade nos casos de violência policial, como o do massacre do Carandiru, mostra que o nosso sistema de justiça é falho: "O MP está se lixando, quando não está aliado às polícias estaduais"
Para ele, as eleições de 2022 ainda mostrarão as consequências dessa onda reacionária: “nas ruas, onde eles puderem, serão agentes da desordem e da violência".