‘Agora vocês estão sob os cuidados do governo federal’, diz Lula em visita ao Moinho

Em ato na última favela do centro de São Paulo, presidente criticou violência policial e deu recados para o governador Tarcísio. Ministros assinaram portarias que condicionam cessão do terreno à proteção dos moradores

Lula visita a favela do Moinho, no centro de São Paulo: “Agora vocês estão sob os cuidados do Governo Federal”, afirmou | Foto: Divulgação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou à favela do Moinho, no centro de São Paulo, por volta das 15h da quinta-feira (26/6). Foi recebido com celebrações por moradores que aguardavam desde as 6h da manhã para vê-lo e ouvi-lo de perto. Acompanhado por quatro ministros, Lula deixou claro, tanto em seu discurso quanto nas portarias assinadas sobre a favela, que a visita era mais que um compromisso na agenda: tratava-se de um recado ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) — cotado como seu possível adversário nas eleições de 2026.

“Agora vocês estão sob os cuidados do Governo Federal e nós vamos respeitar vocês”, disse Lula aos cerca de 200 moradores que se amontoavam em cadeiras e até nas lajes das casas para acompanhar seu discurso na quadra da comunidade. Em maio, naquele mesmo local, um pedido improvisado de socorro ao presidente havia sido escrito, após o início das demolições e o aumento da violência policial sob o comando de Tarcísio.

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O terreno onde está o Moinho pertence à União e, em 2023, passou a ser alvo de pedido de cessão por parte do governo estadual. A proposta faz parte do projeto de revitalização do centro da cidade, uma vez que a comunidade está a menos de um quilômetro da Praça Princesa Isabel, onde Tarcísio pretende instalar parte da sede administrativa do governo. O plano é transformar a área em um parque.

“Por mais que seja bonito um parque, ele não pode ser feito às custas do sofrimento de um ser humano. É importante que as pessoas que queiram visitar este parque não venham pisotear sangue de pobres que aqui foram agredidos para que eles fizessem [o parque]. Vamos fazer com decência e dignidade”, declarou o presidente.

A representante da Associação de Moradores, Flávia Silva, terminou seu discurso crítico a Tarcísio de mãos dadas com Lula | Foto: Divulgação

‘PM é para nos proteger, não para agredir’

Lula fez questão que o tratamento truculento e negligente do governo Tarcísio aos moradores do Moinho ganhasse destaque no evento. Em determinado momento, aproximou-se da representante da associação de moradores Flávia Maria da Silva, de 40 anos, que discursava, e pediu que ela relatasse à imprensa quantas vezes os barracos haviam sido destruídos por incêndios. A casa de madeira onde Flávia vive foi consumida pelas chamas duas vezes.

Em seguida, o presidente fez outro pedido: que ela falasse sobre a violência policial. “A polícia que o Tarcísio mandou para nós não foi para ter diálogo e, sim, agressão. Temos histórico de moradores com bala de borracha, cassetete, crianças na creche tomando bomba, idosos sendo atropelados aqui. Para nós foi uma vergonha porque nós ensinamos as crianças da comunidade que Polícia Militar é para nos proteger, não para agredir e nos tratar como traficantes”, disse Flávia, que terminou o discurso de mãos dadas com Lula.

“Por isso a gente pediu socorro, presidente Lula, porque nós íamos ser massacrados aqui dentro sem a imprensa poder filmar”, completou ela, em referência à ocasião, na quarta-feira (14/5), em que a Polícia Militar de Tarcísio tentou impediu a entrada de jornalistas durante operação na Favela do Moinho.

Compra assistida

Duas portarias foram assinadas diante dos moradores do Moinho. Ambas tratam do reassentamento das famílias e impõem condições para a cessão do terreno da União para o governo estadual. “O que estamos fazendo aqui é construindo as condições para a saída das famílias, ainda não é o momento da desocupação, estamos garantindo que as pessoas possam sair daqui com dignidade”, disse a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck.

“A saída precisa ser por livre e espontânea vontade, com a segurança de que vocês poderão escolher onde vão morar. E, depois que tudo estiver resolvido e as famílias tiverem saído, esse espaço passará a ser uma área pública, acessível para todos”, completou a ministra. Uma das portarias trata do programa que estabelece a modalidade de compra assistida de moradias via Minha Casa Minha Vida, modelo já utilizado para atender desabrigados nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul no ano passado.

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Cada família terá direito a um imóvel no valor de R$ 250 mil. Desse total, R$ 180 mil serão custeados pelo governo federal e os R$ 70 mil restantes, pelo governo estadual. A comunidade comemorou o modelo, que contrasta com a proposta inicial do governo Tarcísio, baseada em contratos de financiamento considerados impagáveis pelos moradores.

Apesar da parceria entre os dois entes, Tarcísio não compareceu ao evento. Preferiu ir a São Bernardo do Campo, no ABC paulista — berço político de Lula — entregar moradias pela Casa Paulista. Ainda estava prevista na agenda a entrega de uma obra em Lagoinha, município de 5 mil habitantes. Segundo o jornal O Globo, só uma assessora da Secretaria de Habitação representou o governo estadual no Moinho.

Recados de lado a lado

Durante sua agenda no ABC, Tarcísio também deu recados, e afirmou que, quando o governo federal entrou nas negociações, quase 200 famílias já haviam sido contempladas com moradias: “A gente fez o que ninguém teve coragem de fazer, entrar no Moinho e resolver a equação que não é só habitacional, envolve assistência, também. No início havia resistência do próprio governo federal na ação no Moinho e a gente teve coragem e entrou. A parceria é muito bem-vinda, agora tem as outras políticas públicas. O nosso objetivo não é fazer evento, é fazer entrega, é resolver o problema.”

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Lula, por sua vez, ressaltou que Tarcísio foi convidado. “O governador foi convidado para vir aqui, porque todo lugar que eu vou eu convido governador”, declarou. Inicialmente, o evento aconteceria no galpão do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Segundo Poder360 e Folha de S.Paulo, o governo alterou os planos temendo baixa adesão. A Folha também apurou que o local inicial desagradava Tarcísio, já que o MST é alvo de críticas do governador. Acompanharam o presidente os ministros Márcio Macêdo (Secretaria-Geral), Esther Dweck (Gestão e Planejamento), Jader Filho (Cidades), Fernando Haddad (Fazenda) e a primeira-dama Janja Lula.

Moradores pressionaram Lula após violência policial

A tensão no Moinho aumentou em abril, com o início das primeiras mudanças. A associação de moradores contestava os dados da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) sobre as famílias dispostas a deixar o local e criticava a ausência de acordo coletivo ou de proposta justa, como moradias subsidiadas.

Sem avanços nas negociações e sem mediação ativa do governo federal, as remoções continuaram com apoio da Polícia Militar. Em uma das ações, três pessoas foram feridas por munições não letais e duas foram presas. Em uma das ocasiões, a Ponte ouviu o desabafo de uma mãe, indignada após seu filho ser atingido por balas de borracha pelas costas, a caminho do trabalho.

“Até quando o Choque vai vir nos humilhar? Até quando a CDHU vai fazer essa palhaçada? Até quando, Lula? Responde que a terra é sua, responde. Na minha casa, ninguém entra sem a minha permissão. Se eles estão aí, a permissão é sua, Lula”, disse, em 13 de maio, Cíntia Bonfim da Silva, de 40 anos.

Planalto negou ter autorizado demolições

A pressão levou o governo federal a declarar que não autorizou a demolição de casas no Moinho — prática em curso havia pelo menos um dia na data da manifestação. Já o governo estadual alegava respaldo em um ofício da União. No mesmo comunicado, o governo Lula repudiou o uso de força policial, destacando que a PM havia usado bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

Antes da nota mais clara, a Ponte já havia questionado a SPU sobre a autorização para as demolições e o uso da PM. Na resposta, o governo federal mencionou apenas um trecho do ofício que falava em “descaracterização” das construções — sem esclarecer se isso incluía ou não demolições.

Somente em um segundo comunicado, após a ação policial com feridos e prisões, o governo esclareceu que o documento não autorizava demolições. Segundo a nova nota, “descaracterização” referia-se a intervenções cuidadosas, para evitar danos às casas vizinhas e minimizar impactos na rotina da comunidade. Ainda assim, o termo não foi detalhado.

Reassentamento ainda gera dúvidas entre moradores

O ministro Jader Filho explicou, durante o ato, que cerca de 900 famílias do Moinho serão realocadas para imóveis em qualquer ponto da cidade. Segundo o site do governo federal, a CDHU e o ministério mapearam o centro e identificaram imóveis elegíveis. A mudança para locais distantes era uma das preocupações dos moradores, que já possuíam vínculos de trabalho, escola e serviços na região.

A comerciante Cíntia optou por se mudar para Sorocaba, no interior. A data da mudança, no entanto, ainda é incerta. “O presidente estar aqui pra mim é muito importante. Ele informar que não foi feita a sanção ainda, é mais importante ainda porque a [Polícia] Civil ainda entra perguntando porque que a gente ainda permanece na área. Mas, em compensação, não tem data. Quanto tempo mais a gente pode permanecer? Esse auxílio moradia, como vai funcionar?”, questiona.

No site oficial, consta que o cronograma detalhado ainda será divulgado, mas que o cadastramento e as assinaturas de contrato já estão em andamento. O texto também informa, e Jader confirmou em discurso, que as famílias que já deixaram o Moinho poderão ser incluídas no programa, com o valor do auxílio-aluguel reajustado de R$ 800 para R$ 1.200.

Moradores do Moinho subiram até em lajes para acompanhar a visita do presidente | Foto: Divulgação

Presença emociona moradores do Moinho

A visita de Lula emocionou os moradores. Próximo aos trilhos das linhas Rubi e Turquesa da CPTM, faixas saudavam o presidente. “Tô com Lula”, dizia uma, na porta de um bar. Nem o sol forte afastou os cerca de 200 moradores que conseguiram entrar na quadra, sob forte esquema de segurança. Quem não entrou, se espalhou pelas vielas, esperando ver o presidente na saída.

Lula também visitou o Centro Oratório, mantido pela Instituição Aliança de Misericórdia, onde assistiu à apresentação de um coral de alunos do contraturno escolar. Cantaram para ele “Trem Bala”, de Ana Vilela. Depois, andou pelas ruas da comunidade e viu alguns dos barracos já destruídos. Moradores denunciam que o abandono da área após as remoções tem causado proliferação de ratos e escorpiões.

Na casa de Flávia, Lula e Janja tomaram café com biscoitos. A líder comunitária se mostrou tímida, mas logo se soltou: “A Janja que me deixou mais solta, ela é uma pessoa muito humana, muito humilde”, contou. Nos poucos minutos ali, Flávia e Lula falaram sobre Caetés, Pernambuco, cidade natal de ambos. “A família do Lula em si, praticamente é meus vizinhos lá”, disse, animada.

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A dona de casa Leidivânia Domingas, 30, garantiu um lugar na primeira fila e só saiu quando o presidente foi embora. Durante uma incursão policial, ela precisou correr com sua filha de 1 ano e 11 meses para escapar do gás. Ver Lula de perto foi, segundo ela, um alívio. “Foi muito bom finalmente ver ele.”

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