Após prisões, Gaviões da Fiel protesta contra “perseguição política”

    Diretoria de organizada corinthiana acredita que prisões na sexta-feira (15/4) foram de caráter político para desmobilizar ato; protesto reuniu mais de três mil manifestantes, afirma a uniformizada

    Por Kaique Dalapola (texto) e Daniel Arroyo (foto)

    “Eu não roubo merenda/Eu não sou deputado/Trabalho todo dia/Não roubo meu Estado”.

    Esse foi um dos gritos que mais ecoaram na noite de sexta-feira (15), no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo (SP). O local reuniu mais de três mil pessoas, de acordo com a organização do ato – a maioria, integrantes da torcida organizada Gaviões da Fiel –, que protestaram contra a elitização do futebol, as denúncias de desvio de verbas das merendas escolares, que tem como suspeito o deputado estadual Fernando Capez (PSDB), o monopólio da Rede Globo nas transmissões das partidas de futebol, e a suposta perseguição política que a Gaviões está sofrendo em 2016.

    O ato estava marcado desde 9 de abril, quando a Gaviões da Fiel se reuniu com os associados em sua sede, na Zona Norte da capital. O evento foi muito divulgado por meio de página no Facebook, e milhares de pessoas confirmaram a presença.

    Um dos motivos que levaram ao protesto dos torcedores organizados foi que, ainda na madrugada da sexta-feira, dia do ato, a Polícia Civil iniciou uma operação chamada “Cartão Vermelho”. Na operação, mais de 200 policiais civis, em 100 viaturas, foram em diversas sedes de torcidas organizadas em São Paulo, Campinas, Santos e alguns municípios da Grande São Paulo com mandados de busca e apreensão. Segundo Chico Malfitani, um dos fundadores da Gaviões, a polícia apreendeu na sub-sede da organizada no ABC Paulista alguns caixões que seriam usados na manifestação para simbolizar a “morte das arquibancadas paulistas”.

    Segundo a Gaviões da Fiel, a operação Cartão Vermelho, da Polícia Civil, prendeu 10 integrantes da torcida suspeitos de participarem de confrontos com palmeirense em 3 de abril. Para os diretores da torcida, essas prisões são de “caráter político”, pois ocorreram justamente no dia do ato, para desmobilizar o apoio à manifestação. “A gente sabia que nós íamos sofrer repressão, mas não sabíamos que seria tão violenta. Prenderam 10 jovens da periferia sem base jurídica, sem denúncia de nenhum palmeirense”, afirmou Wildner Rocha, o Pulguinha, ex-presidente da Gaviões.

    “É fácil colocar nós, moradores da periferia que não fala direito, na cadeia. Quero ver prender quem rouba merenda e quem mata oito pais de família na sede de uma torcida”, citou o vice-presidente da torcida, Rodrigo Gonzales, o Digão, referindo-se às suspeitas de envolvimento de Capez nos desvios de verba de merenda, e às punições aos PMs acusados de participação na chacina que deixou oito mortos na sede da torcida Pavilhão Nove.

    Segundo reportagem da “Folha de S.Paulo” de 16/04 (ow.ly/4mMoYV), ao menos cinco pessoas que participaram diretamente da operação da Polícia Civil corroboraram a suspeita da Gaviões e afirmaram ao jornal que a ação teve cunho político. Segundo elas, entre as quais três seriam delegados, a “Cartão Vermelho” serviria também para dar mais visibilidade ao secretário estadual de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, que esteve na sede da organizada. Ele teria articulado pessoalmente a operação e exigido que esta deveria acontecer na madrugada de sexta-feira. As fontes ouvidas pela “Folha” disseram ainda que “não se recordam de outra operação recente que tenha tido tamanha interferência da Secretaria de Segurança”.

    A operação da Polícia Civil também “lacrou” a sede da organizada corinthiana. Foi construído um muro em frente ao portão, impossibilitando o funcionamento comercial da sede. Durante o ato, diretores da Gaviões da Fiel receberam a resposta de que saiu liminar da Justiça para a liberação do funcionamento da sede, e a derrubada do muro foi comemorada pelos integrantes da entidade. Além disso, a Gaviões ainda fez um minuto de silêncio em “homenagem à morte das arquibancadas dos estádios de São Paulo”.

    Representante do MPL (Movimento Passe Livre) e estudantes secundaristas tiveram espaço no carro de som da torcida, e declararam apoio às pautas da Gaviões da Fiel. Digão, no entanto, afirmou que a Gaviões “não fecha com nenhum partido, nem movimentos, mas defende bandeiras de reivindicações e pautas de políticas sociais”.

    Durante todo o ato, membros da diretoria da uniformizada ressaltava a importância de não reagir a supostas provocações que poderiam acontecer aos integrantes da organizada. Segundo ele, tudo o que a imprensa e o poder público queria era que houvesse conflitos no local. Contudo, a manifestação acabou por volta das 21h15 sem nenhum registro de ocorrência. “O que mais esperavam era que isso virasse uma ‘bomba’. Mas se frustraram, porque somos torcedores e trabalhadores. Só queremos paz e liberdade nas arquibancadas”, disse Digão.

    OUTRO LADO

    A reportagem da Ponte não conseguiu contato com o deputado estadual Fernando Capez. A Secretaria de Segurança Pública não havia respondido à solicitação de posicionamento até a publicação desta reportagem.

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