Há mais de uma década, assumimos o compromisso de denunciar as injustiças e as violências cometidas por agentes do estado — mas também de acompanhar cada um desses casos e não deixá-los caírem no esquecimento

O jornalismo hegemônico ainda tem a mesma sanha capitalista devoradora de novidades. Está sempre atrás do próximo furo, que pode durar minutos, horas ou, com sorte, alguns dias. Depois somem nos arquivos digitais dos grandes portais, esquecidas como produtos facilmente descartados.
O caso da favela do Moinho é um desses exemplos. Foi muito bom para a audiência estar ali, presenciar a violência policial, criminalizar moradores a todo texto, divulgar o acordo entre governos estadual e federal e só retornar quando lideranças do local foram presas, para reforçar a ideia de que ali era o “bunker” de drogas do PCC.
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Mas o que acontece depois que a notícia sobre vidas humanas sai do trending topics ou da página principal? Como ficou a vida das pessoas? O acordo tem sido cumprido? Como está a vida hoje no Moinho? Quantas pessoas já saíram? Quem de fato recebeu o imóvel prometido? Isso não importa para esse tipo de jornalismo que usa informação como produto descartável.
Essas perguntas levaram nossa equipe mais uma vez ao local para entender as condições de quem ficou, os problemas de transparência e as demoras burocráticas. Nós não abandonamos histórias que chegam até nós, porque sabemos que conseguimos contribuir sendo a pedra no sapato de quem adoraria que isso ficasse esquecido. E por isso, também, que já ajudamos a tirar mais de 100 pessoas inocentes da prisão com nosso jornalismo, que procura causar impacto nas vidas invisibilizadas, ampliando aquilo que elas têm a dizer sobre a constante violação de direitos humanos básicos.
Jornalismo como ferramenta de mudança
A Ponte acompanha a Favela do Moinho há alguns anos, entre idas e vindas de reintegração de posse, incêndios e recorrentes denúncias de violência policial. Sempre estivemos ali, pois nosso jornalismo tem compromisso. E continuamos em contato com moradores do local, sempre alertas às histórias e mudanças que podem ser visibilizadas.
Foi assim que descobrimos que o entulho das casas derrubadas segue no local, sendo fonte de escorpiões e ratos; que os moradores que permanecem ali estão com medo e inseguros de que o acordo não seja cumprido; que diante da entrada da favela, há um fluxo de usuários de drogas se formando, apesar do discurso oficial de que o desmonte da favela pretende combater o tráfico.
Nosso posicionamento não se resume ao caso do Moinho ou é ferramenta de retórica. A gente vive isso. Acompanhamos movimentações de processos ou novidades em casos que já aconteceram. Recebemos denúncias por todos os lados e nos frustramos quando precisamos escolher por só temos dois repórteres. Somos movidos por fazer do jornalismo uma ferramenta para fazer a diferença. Somos uma equipe pequena, não temos um orçamento grande e ele tem estado ameaçado – e trabalhamos diuturnamente não apenas com números de audiência, mas, acima de tudo, com vida e morte, que nos atingem de diferentes formas todos os dias.
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Quando pedimos apoio financeiro do nosso público, não é para comprar uma Ferrari para cada um da equipe. Mas para que possamos fazer um jornalismo melhor, que alcance mais pessoas; para contar com uma equipe maior de profissionais comprometidos, que produzam novos formatos; para manter nossos advogados pagos e uma reserva financeira para o caso de perdermos algum processo judicial; para comprar equipamentos e manter os serviços de proteção digital contra ataques (nosso site foi derrubado por um desses em 2020 e já aconteceu o mesmo com nosso Instagram); para manter atualizados os equipamentos de segurança usados por nossos profissionais na cobertura de protestos.
A Ponte Jornalismo nunca quis lucrar, tanto que somos uma associação sem fins lucrativos. Queremos apenas continuar o trabalho que desenvolvemos há 11 anos: a missão de não deixar cair no esquecimento histórias de vidas regidas pelo signo da violação e da violência.
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