Assim como a bizarra saudação de Elon Musk na posse de Trump ficou por isso mesmo, Ministério Público paulista também não viu nos braços em riste e cruzes em chamas da PM paulista os sinais de uma cultura da morte

Semana passada, o Ministério Público em São José do Rio Preto (SP) arquivou duas representações que apuravam as imagens, divulgadas pela própria PM, de uma perturbadora cerimônia de policiais à noite, diante de uma cruz em chamas em São José do Rio Preto (SP).
Em abril, o perfil oficial no Instagram do 9º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (9º Baep), unidade especializada da PM naquela cidade do interior paulista, publicou um vídeo em que policiais estavam perfilados em frente a uma cruz em chamas. Dois deles, ainda, apareciam com o braço em riste — no que sugeria uma saudação nazista.
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A Ponte foi um dos primeiros veículos a questionar o conteúdo daquela “celebração”. Na esfera cível, que apurava a eventual prática de improbidade administrativa por uso indevido de recursos públicos no ato, o promotor de Justiça Sérgio Clementino considerou ter se tratado de algo corriqueiro no encerramento da formação de novos agentes do 9º Baep. “Sendo um treinamento, a utilização de pessoal e viaturas está inserida no rol de atividades próprias da instituição”, considerou o promotor.
O MP-SP entendeu também não haver elementos para responsabilização criminal dos participantes do rito macabro. Em um despacho na quarta-feira (11/6), o promotor Cleber Takashi Murakawa disse ter esclarecido o caso, ao ouvir os policiais e o comandante do 9º Baep, tenente-coronel José Thomaz Costa Júnior — que chegou a ameaçar uma jornalista da imprensa local em razão da repercussão negativa, ainda que o vídeo em questão tivesse sido divulgado no Instagram do seu batalhão.
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Os policiais, escreveu o promotor Murakawa, “esclareceram que a cerimônia foi realizada com a presença somente de militares fardados e sem nenhuma relação com rituais da ‘Ku Klux Klan’ e de atividades supremacistas, ressaltando que ninguém utilizava capuz e vestes típicas da referida organização”.
E arrematou: “A cerimônia de entrega de braçais não teve nenhuma conotação de atividade de perseguição racista ou discriminatória, pois contou com quatro Policiais Militares de raça negra e que integram o 9º Baep”. Ah, bom.
No dia 20 de janeiro, durante um comício de apoio à posse do presidente norte-americano Donald Trump, o bilionário Elon Musk fez um gesto que muita gente munida de dois olhos e algum conhecimento de História relacionou à saudação do regime nazista alemão. Em uma publicação em sua rede social, o bilionário limitou-se a ironizar: “É tãããão cansativo.” Pois é mesmo.
O poder do exemplo
Ainda que não visse elementos para a condenação dos envolvidos nas duas representações, ao arquivar sem qualquer ressalva ou alerta o flerte da polícia paulista com uma iconografia que remete ao racismo e ao genocídio, o Ministério Público perde mais uma vez a chance de exercer — nem que seja no plano simbólico — seu papel constitucional de controlar a atividade policial.
A política é feita de atos, mas também de palavras. Palavras que inflamam e incitam à violência devem ser coibidas, antes que se transformem em atos, e alimentem (ainda mais) a cultura da morte que a Ponte vem denunciando há mais de uma década no país. O óbvio precisa ser dito e repetido: o policial é um servidor público que deveria proteger a população e não tentar intimidá-la.
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