‘Assassinado na covardia’: Baep executou homem com cinco tiros em Bauru (SP), dizem familiares

    Giovani da Silva Rodrigues, 29, foi morto quinta-feira (26/6), na cidade do interior paulista, por agentes do 13º Baep, que alegam ter havido reação. Família relata ameaças e diz que vítima estaria deitada e indefesa quando foi alvejada

    Família de Giovani da Silva Rodrigues diz que ele vinha sendo ameaçado e extorquido e que estava deitado e indefeso quando foi alvejado pelos policiais | Foto: Arquivo pessoal

    “Ele foi assassinado pela polícia na covardia. Ele não estava armado”, afirma o eletricista Anderson Bruno da Silva, de 36 anos, descrevendo a noite da última quinta-feira (26/6), em que seu irmão Giovani da Silva Rodrigues, 29, foi morto a tiros por agentes do 13º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (13º Baep) em Bauru, cidade do interior paulista. 

    Anderson e outros familiares afirmam que o Baep vinha perseguindo e ameaçando Giovani há meses. E afirmam que teria ocorrido uma execução premeditada — e não um confronto após uma denúncia anônima, como alegado no Boletim de Ocorrência (BO) registrado pelos policiais. O documento registra que, durante a abordagem, os PMs não usavam câmeras corporais.

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    Ainda segundo os familiares, Giovani não portava armas e nem drogas no momento em que foi assassinado. Os ilícitos registrados no BO, afirmam os familiares, teriam sido plantados pelos policiais na tentativa de fabricar uma justificativa para a morte. E a vítima estaria deitada e indefesa quando foi alvejada por cinco tiros.

    Além disso, após o assassinato, os mesmo agentes envolvidos teriam ameaçado irmãos da vítima e debochado do sofrimento da mãe de Giovani.

    ‘Entraram na casa e só ouvi os disparos’

    Kayene Rafaela Aguiar da Silva, de 19 anos, era companheira de Giovani e estava com ele poucos minutos antes da chegada do Baep. Por volta das 19h30 a jovem conta que saiu para comprar leite para sua filha em um comércio nas proximidades. “Peguei minha filha, coloquei roupa de frio e subi para o mercadinho. Quando cheguei lá, liguei pra ele [Giovani] falando que não ia pegar mistura e que seria melhor pedir uma pizza”, lembra.

    “Ele concordou, paguei o leite e mais algumas coisas para a criança. Quando estava descendo, vi uma viatura do Baep passando em alta velocidade em direção à rua em que a gente estava. Peguei o celular para ligar e avisar, mas não deu tempo. Quando cheguei na esquina, a vizinhança me falou que tinham ouvido tiros. Eu não queria acreditar que tinha sido nele”, emociona-se Kayene. 

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    Enquanto Kayene estava ausente, uma outra testemunha, que preferiu não se identificar, observou a chegada da polícia. “Eu estava lá na frente com meu marido fumando. A polícia chegou, enquadrou a gente e nos colocou no meio da rua. Entraram dentro da casa e só ouvi os disparos. Foram seis”, diz. Para a testemunha, Giovani não estava armado. “Eu não conhecia ele muito bem, mas sei que era tranquilo. Não mexia com ninguém”, conta. Ela afirma, ainda, que nunca viu o homem armado.

    Casa onde estava Giovani da Silva Rodrigues quando foi morto por PMs do 13º Baep em Bauru | Foto: Guilherme Matos/Ponte Jornalismo

    Inconsistência na perícia

    O BO conta uma história bem diferente. O documento afirma que o 13º Baep recebeu uma denúncia anônima, informando a presença de um indivíduo com armas e drogas no endereço. Ao chegar no local, abordaram um casal sentado em frente à residência onde ocorreu o caso. Nesse momento, Giovani da Silva Rodrigues teria saído da casa com um saco, visto os policiais e, ao perceber a abordagem, correu para dentro e arremessou o objeto por cima de um muro.

    Dois policiais, então, teriam ido para a residência atrás do suspeito. Segundo o relato oficial, os policiais o flagraram tentando pegar algo sobre um móvel. Ao ser abordado, ele teria ignorado a ordem de parada e sacado um revólver, disparando contra os agentes. Os policiais, então, teriam reagido com cinco tiros.

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    A polícia afirma ainda no BO que, além do revólver, havia uma espingarda na casa. As apreensões registram, ainda, 4 kg de maconha, 1,1 kg de cocaína e 166 g de crack. Anderson e a família, no entanto, afirmam que as armas e drogas nunca existiram. O próprio BO aponta uma inconsistência na perícia. Segundo o documento, um dos cartuchos deflagrados pela PM durante os disparos não foi localizado. 

    As informações registradas no boletim de ocorrência sobre as drogas apreendidas também apresentam fragilidades. De acordo com o próprio documento, os lacres dos pacotes com os entorpecentes não foram abertos para preservar a cadeia de custódia, o que impediu a descrição detalhada do conteúdo. Isso significa que não foi possível registrar no auto de apreensão a quantidade exata de itens, invólucros ou mesmo a natureza precisa das substâncias encontradas.

    A autoridade policial reconhece no BO que essa diligência ficou “inicialmente prejudicada” e que os materiais, incluindo pinos plásticos vazios (eppendorfs), foram apreendidos a peso, sem qualquer contagem no momento da coleta.

    Omissão de socorro e ameaças

    De acordo com o BO, logo após os tiros os policiais prontamente acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) para socorro da vítima. Quando os médicos chegaram ao local, cerca de 20 minutos após a ocorrência, foi constatado o óbito. Mas os familiares dizem que o Samu foi impedido de entrar na cena do crime e o socorro negado, como teria ocorrido em outros casos em Bauru.

    Ainda segundo a família, mesmo após apresentarem a documentação de identificação, o corpo foi registrado e encaminhado como indigente. Familiares afirmam que a identificação do corpo foi dificultada e demorada.

    A mãe de Giovani, Rosana da Silva, de 53 anos, conta que o filho vinha sendo perseguido pelo Baep há meses. Segundo ela, na sexta-feira (20/6) anterior ao assassinato ele recebeu ameaças durante uma abordagem. “Mãe, eu sei que eu vou morrer, eu sei que eu vou morrer”, teria dito o filho na ocasião. 

    Giovani estaria sendo alvo de extorsão

    O irmão, Anderson Bruno, disse ter recebido mensagens do próprio Giovani em outubro de 2024 nas quais ele expressava medo da polícia — os prints foram compartilhados com a reportagem. Para tentar escapar das ameaças, Giovani chegou a passar meses fora de Bauru e, ao retornar, mudou de endereço dias antes de ser morto. Segundo os familiares, a nova moradia foi escolhida justamente para evitar que os policiais invadissem a casa da mãe, onde moram crianças.

    “Na sexta-feira, a polícia mostrou pra ele uma foto daqui de casa. E disseram: ‘Se você ficar lá, vou entrar na casa da sua mãe e quebrar tudo. Você vai morrer de qualquer jeito’. Foi por isso que ele mudou de endereço”, narra a mãe. Os policiais, de acordo com Anderson e Rosana, exigiam que Giovani entregasse armas e dinheiro. 

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    Segundo a família, as ameaças não cessaram após a morte. No dia seguinte ao crime, três irmãos de Giovani foram abordados pelos mesmos policiais que participaram da ação. Um dos familiares foi fotografado e acusado de ser membro de facção, mesmo sem qualquer envolvimento comprovado. “Sua mãe tá sofrendo, né? Ela vai sofrer mais”, teria dito um dos agentes durante a abordagem. A mãe relata que policiais passaram a circular com frequência em frente à residência da família, intensificando o clima de intimidação. “O Giovani não tinha arma. Não tinha arma nenhuma e não houve troca de tiros. Ele não tinha passagem pela polícia”, afirma a mãe.

    Ela diz que na sexta-feira passada presenciou o Baep exigindo a entrega de armas e dinheiro por parte de Giovani. “Tinham cinco viaturas e eles queriam armas. Meu filho não tinha arma. Queriam dinheiro. Não fizeram nada porque tinha muita gente, mas juraram que iam matar o Giovani”, conta. A família não sabe precisar quando as ameaças começaram. Giovani mudou para outras cidades, na tentativa de deixar a “poeira baixar” e havia se mudado há poucos dias para o local onde morreu.

    Denúncia de tortura envolveu mesmo batalhão

    O caso de Giovani da Silva Rodrigues apresenta semelhanças com outra ocorrência envolvendo o Baep em Bauru. Em março deste ano, a Ponte revelou que Lucas Rafael Correia, um jovem negro morador do bairro Ferradura Mirim, teria sido vítima de tortura física e psicológica por parte de policiais do mesmo batalhão, o 13° Baep. Os agentes, na ocasião, também teriam exigido que ele entregasse armas e indicasse o paradeiro de outras pessoas supostamente ligadas à criminalidade.

    Na ocasião, também houve denúncias de intimidação continuada após os episódios, com viaturas rondando as casas das vítimas e abordagens frequentes a familiares. 

    O que dizem as autoridades

    A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP) sobre as circunstâncias da morte de Giovani da Silva Rodrigues, as supostas ameaças que ele viria recebendo, além da acusação da família de que houve demora no socorro e de que ele foi encaminhado ao IML como indigente, mesmo com a presença de familiares e documentos no local. Também foi perguntado sobre a falta de um dos cartuchos deflagrados na operação para a perícia.

    Em resposta, a SSP-SP reafirmou que “os policiais militares foram recebidos a tiros durante a abordagem e reagiram”. E que o socorro foi pedido e constatou o óbito de Giovani. Também foi informado que “os agentes apreenderam grande quantidade de drogas — entre elas cocaína, maconha e crack — além de armas com numeração suprimida”.

    Leia a íntegra da nota da SSP-SP

    Um homem de 30 anos morreu na noite de quarta-feira (26) após uma troca de tiros com policiais do 13º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP) durante uma operação contra o tráfico de drogas em uma residência no bairro Parque Bauru, no interior paulista. De acordo com o boletim de ocorrência, os policiais militares foram recebidos a tiros durante a abordagem e reagiram, atingindo o suspeito. O homem foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), mas não resistiu aos ferimentos.

    No imóvel, os agentes apreenderam grande quantidade de drogas — entre elas cocaína, maconha e crack — além de armas com numeração suprimida, munições e pinos utilizados para embalar entorpecentes. A perícia técnica foi acionada e o corpo encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) para exames necroscópicos. O caso foi registrado como homicídio decorrente de oposição à intervenção policial na Delegacia Seccional de Plantão de Bauru. A 3ª Delegacia de Homicídios da DEIC Bauru instaurou inquérito policial e acompanha as investigações para esclarecer todas as circunstâncias do caso, assim como a Polícia Militar, por meio de um Inquérito Policial Militar (IPM).

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