Baixada Fluminense passa a ter 116 áreas de desova de corpos em meio a expansão de milícias

    Número de cemitérios clandestinos, onde vítimas de desaparecimento forçado são descartadas, subiu 26% na região, segundo mapeamento da IDMJR. Atuação de milicianos é parte de estratégia de domínio de mercado imobiliário

    Belford Roxo, na Baixada Fluminense, teve 17 pontos de desova de corpos identificados por mapeamento | Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

    Um levantamento da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR) identificou 116 cemitérios clandestinos e outras áreas de desova de corpos em municípios da Baixada Fluminense, no estado do Rio de Janeiro, no ano passado. O número subiu 26% em relação ao ano anterior, em meio à expansão de milícias — interessadas no domínio do mercado imobiliário na região, segundo a entidade.

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    No boletim “Especulação imobiliária e desaparecimentos forçados”, lançado pela IDMJR nesta quinta-feira (28/8), ocasião em que também realizou um seminário sobre o tema na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), a entidade descreve um aumento contínuo dessas áreas, onde são descartados os corpos de vítimas de desaparecimentos forçados por atuação de milícias, polícias, grupos de extermínio, matadores e facções de tráfico.

    Mapeamento da IDMJR mostra áreas em que foram identificados cemitérios clandestinos | Imagem: IDMJR/Reprodução

    Cemitérios clandestinos concentram-se em áreas de milícia

    Em 2021, quando a IDMJR passou a fazer levantamentos sobre o tema, foram identificados 21 desses pontos de desova na Baixada Fluminese. Em 2022, o número subiu para 77. Já em 2023, foram encontrados 92 desses cemitérios clandestinos — que podem ser terrenos baldios, lixões, áreas ermas, locais que beiram estradas e linhas férreas, e até trechos de rios que cortam a região.

    No mapeamento mais recente, de 2024, a maioria dessas áreas concentrou-se em três municípios da Baixada Fluminense: Nova Iguaçu (com 28% deles), Belford Roxo (15%) e Duque de Caxias (13%). São justamente, conforme indica o documento, territórios sob atuação de milícias.

    Para Fransérgio Goulart, coordenador-executivo da IDMJR, o aumento no número desses pontos evidencia ainda uma ligação entre a expansão dos grupos milicianos e as forças policiais no Rio. “Boa parte dessas áreas é de conhecimento das polícias”, afirma ele à Ponte.

    Desaparecimentos forçados em favor da especulação imobiliária

    O boletim da IDMJR também aponta que a prática de desaparecimento forçado tem sido utilizada por grupos milicianos para forçar o deslocamento interno de populações. Depois de desocupadas, essas áreas se valem de investimentos de urbanização pelo Estado em favor da especulação imobiliária.

    A entidade cita como exemplo um caso de Belford Roxo, onde, de 17 cemitérios clandestinos, 12 estão em áreas de milícia e outros cinco em territórios sob domínio de facções de tráfico. Em 2021, um destacamento da Polícia Militar foi implementado no Complexo do Roseiral, em Belford Roxo, devido à repercussão do desaparecimento forçado de três crianças.

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    Em resposta ao caso, também houve uma megaoperação no município que deixou mais de 50 mortos e outras cinco vítimas de desaparecimentos forçados em 100 dias — uma atuação de terror do Estado, segundo o IDMJR, que forçou o deslocamento da população. Junto da nova instalação militar, o poder público anunciou um pacote de obras e políticas sociais para a localidade. Os investimentos em urbanização vieram em uma altura em que a área passou a ter domínio de milícias.

    “Assistimos à utilização da política urbana para fins meramente comerciais e lucrativos através do processo de valorização mobiliário, em completa articulação, com representantes do Estado, sob véu da chegada de direitos sociais a população acreditou que a revitalização urbana melhoria as condições de vida para os moradores. Entretanto, o que se observou foi o processo de segregação socioespacial e o
    deslocamento da população para outras regiões da cidade ainda mais precárias”, escreve a entidade.

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