Dados obtidos pela Ponte via LAI demonstram que, só em 2024, foram 25 vítimas — quase o dobro do ano anterior. Família do soldado Ronaldo Venâncio atribuiu acidente no mês passado a jornada exaustiva de trabalho

Ronaldo Venâncio da Silva, de 33 anos, deixou a capital paraibana de João Pessoa com o sonho de integrar a Polícia Militar do estado de São Paulo. Viajou diversas vezes até conseguir passar no concurso. Este mês, ele completaria dois anos na corporação, mas não houve tempo para comemorar.
No dia 28 de maio, ele morreu quando a moto que dirigia de volta para casa após o trabalho colidiu na traseira de um caminhão na Rodovia Régis Bittencourt, em Itapecerica da Serra, na região metropolitana.
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Venâncio é o terceiro policial do 37º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M) que perde a vida em um acidente nos últimos três meses. Em abril, o soldado Igor Gonçalves de Carvalho Romero, da mesma idade e companhia de Venâncio, morreu enquanto perseguia uma motocicleta em fuga durante uma operação policial. Já em março, o soldado Marcelo Franco dos Santos Junior, 30, faleceu em um acidente de trânsito que a PM não deu mais detalhes.
Em 2024, os acidentes foram a principal causa de mortes de policiais militares da ativa no estado. Foram 25 vítimas, quase o dobro do ano anterior, que tinha contabilizado 13, de acordo com dados da Polícia Militar obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI).

Mais de 12 horas de jornada
Abalada, a família de Venâncio ainda busca respostas e quer saber se a tragédia poderia ter sido evitada. Parentes denunciam que o soldado teve uma jornada de trabalho exaustiva que se iniciou na noite do dia 27 de maio e seguiu até a tarde do dia seguinte. “Ele era um exemplo para mim, era uma pessoa excepcional, evangelista. Ele ia ser consagrado pastor na semana que morreu”, conta um parente que pediu para não ser identificado. O soldado deixou uma esposa e um filho de 10 anos.
Segundo documento obtido pela Ponte, o policial foi escalado para trabalhar das 19h às 7h30. Um familiar do soldado afirma que ele acabou sendo obrigado a comparecer a uma reunião obrigatória após o expediente, que se iniciaria às 8h30, o que fez com Venâncio não tivesse a oportunidade de descansar ou de se alimentar. “Alguns colegas dele falaram para a gente que ele ficou o tempo todo de pé porque, se ele se sentasse, iria dormir e, se dormisse, sofreria punição”, diz o familiar.
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A reportagem teve acesso ao comunicado assinado pelo comandante do 37º BPM/M, tenente-coronel Mauro Carreira de Macedo, em 23 de maio, no qual convocava a tropa para reunião geral que seria dividida nos dias 28 de maio, 3 e 4 de junho, em uma unidade da igreja Assembleia de Deus.
A reunião está indicada como ordem de serviço, ou seja, de comparecimento obrigatório e caberia aos comandantes de cada companhia do batalhão dividirem o efetivo nos dias. “A escala deverá ser composta pelos policiais de folga, sendo garantida a compensação de 1 (um) dia de folga posteriormente, com exceção dos policiais que se apresentarem no seu dia de serviço, especialmente os pertencentes às seções administrativas”, escreveu o tenente-coronel.

Motorista diz que carreta estava parada
De acordo com a família, Venâncio foi liberado às 15h, depois da reunião. O acidente, no boletim de ocorrência, consta às 16h15. O motorista da carreta disse na delegacia que estava parado na rodovia, a caminho do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) para realizar a pesagem do veículo, quando “ouviu e sentiu uma pancada e barulho”. Ao descer do caminhão, viu que um motociclista havia batido na traseira e chamou a polícia.
Os parentes estão em busca de câmeras de segurança. “Tudo que a gente fizer não vai trazer ele de volta. Mas a gente pode sim ir atrás para que outras pessoas não venham a morrer. E também que os comandantes respondam por isso porque, querendo ou não, ele estava no horário de descanso dele”, lamenta.
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O caso do soldado levanta questões sobre como as condições de trabalho estão vinculadas ou não às mortes de policiais. Os dados obtidos via LAI pela Ponte não detalham se os registros de “acidente” são apenas os ocorridos durante o trânsito ou se envolvem outras situações. Foram quatro meses e dois recursos até a Polícia Militar fornecer as informações solicitadas para a reportagem. Um dos problemas apontados por especialistas é a falta de transparência dessas informações.
“Quando é morte de policiais, esse é um baita de um problema, porque uma das coisas mínimas que a instituição precisa cuidar é da segurança dos seus próprios policiais. Se você não cuida dos seus próprios policiais, é difícil cuidar dos outros. E são funcionários, são profissionais, são empregados, que precisam de toda a proteção possível, não é só com o colete balístico”, aponta José Vicente da Silva Filho, coronel reformado da PM de SP e membro do conselho da Escola de Segurança Multidimensional (ESEM) da Universidade de São Paulo (USP).
Além disso, as mortes registradas como acidente em 2024 superaram os casos de suicídio (14 vítimas). Em 2023, casos de policiais tirando a própria vida foram recorde desde 2012, fazendo mais vítimas do que homicídios, como a Ponte mostrou no ano passado.
Divergências e subnotificação
Agora, os dados da PM apresentam uma queda histórica. Contudo, contém divergências. Enquanto para a matéria do ano passado, a corporação informou 31 suicídios em 2023, no novo pedido feito pela Ponte houve uma retificação: 27 suicídios e 4 vítimas na categoria “outros”, sem detalhes. Já o painel estatístico do Sistema Nacional de Estatística de Segurança Pública e Justiça Criminal (Sinesp), do Ministério da Justiça, continua informando 30 suicídios em 2023. Os dados desse painel são enviados pelas secretarias de Segurança Pública dos estados.
Para o pós-doutorando em Psicologia pela USP Adilson Paes de Souza, autor de O Guardião da Cidade: Reflexões sobre casos de violência praticados por policiais militares (Escrituras), essa disparidade de dados reforça a possibilidade de subnotificação, tendo em vista que a PM não fornece informações que sejam passíveis de serem verificadas.
“O que devemos deixar muito claro é que o suicídio é um tabu nas forças policiais”, explica. “Admitir o suicídio como um fenômeno recorrente e um problema grave, na leitura das forças policiais, significa admitir a fraqueza do guerreiro, uma quebra na áurea de superioridade, de invencibilidade desse guerreiro, que o super não é tão super assim”, afirma ele.
Por isso, os especialistas apontam que essa opacidade dificulta a compreensão de como ocorrem as mortes dos policiais. Ambos preferiram não comentar o caso de Venâncio pela ausência de informações mais robustas, mas admitem que uma jornada exaustiva e falta de descanso podem deixar o policial mais vulnerável e suscetível a acidentes.
Isso pode acontecer, por exemplo, quando o policial emenda a sua jornada de 12 horas de trabalho com outras atividades extras, que podem ser uma reunião obrigatória no batalhão, as Operações Delegadas (quando as prefeituras pagam para policiais trabalharem na folga), as Diárias Especial por Jornada Extraordinária de Trabalho Policial Militar (DEJEM), e o “bico”, que é um trabalho ilegal.
Falta de efetivo
A família de Venâncio fez um boletim de ocorrência após ter acesso a comentários de postagens em redes sociais, atribuídas a uma policial militar, que menospreza sua morte. As publicações tinham frases como “quem não aguenta, é só pedir baixa” e “ser policial é isso: é estar disposto a cumprir ordem. Se não estava em condições de pilotar, deveria ter ficado na base”.
“Temos escalas extras porque há falta de efetivo”, diz Adilson. “Se há falta de efetivo, os policiais vão olhar para esses serviços e isso é tolerado e estimulado como uma forma de ter uma compensação salarial para aliviar a pressão por melhores salários”. Sem tempo de qualidade de descanso, o profissional pode sofrer graves consequências em sua saúde, especialmente nas PMs que detém uma estrutura militar pautada na hierarquia, explica o pesquisador.
“A militarização da polícia contribui muito para a deterioração do ambiente de trabalho e para o emprego do policial em situações abusivas, posto que ele é escalado, ele é obrigado a cumprir ordem. Senão, ele comete um crime militar. Então, você tem desde a militarização até a escala de serviço abusiva, até o excesso de serviço, uma demanda excessiva, tudo isso pode contribuir para que fatos como esses [acidentes e suicídios] aconteçam”.
Outro ponto seria um incentivo ao confronto, já que a perseguição de veículos suspeitos deve ser realizada com prudência. “Perseguição é um problema sério porque, sendo morto em perseguição, é um argumento a mais para definir as instruções em relação à perseguição”, aponta José Vicente. “Eu comandei um batalhão há mais de cinco anos e eu não permitia a perseguição porque a perseguição envolve risco para os policiais e para os inocentes que estão no caminho, entre o perseguido e a polícia”.
O que dizem as autoridades
A Ponte questionou a Polícia Militar e a Secretaria da Segurança Pública sobre o caso de Venâncio, em relação ao motivo de ele ter sido escalado para a reunião mesmo após a jornada de 12 horas, sobre a periodicidade dessas reuniões e critérios para a separação do efetivo, sobre as mortes dos outros policiais do mesmo batalhão, o atendimento aos policiais e à família bem como a divergência de informações fornecidas.
A Fator F, assessoria terceirizada da pasta, não respondeu todas as perguntas e enviou a seguinte nota:
A SSP lamenta profundamente as mortes dos policiais citados pela reportagem. Sobre o caso do soldado PM Ronaldo Venâncio da Silva, ocorrido no último dia 28, na Rodovia Régis Bittencourt, em Itapecerica da Serra, a Polícia Militar instaurou uma sindicância para apurar todas as circunstâncias relacionadas ao fato e reafirma seu compromisso com a valorização e o bem-estar de todos os seus profissionais.
A Polícia Militar tem ampliado as iniciativas já existentes de suporte ao bem-estar e atendimento psicológico aos policiais militares da ativa por meio do seu Sistema de Saúde Mental (SISMen), que disponibiliza atendimento psicossocial no Centro de Atenção Psicológica e Social (CAPS), na capital, e também em 41 Núcleos de Atenção Psicossocial em todas as regiões do estado. Além disso, há o serviço de telepsicologia, que conta com 59 psicólogos credenciados, com atendimento psicoemocional de policiais da ativa ou da reserva com agendamento e consultas online. Iniciado em outubro de 2023, o serviço já totaliza 42.944 atendimentos até maio de 2025.
A reportagem também procurou o Ministério da Justiça e Segurança Pública, tendo em vista que o fornecimento de dados pelas secretarias estaduais envolvem repasses de recursos, e questionou se há fiscalização a respeito das informações repassadas. A assessoria da pasta disse, por telefone, que a responsabilidade da integridade dos dados cabe aos governos estaduais e que o Sinesp apenas disponibiliza. Ainda informou que responderia por meio de nota quanto ao programa Escuta Susp, que presta atendimento psicológico a policiais de forma remota, mas não houve retorno até a publicação.
