Como foi a madrugada em que o Bope calou o São João no Morro Santo Amaro

O office boy Herus Guimarães Mendes, de 24 anos, foi morto e cinco pessoas ficaram feridas em uma ação da tropa de elite da PM-RJ em plena festa junina da comunidade, na zona sul do Rio. Policiais envolvidos foram afastados

Moradores de Santo Amaro protestaram pedindo por justiça pela morte do jovem Herus Guimarães Mendes, de 24 anos, que trabalhava como office boy e havia saído para comprar um lanche | Foto: Rafael Brito

Madrugada de sábado (7/6), Rio de Janeiro. Uma festa junina acontecia na entrada principal do Morro Santo Amaro, entre as ruas Santo Amaro e Pedro Américo, na zona sul da capital fluminense. “Era impossível não escutar [a música], não ver a decoração”, conta uma pessoa que participava da festa. A quadrilha João Danado se preparava para sua tradicional apresentação. O grupo da comunidade existe desde 1994 e, neste ano, escolheu como tema da dança a brasilidade. 

Outras quadrilhas também se apresentaram naquela noite, como grupos de São Gonçalo, Providência e do Leme. O clima era de alegria na noite que marcava a abertura oficial do São João. Muitos trabalhadores se juntaram à festividade após o fim do expediente. Moradores estimam que mais de 500 pessoas estavam no local, entre elas crianças e idosos.

Os tiros começaram por volta das 3h da manhã. Houve quem, por alguns instantes, pensasse que o barulho fazia parte da festa. No entanto, o corre-corre e o desespero logo revelaram o cenário real: policiais militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) invadiram a comunidade e dispararam. Uma pessoa morreu e cinco ficaram feridas.

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Após o episódio, o grupo João Danado usou as redes sociais para compartilhar uma nota de solidariedade aos familiares e cobrando justiça. “Estamos de luto. O episódio expõe o descaso e total desrespeito para com a nossa cultura e com a vida da nossa gente”, diz o texto.

No ano anterior, o mesmo grupo já havia ensaiado para as apresentações diante de um caveirão — carro blindado usado pela polícia do Rio. Segundo moradores ouvidos pela Ponte, aquilo já era uma forma de intimidação, uma tentativa de impedir que a festa ocorresse.

Rota paralela

Os policiais não entraram na comunidade pelo acesso principal, mas pelas vielas. Segundo moradores, porém, mesmo por essas rotas era possível perceber que havia uma festa acontecendo. Gabriel [nome fictício] conta que estava em um bar quando a ação policial começou. O pequeno estabelecimento se encheu de pessoas tentando escapar da linha de tiro. Uma mãe desesperada gritava por ajuda. Na correria, ela se separou da filha e, aflita, temia pelo pior. Gabriel decidiu sair em busca da menina.

Ao sair, ele viu policiais fechando o acesso a uma viela com uma grade. No chão, já estava caído o office-boy Herus Guimarães Mendes, de 24 anos, baleado. Segundo Gabriel, os agentes demoraram para permitir que alguém socorresse o jovem, que teve a morte confirmada no Hospital Glória D’Or, também na zona sul. Herus só foi levado ao hospital, por familiares, depois que os policiais deixaram o morro.

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Mônica Guimarães, mãe de Herus, em protesto pedindo justiça pela morte do filho | Foto: Rafael Brito

Ao g1, Mônica Guimarães Mendes, mãe de Herus, contou que o filho havia saído para comprar um lanche quando foi atingido. “Ele foi alvejado na barriga com o pagamento de Pix aberto. Botou a mão e caiu em frente à padaria”, relatou. Mônica também afirmou que o filho foi arrastado por um policial até o ponto onde a grade foi colocada. Pessoas presentes no enterro do jovem disseram que seu rosto apresentava diversos arranhões, possivelmente causados por essa ação.

Bombas de efeito moral foram lançadas para afastar a população após o ferimento de Herus. Outras cinco pessoas também ficaram feridas e foram encaminhadas ao Hospital Souza Aguiar, entre elas um adolescente de 16 anos. Todas já receberam alta.

Marcas da violência

João Luis Silva, coordenador da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), chegou ao morro por volta das 9h de sábado (7/6). O objetivo era ouvir os moradores e garantir a preservação da cena para a perícia. “Nesses eventos é muito difícil a polícia [civil] ir. É quase um milagre conseguir. Nós conseguimos que fossem, mas o crime aconteceu às 3h da manhã e a polícia só chegou por volta das 15h, 12 horas depois”, contou.

João encontrou ruas com cápsulas de bala, manchas de sangue e chinelos espalhados. “O cenário deixava muito clara a correria. Era uma mistura de calçados e cápsulas de bala”, disse. Os tiros também perfuraram canos de água, o que, segundo ele, mostra que mais pessoas poderiam ter sido atingidas. “Era um cenário devastador. Os moradores são categóricos em afirmar que a polícia chegou atirando. Não havia confronto algum. É daí que surge o desespero, a tentativa das pessoas de se abrigarem, de se protegerem”, completou.

Chinelos em meio a cápsulas de bala no Morro Santo Amaro, comunidade na zona sul do Rio de Janeiro: fim de festa trágico | Foto: João Luis Silva/Divulgação

Com o amanhecer, a comunidade teve de lidar com o trauma. Muitos trabalhadores que esperavam descansar no fim de semana estavam ocupados cuidando de parentes feridos ou assustados. “Muitas crianças estavam presentes naquele momento, apresentando-se. Essas crianças, no dia seguinte, sequer tinham dormido e já estavam ali tentando falar sobre o que havia acontecido”, contou João.

A família de Herus passou o dia organizando os trâmites do sepultamento. Mônica carregava, durante um protesto, o casaco usado pelo filho no momento em que foi baleado. A roupa rasgada tinha manchas de sangue. Herus deixou um filho de dois anos.

‘Minha xará na dor’

A ex-vereadora e ativista Mônica Cunha, cofundadora do Movimento Moleque, afirmou que além do governador Cláudio Castro (PL), o prefeito Eduardo Paes (PSD) também deve ser responsabilizado. Ambos foram contrários às determinações da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas — ação judicial que visa reduzir a letalidade policial nas comunidades.

No decorrer da ação, o ministro Edson Fachin determinou que o Estado elaborasse um plano de redução de mortes causadas por agentes de segurança, decisão confirmada pelo STF. No entanto, o julgamento terminou com uma reviravolta: os ministros entenderam que não há mais um “estado de coisas inconstitucional” na política de segurança do Rio.

Herus foi morto na madrugada de sábado em uma ação de policiais do Bope | Foto: Arquivo pessoal

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Enquanto isso, o prefeito avança com o projeto da Força Municipal — grupo armado da Guarda Municipal com atuação ostensiva. “Isso aconteceu por total responsabilidade desses gestores públicos que desde sempre atuam de forma omissa”, disse Mônica Cunha.

Ela perdeu o filho Rafael da Silva Cunha, de 20 anos, morto por um policial civil em 2006. “Agora ela [a mãe de Herus] é minha xará não só no nome, mas também na dor e na cor de pele”, afirmou. Mônica Mendes está na fila de transplante cardíaco. “Ela já tem problema no coração, tem pressão alta. O que será dessa mulher com essa dor que arranca do cérebro à ponta do pé?”, lamentou a ativista.

Responsabilizações

Parte da equipe do BOPE que interrompeu abruptamente a festa junina no Morro Santo Amaro era composta pelos sargentos Daniel Souza, Dyogo de Araújo Hernandes e André Luiz de Souza, além dos cabos Leonardo Oliveira Alves e Rodrigo da Rocha Pita, segundo apurou o jornal O Globo. Ainda de acordo com o jornal, Daniel Souza admitiu em depoimento ter sido o único a disparar naquela noite — foram 13 tiros de fuzil.

Em resposta ao g1, a Polícia Militar informou que a operação visava “checar informações sobre a presença de diversos criminosos fortemente armados reunidos na comunidade para uma possível investida de criminosos rivais visando uma disputa territorial na região” .A versão oficial afirma que houve troca de tiros, o que é negado pelos moradores ouvidos pela Ponte.

Na segunda-feira (9/6), o secretário de Polícia Militar do Rio, Marcelo de Menezes, declarou que os policiais não seguiram o protocolo da corporação. Também afirmou que o comando não foi previamente informado da ação. As falas foram dadas em entrevista ao Bom Dia Rio, da TV Globo.

O governador Cláudio Castro determinou o afastamento dos 12 policiais envolvidos já no domingo e exonerou o comandante do BOPE, coronel Aristheu de Góes Lopes, e o do Comando de Operações Especiais (COE), coronel André Luiz de Souza Batista.

Os policiais utilizavam câmeras corporais e as imagens foram entregues ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ), que instaurou Procedimento Investigatório Criminal (PIC) para apurar o caso.

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Peritos do MP-RJ realizaram uma perícia independente no corpo de Herus no IML, e o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, recebeu os pais do jovem na sede do órgão.

A Secretaria de Segurança Pública do Rio (SSP-RJ) informou à Ponte que acompanha as investigações.

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