Filme reúne depoimentos de quem constrói, apoia e foi impactado pelo jornalismo da Ponte — estreia acontece nesta sexta-feira (16/5), no YouTube
A Ponte Jornalismo lança nesta sexta-feira (16/5), o documentário Do Lado de Cá: 11 Anos de Ponte Jornalismo, que marca mais de uma década de atuação do veículo na cobertura de temas ligados a direitos humanos, segurança pública, justiça e violência estatal. A obra é uma co-produção com a Iracema Rosa Studios e está disponível gratuitamente no canal da Ponte no YouTube.
O filme reúne depoimentos de fundadores, colaboradores e ex-colaboradores, leitores, apoiadores e representantes da sociedade civil para apresentar, de forma direta e crítica, o papel da Ponte como veículo de jornalismo independente e de denúncia. Para Antônio Junião, cofundador e diretor de projetos especiais e sustentabilidade da Ponte, o documentário tem também uma função estratégica: “É uma forma de apresentar quem somos e o que pensamos do jornalismo.”
Criada em 2014, a Ponte surgiu do esforço coletivo de jornalistas que queriam fazer uma cobertura mais justa e comprometida com as interseções entre raça, classe e gênero, indo além das versões oficiais. “A imprensa tradicional, quando a Ponte surgiu, não era em prol dos direitos humanos”, lembra Junião.
Nestes 11 anos, as reportagens da Ponte ajudaram a tirar mais de 100 pessoas inocentes da prisão, afastar policiais envolvidos em violações, levar água para comunidades esquecidas pelo Estado e desmascarar infiltrações em movimentos sociais. “Esse filme mostra o que acontece quando o jornalismo é feito com compromisso e não com conveniência”, completa.
O documentário também revisita bastidores da redação e o crescimento do programa de membros Tamo Junto, que garante a sustentabilidade da Ponte sem depender de anúncios ou patrocinadores corporativos.
Com linguagem direta e narrativa documental, a obra funciona como um registro histórico e um convite à reflexão sobre o futuro do jornalismo no Brasil.
“Sem exagero, eu diria que o jornalismo mudou depois que a Ponte surgiu no Brasil”, afirma o cofundador Fausto Salvadori. Para ele, a atuação da Ponte influenciou uma mudança — ainda que parcial — no comportamento de parte da imprensa, que se tornou “um pouco menos racista e oficialista”.
O documentário também destaca o impacto emocional e político da cobertura. “A gente não passa um dia sem falar com alguém. E muitas vezes é com alguém que perdeu um filho há poucas horas, e quer denunciar, quer que sua versão saia no jornal”, conta Catarina Duarte, repórter da Ponte. “A gente faz um trabalho que não existe nos outros lugares — ou existe de forma pontual, introdutória, e só depois da Ponte falar 70 vezes sobre o assunto.”
Jennifer Mendonça, ex-repórter do veículo, reforça esse peso: “A gente não vai devolver o tempo que essas pessoas passaram presas, os gastos que tiveram, o sofrimento e tudo mais. Mas é bom saber que o nosso trabalho traz alguma perspectiva de justiça para elas.” A ativista Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio, reforça a importância do projeto. “Não é fácil uma mídia alternativa sobreviver 10 anos competindo com a mídia burguesa, cheia de dinheiro e patrocinador”, diz. E lembra que a Ponte não surgiu do nada: “Parimos essa mídia.”