‘Fizemos um apelo de socorro’: família de estudante de medicina morto pela PM leva caso à ONU

    Pais de Marco Aurélio Cardenas Acosta, jovem de 22 anos morto com um tiro à queima-roupa em abordagem em SP, foram recebidos por oficiais das Nações Unidas para falar da violência policial sob a gestão Tarcísio/Derrite

    Silvia Cardenas e Julio Acosta Navarro, pais do jovem Marco Aurélio, em Genebra: “Entregamos um relatório sobre a gravidade do caso” | Foto: Arquivo pessoal

    Familiares de Marco Aurélio Cardenas Acosta, o estudante de medicina de 22 anos morto com um tiro à queima-roupa durante uma abordagem da Polícia Militar paulista (PM-SP) em novembro, levaram um relatório sobre o caso a oficiais das Nações Unidas (ONU) em Genebra, na Suíça, nesta quarta-feira (18/6). Julio Cesar Acosta Navarro e Silvia Mônica Cardenas Prado, pais do jovem, ainda devem falar à representantes da ONU em um evento local promovido pela organização não-governamental Conectas Direitos Humanos nesta quinta (19/6).

    O evento ocorrerá em paralelo à 59ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU e vai tratar também de outros casos de violência policial no país, em apelo para que as Nações Unidas recomendem ao Estado brasileiro a adoção de medidas para reduzir a letalidade policial.

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    Participarão do encontro os relatores especiais da ONU sobre direitos à liberdade de associação e para execução arbitrária, Gina Romero e Morris Tidball-Binz. Em uma agenda preliminar, os pais de Marco Aurélio se reuniram privadamente com oficiais da ONU dedicados à violência de Estado e ao racismo.

    “Fizemos um apelo de socorro. Entregamos um relatório sobre a gravidade do caso do Marco Aurélio, que foi assassinado covardemente por dois policiais. Os oficiais estão nos ouvindo com muita atenção e estão chocados com o relato feito por nós, sobre a maneira como isso ocorreu dentro de um contexto de outros crimes contra jovens negros e pobres”, disse Julio Cesar à Ponte.

    “Eles têm nos ouvido com muita preocupação, e a responsabilização de toda a organização comandada pelo secretário [de Segurança Pública] Guilherme Derrite e pelo governador Tarcísio de Freitas está sendo comentada aqui. Estamos na ONU porque, quando ocorre um crime desta natureza, diante da dor da perda de um jovem, nós, como pais, assim como muitos outros pais, ainda temos que suportar a humilhação, a difamação e o descaso de toda essa corporação da Polícia Militar, do governador e de seu secretário. Essa luta que estamos tendo é para denunciar, de fato, o caso de Marco Aurélio, que está ganhando notoriedade aqui.”

    Morto desarmado e encurralado

    Marco Aurélio foi morto na madrugada de 20 de novembro de 2024. Ele passou a ser perseguido pelos policiais militares Guilherme Augusto Macedo e Bruno Carvalho do Prado após dar um tapa no retrovisor de uma viatura. O estudante tentou se abrigar em um hotel na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, mas acabou alcançado. Ele tentou resistir à prisão e, mesmo desarmado e encurralado pelos policiais, foi baleado à queima-roupa por Guilherme com um tiro no peito. Ele foi socorrido, mas não resistiu.

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    O estudante cursava o quinto ano de medicina e deveria seguir a carreira dos pais. Julio Cesar é cardiologista, enquanto Silvia Mônica é intensivista. Ambos são peruanos naturalizados brasileiros.

    Tarcísio ironizou denúncia à ONU

    No ano passado, a Conectas e a Comissão Arns já haviam levado às Nações Unidas um apelo sobre o aumento da letalidade policial em São Paulo no governo Tarcísio.

    As organizações destacaram na ocasião, durante a 55ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos, o saldo da Operação Escudo, tida por especialistas como uma “operação vingança” — lançada na Baixada Santista em 2023, a ação policial fez 28 vítimas em bairros pobres da região apenas naquele ano, em resposta ao assassinato de um soldado da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota).

    Ainda à época, o governador paulista saiu em defesa do secretário Guilherme Derrite e ironizou as críticas dos movimentos sociais contra as violações cometidas pelas polícias em número crescente. “Sinceramente, nós temos muita tranquilidade com relação ao que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU, na Liga da Justiça, no raio que o parta que eu não tô nem aí”, disse Tarcísio.

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