Em sua 31ª edição, ato na Praça da República, centro de SP, criticou autoritarismo, pediu democracia e justiça social, e denunciou a tentativa de políticos de extrema direita de sequestrar os símbolos nacionais e o sentido da Independência

Em sua 31ª edição, o Grito dos Excluídos e das Excluídas reuniu movimentos sociais, partidos e sindicatos em 32 cidades do país neste 7 de setembro, feriado do Dia da Independência do Brasil. As manifestações tiveram como mote “Cuidar da Casa Comum e da Democracia é Luta de Todo Dia” e defenderam justiça tributária, taxação dos super-ricos, redução da jornada de trabalho, proteção ao meio ambiente e punição a golpistas do 8 de janeiro. Em São Paulo, o ato ocorreu na Praça da República.
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As mobilizações foram convocadas pelas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, pelo Fórum das Centrais Sindicais e pela Central de Movimentos Populares (CMP). A programação começou cedo, na Praça da Sé, onde movimentos montaram barracas de alimentação para pessoas em situação de rua.
O coordenador nacional da CMP, Raimundo Bonfim, afirmou que a data precisa ser um marco de enfrentamento ao autoritarismo. “Há 31 anos construímos o Grito dos Excluídos no Brasil. Mas, neste ano, diante dos ataques à nossa soberania e democracia, precisamos transformar o 7 de setembro em um dia histórico. É hora de afirmar que quem manda no Brasil é o povo brasileiro”, disse.

Segundo os organizadores, setores da extrema direita ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro tentam “sequestrar” o sentido da independência nacional, apoiando medidas que prejudicam empregos e fomentando fake news e ataques às instituições. “Não aceitamos ingerências nem golpes contra a democracia. O Brasil não é quintal dos EUA. É preciso defender nossas riquezas, nossa autonomia e nossos direitos sociais”, reforçou Bonfim.
Além das organizações sociais e sindicais, lideranças partidárias também participaram do ato em São Paulo. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, declarou: “Estamos vivendo um momento muito importante na vida do nosso país: a construção de uma nação sem privilégios. Neste 7 de setembro, vamos para as ruas defender um Brasil justo, em defesa do povo brasileiro e da nossa soberania”.
Para os movimentos, o 7 de setembro de 2025 não é de comemoração, mas de denúncia: uma jornada de resistência ao avanço do fascismo e de afirmação de um projeto de país baseado em democracia, justiça social e participação popular.

‘A bandeira é dos brasileiros, não é política’
Durante o ato na Praça da República, símbolos que haviam sido apropriados pela extrema direita foram resgatados no ato. A bandeira do Brasil e a camiseta da seleção de futebol estavam presentes entre os manifestantes. Um deles era Jefferson da Costa Lima, 46, funcionário dos Correios, que carregava a bandeira junto ao corpo. “A bandeira do Brasil é dos brasileiros. Não é política. Nós temos que reverenciar a bandeira e não fazer dela um partido”, disse.
Já o caminhoneiro Gevásio Genoclídio José, 43, usava a camiseta verde e amarela. “Nós somos Brasil. Estamos aqui para manifestar de uma maneira pacífica e harmônica para que o nosso país siga andando”, contou. Ronaldo Costa, 45, presidente do Sindicato dos Condutores do Vale do Paraíba, veio com a família de São José dos Campos à manifestação. “Estou aqui com a minha família porque sabemos que o 7 de setembro é muito importante para o nosso país. É o dia de defender a soberania nacional”, afirmou.
A visão de Ronaldo sobre soberania aparecia também nos cartazes espalhados pela praça, como o que dizia: “O Brasil é dos brasileiros! USA is my egg [Estados Unidos é meu ovo, em tradução livre]”. O ex-presidente Jair Bolsonaro, réu por tentativa de golpe de Estado, foi alvo de um boneco inflável gigante vestido de presidiário, colocado ao lado de outro que representava Donald Trump, carregando uma placa com a inscrição Epstein List, em referência a documentos que ligariam figuras americanas ao empresário Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais.

Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-presidente, também foi alvo de críticas. Em um boneco em forma de banana, com o rosto do parlamentar, lia-se “traidor nacional”. Eduardo tem feito campanha favorável a sanções contra o Brasil, na tentativa de livrar o pai de punições. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também foi alvo de críticas. Lideranças sindicais condenaram sua articulação em defesa da anistia aos golpistas. Todos os discursos foram encerrados com gritos de “sem anistia”, ecoados pelo público presente.
Enquanto isso, a imagem do presidente Lula era exaltada. Seu rosto estampava toalhas, bottons e camisetas. Até mesmo um boneco com a faixa presidencial podia ser adquirido por R$ 80. Estiveram presentes ao ato os ministros Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, e Luiz Marinho, do Trabalho e Emprego.

O que é o Grito dos Excluídos?
O Grito dos Excluídos e das Excluídas nasceu na década de 1990 a partir das reflexões da 2ª Semana Social Brasileira, organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Inspirado no tema “O Brasil que a gente quer” e no lema da Campanha da Fraternidade de 1995, “Fraternidade e Excluídos”, o movimento escolheu o 7 de setembro como data simbólica, em contraponto ao Grito da Independência proclamado em 1822.
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A proposta era trazer à tona as vozes silenciadas das periferias, do campo e das ruas, revelando, em plena data cívica, as dores e desigualdades que governos e autoridades preferiam esconder. O primeiro Grito, em 1995, teve como lema “A vida em primeiro lugar” e ocorreu em 170 cidades. Desde então, consolidou-se como processo coletivo e ecumênico, assumido pela CNBB em 1996 e sustentado por pastorais, movimentos sociais e entidades populares.