Homem acusado injustamente de roubo convulsiona após agressão de seguranças e PMs no metrô

    Vítima chegou à estação Belém, na zona leste de SP, com cartão de Bilhete Único em nome do sogro, que agentes alegaram, sem provas, ter sido roubado. Rodrigo Santos Silva está sem conseguir trabalhar por conta de dores e inchaço nos olhos

    Um homem foi agredido por seguranças do metrô de São Paulo e policiais militares na última sexta-feira (29/8), na estação Belém, na zona leste da capital, após ser injustamente acusado de roubo. Ele passou por uma das catracas do local usando um cartão de Bilhete Único que está em nome do sogro — que os agentes alegaram, sem provas, ter sido roubado. Foi lançado spray de pimenta no rosto da vítima, a ponto dela passar mal e ter uma crise convulsiva já caída na plataforma de embarque no metrô.

    Rodrigo Santos Silva, de 33 anos, conta que, ao passar pela catraca, após ter saído do trabalho, um segurança da estação disse que ele não havia pago a viagem. O passageiro respondeu que a acusação era infundada e mostrou o bilhete de que dispunha, um modelo especial para idosos.

    Leia também: Justiça de SP atende MP e manda soltar PM aposentado que matou jovem em metrô

    “Ele falou assim: ‘Esse bilhete aí é roubado’. E eu falei: ‘Você tem provas? É do meu sogro’. Nesse momento, eu estava em uma chamada de vídeo no meu celular com a minha esposa e falei para ela que o guardinha estava dizendo que o bilhete era roubado. Foi quando ele veio e já tacou spray de pimenta nos meus olhos. Aí eu já não vi mais nada, só percebi um monte de gente vindo para cima de mim”, relata Rodrigo à Ponte.

    “Eu pensei que não ia sair vivo, que ia não mais ver os meus filhos. Só soube o que aconteceu depois pelos vídeos, e todo mundo falou que foi prova de Deus eu estar vivo”, afirma ainda.

    Rodrigo (ao centro) foi expulso de estação à força e teve crise de convulsão devido a spray de pimenta. Agente que jogou spray (de costas e em primeiro plano na terceira imagem) quis acudi-lo depois | Foto: Reprodução

    PMs ignoraram vítima passando mal e não registraram ocorrência

    A cena foi toda filmada por um outro passageiro na estação, que fica na Linha 3-Vermelha, o pesquisador e ativista em direitos humanos Paulo Escobar. No vídeo, é possível ver três seguranças do Metrô e mais dois policiais militares que cumpriam expediente dentro da estação puxarem Rodrigo à força no sentido contrário ao de entrada da catraca, espremendo-o no pequeno vão que existe entre uma catraca e outra.

    “Começaram a chegar em cima dele e falar que ele tinha roubado o bilhete. Isso aí não fazem com ninguém, passam milhares de pessoas ali por dia, vão reparar em um bilhete?”, conta Paulo, sobre a abordagem a Rodrigo ter sido feita sem motivo plausível.

    Leia também: Vídeo: seguranças da ViaQuatro agridem adolescentes em evento na estação Butantã do metrô

    Os agentes jogaram Rodrigo para o lado de fora das catracas, atordoado e com os olhos bloqueados devido ao spray de pimenta, e tomaram o cartão de Bilhete Único que ele tinha. Mesmo com a alegada suspeita de roubo e com as agressões filmadas, os policiais presentes na cena não encaminharam os envolvidos para uma delegacia. Também não prestaram socorro à vítima.

    Paulo intercedeu então por Rodrigo e, ao pagar uma nova passagem a ele, ajudou-o a voltar para a estação, quando a vítima, já acusando falta de ar por efeito do spray, teve uma convulsão na plataforma do metrô. Os mesmos seguranças que o agrediram apareceram então para acudi-lo. O passageiro que auxiliou a vítima afirma que os agentes tentaram intimidá-lo para que saísse de perto, o que não acatou. “Quiseram jogar o cara para fora da estação para não ter responsabilidade”, diz Paulo.

    Segurança teria ameaçado vítima no caminho ao hospital

    Rodrigo foi retirado da estação de metrô em uma maca e levado de ambulância a um hospital. Ele afirma que, no caminho, um segurança que o acompanhava no veículo o ameaçava, sem que ainda pudesse enxergar. “Ele ficava dizendo na minha orelha: ‘Você sabe que vai morrer, né?’.” O mesmo agente, que a vítima diz ter se apresentado aos socorristas como Ícaro, alegou à equipe médica que Rodrigo havia usado cocaína, o que seria o motivo pelo qual estava passando mal, sem mencionar o spray de pimenta.

    Enquanto Rodrigo já estava no hospital, a esposa dele e o sogro, dono do cartão de Bilhete Único que estava com o genro, saíram de Guaianases, bairro da zona leste, e foram à estação Belém, onde reafirmaram a versão do familiar. Ainda assim, o cartão apreendido não foi devolvido pelos seguranças.

    O homem agredido diz que retomou a visão plenamente só depois de dois dias, ainda com inchaço no rosto. Ele ainda sente dores no corpo, principalmente na coluna, e não conseguiu voltar ao trabalho. Rodrigo é pintor e vinha fazendo um trabalho de elétrica em uma obra na região do Belém. Ele e a esposa cuidam de seis filhos. “Tem muita gente que diz: ‘Aconteceu isso, e quer se fazer de coitado’. Mas, sem trabalhar esses três dias, se eu falar para você que não estou passando aperto, eu estou mentindo.”

    O que dizem o Metrô e a SSP-SP

    A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP) sobre a razão pela qual os PMs presentes na ocorrência não encaminharam os envolvidos para uma delegacia. Em resposta, a pasta se limitou a dizer que não foram localizados registros da ocorrência. “A Corregedoria da PM está à disposição para formalizar e apurar eventual denúncia contra seus agentes”, escreveu ainda.

    A reportagem também questionou a Companhia do Metropolitano de São Paulo, empresa sob controle do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) que opera a Linha 3-Vermelha, se entende que a conduta de seus seguranças foi adequada. Em nota, afirmou que o homem agredido “se portou de forma hostil”. “O passageiro foi contido e retirado do sistema, e o bilhete foi recolhido pelos agentes, pois configura uso indevido da gratuidade”, comunicou.

    Leia a íntegra do que diz a SSP-SP

    Não foram localizados registros da ocorrência pelas polícias Civil e Militar. A Corregedoria da PM está à disposição para formalizar e apurar eventual denúncia contra seus agentes.

    Leia a íntegra do que diz o Metrô

    Na última sexta (29), agentes de segurança do Metrô abordaram um passageiro na estação Belém, da Linha 3-Vermelha, após ele tentar acessar o sistema de forma irregular, usando um bilhete único para idosos que não o pertencia. Ele foi orientado pelos agentes a entregar o bilhete e se retirar da estação, mas se recusou e se portou de forma hostil. O passageiro foi contido e retirado do sistema, e o bilhete foi recolhido pelos agentes, pois configura uso indevido da gratuidade. 

    O Metrô ressalta que qualquer comportamento irregular pode ser informado pelos canais oficiais da Companhia, aplicativo Metrô Conecta ou SMS, pelo telefone 97333-2252. Os agentes de segurança são acionados de imediato para atendimento a qualquer tipo de ocorrência.

    Já que Tamo junto até aqui…

    Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.

    Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.

    Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.

    Ajude

    mais lidas

    Sobre a sua privacidade

    Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.