Monike Oliveira defendeu mulher vítima de violência em bar no interior do Rio Grande do Norte e, um dia depois, agressor voltou para se vingar
Um homem invadiu e depredou o bar de Monike Oliveira, que é mulher trans e negra, no município de Pau dos Ferros, no interior do Rio Grande do Norte, na terça-feira (30/6).
Monike abriu o bar na cidade, que fica a 392 km de Natal, em abril deste ano. A invasão aconteceu um dia depois que a proprietária foi defender uma mulher vítima de violência nas dependências do bar, na segunda-feira (29/6). Na ocasião, um homem que bebia no local iniciou uma discussão com uma mulher e jogou um copo de vidro contra ela. “Pedi para ele se acalmar e disse que não queria esse tipo de briga no bar. Me chamou de ‘viado safado’ e disse que ia me matar”, disse Monike Oliveira à Ponte.
No dia seguinte, o agressor e outras duas pessoas voltaram ao bar. Imagens de câmeras de segurança da rua onde fica o bar mostram um deles derrubando o portão do estabelecimento.

Cadeiras e copos foram quebrados, e a moto comprada recentemente por Monike, que estava dentro do estabelecimento, foi jogada no chão. De acordo com ela, que conversou com testemunhas que estavam próximas ao local na hora da invasão, o plano dos homens era matá-la e não apenas depredar o estabelecimento. No entanto, Monike não estava no local porque tinha ido até a casa da mãe.
“Foi realmente uma dessas situações que a gente pensa em intervenção divina. Se eu estivesse lá, poderiam ter me agredido ou pior”, conta. As testemunhas relataram a Monike que, ao chegaram ao local, os invasores ordenaram que um grupo de pessoas que estavam reunidas perto do bar se retirasse. Ao identificar que a proprietária não estava lá, disseram em voz alta na rua que voltariam para “pegá-la”.
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Na quarta-feira (1/7), a Polícia Militar foi até o local e fez o registro fotográfico da cena. Mesmo temendo represálias, Monike, seguindo orientação policial, foi registrar um boletim de ocorrência nesta quinta-feira (2/7). “Tenho muito medo que voltem para me matar. Eu não consigo entender por que eles querem fazer isso comigo, eu fiz o que qualquer dono de bar faria. Eu apenas pedi para ele me respeitar, porque me chamou de ‘viado safado’ e eu disse que eu tinha nome, que não me tratasse como um bicho do mato”, relata.
Monike decidiu abrir o bar por ter trabalhado, ao longo de toda a vida, em serviços de boates em cidades no interior do Ceará, onde residia antes de se mudar para o Rio Grande do Norte, em 2019. Mesmo com a pandemia, ela teve que fazer o negócio funcionar para sobreviver.
“Saí de casa aos 15 anos, porque meu irmão tinha muito preconceito comigo, então tive que aprender desde cedo a me virar e ser independente. Em Pau dos Ferros, consegui uma clientela boa, um ponto muito bom no centro da cidade, onde em geral me respeitavam, até que isso aconteceu”, conta. O dinheiro para comprar o material necessário e começar o negócio veio a partir de uma amiga, também travesti, de Natal.
O caso foi divulgado nas redes sociais por ativistas trans da organização ATransparência RN, que está organizando uma vaquinha para garantir o conserto das coisas quebradas no estabelecimento e, assim, permitir que Monike possa ter recursos para se sustentar sem precisar abrir o bar, onde estaria exposta diretamente aos agressores.
“Ela se trata de uma transexual, negra e de origem pobre que, com muito esforço, conseguiu montar esse bar que é sua única fonte de renda. Eles foram ao local e derrubaram o portão do bar com extrema facilidade. Temendo perder todo seu material e, portanto, sua renda, ela não quer sair do local à noite mesmo com as ameaças”, afirma A Transparência, em nota publicada nas redes sociais.
O caso está sendo acompanhado pela Coordenadoria de Diversidade Sexual e de Gênero da Secretaria de Mulheres, Juventude, Igualdade Racial e Direitos Humanos do RN (SEMJIDH). A coordenadora de diversidade sexual da pasta, Janaína de Lima, que também é uma mulher trans, afirma que “não há dúvidas de que a questão de gênero foi determinante nesse caso”.
De acordo com ela, o protocolo chegou oficialmente à secretaria às 8h da quinta-feira e uma denúncia foi protocolada junto à ouvidoria de Direitos Humanos da pasta, que foi passou a funcionar a partir desse ano. “A ouvidoria consegue dar um respaldo melhor tanto no sentido de cadastrar a denúncia como para fazer o acompanhamento, que é muito necessário neses casos”, explica.
Janaína afirma que foram feitas conversas com o delegado de polícia da região, que deve atender o caso, para orientar sobre as especificações de gênero e raça que envolvem a situação, e permitir que ela tenha o tratamento adequado ao longo do processo. “Além disso, o Centro de Referência Especial de Assistência Social está fazendo o acompanhamento no campo da assistência social”, afirma a coordenadora.
Janaína ressalta que o caso de violência envolve duas vertentes: a violência de gênero voltada a Monike, por ser uma mulher trans, e a violência que aconteceu dentro do próprio estabelecimento que provocou a reação. Ela afirma que protocolos distintos foram feitos na Polícia para que ambos casos sejam acompanhados pela delegacia, e que a coordenadoria acionou também as delegacias Especiais de Atenção à Mulher para acompanharem também a mulher agredida no bar, fato que motivou a depredação ao bar da empresária trans.
Mais informações a respeito da vaquinha para ajudar Monike estão no perfil do Instragram @ATtransparenciarn. Além de dinheiro, o coletivo está aceitando também doações de comida, material de limpeza e higiene pessoal, que serão recebidos na sede do Centro de Referência Especial em Assistência Social (Creas) de Pau dos Ferros, em horário comercial, de segunda a sexta-feira.
A reportagem procurou a Polícia Civil do Rio Grande do Norte para saber se o invasor e as pessoas que o acompanhavam foram identificados e mais detalhes das investigações, mas, até a publicação da reportagem não havia retorno.

