Segura a Curva das Mães, em 20 estados, Capão em Ação, Unidos da Portela e Igreja Metodista da Luz, em São Paulo, são alguns dos grupos que se solidarizam com as vítimas da crise

Mulher, negra, 49 anos, mãe de 10 filhos, trabalhadora autônoma e ex-presidiária. Quando a quarentena para enfrentamento do novo coronavírus chegou à comunidade da Vila União, localizada no bairro do Jacaré, no Rio de Janeiro, a vendedora ambulante Jane Tito não soube o que fazer. A recomendação do Ministério da Saúde era para que todos ficassem em casa.
Vendedora de bolos de pote e de marmitas na estação de trem, Jane viu sua única fonte de renda acabar. Em poucos dias, o gás também acabou e o leite da filha mais nova, de nove anos, faltou. Faltou o arroz, faltou o feijão, faltou a dignidade de poder comprar. “De madrugada eu só chorava, sem saber o que ia fazer de minha vida”, conta.
De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva e pelo Data Favela, mais de 5 milhões de mulheres que são mães vivem em favelas. Dessas, 72% afirmam que a alimentação da família ficará prejudicada pela ausência de renda durante o período do isolamento; 73% delas dizem que não têm nenhuma poupança ou fonte de renda que permita a ausência do trabalho nem por um dia. Jane é uma delas.
Durante o período em que esteve presa, não conseguiu fazer o recadastramento do Bolsa Família, também não possui cartão cidadão ou benefício governamental. O antecedente criminal dificulta que consiga emprego de carteira assinada. Até a publicação desta reportagem, seu pedido de auxílio emergencial (benefício disponibilizado pelo governo durante três meses) estava em análise.
De seus dez filhos, cinco, que têm entre 9 e 18 anos, moram com ela. Na casa de três cômodos, no total, residem sete pessoas. “Se alguém aqui ficar doente não tem como se isolar, nem no banheiro. Todo mundo dorme no mesmo quarto, usa a mesma cozinha e banheiro”, diz.
Em casa, quando ela menos esperava, foi pelo Whatsapp que a ajuda chegou. Recebeu um link para entrar em um grupo chamado Segura a Curva das Mães. “Eu não sei quem foi que deu o meu número, eu só posso dizer que foi Deus, porque eu já estava há três dias sem gás”, diz.
As mães que mais precisam
Idealizado pela ativista social Thaís Ferreira, 31 anos, e pela designer Thaiz Leão, o projeto Segura a Curva das Mães foi desenvolvido com o intuito de garantir que mães e crianças sejam priorizadas no recebimento de ajuda emergencial durante a pandemia do novo coronavírus. Por meio de uma vaquinha online, as ativistas arrecadam verba para oferecer um auxílio no valor de R$ 150,00 reais para cada mãe. Até o momento foram mapeadas 732 mulheres, em 20 estados do país, que farão parte da primeira fase de beneficiadas.

O mapeamento foi efetuado através de um formulário do Google, onde tanto a mulher que estivesse interessada quanto alguém que a conhecesse poderia cadastrá-la. A primeira fase foi até 2 de abril. A ideia inicial era que ele ficasse disponível por mais tempo, porém, “não dava para atender uma demanda muito grande”, fazendo com que fosse fechado antecipadamente.
“Eu participo de um coletivo no Rio de Janeiro, que é o coletivo Massa, a Thaíz Leão faz parte de um projeto chamado Instituto Casa Mãe, que fica em São Paulo. Nós trabalhamos juntas em outros lugares e nesse momento nós estávamos pensando como poderíamos usar o nosso ativismo para colaborar com o bem-estar de mães na pandemia, porque a gente entende que esse é um público que precisa ter um atendimento prioritário”, explica Thaís Ferreira.
Através do contato com as mulheres selecionadas as ativistas se depararam com histórias de extrema necessidade. “Tem mães que pensaram em suicídio”, conta Thaís. Para garantir que a ajuda chegue primeiro a quem mais necessita, são priorizadas mulheres que estão em extrema vulnerabilidade. “As mães sustentam a família, a casa, ensino e continuam sendo tratadas como cidadãs de segunda classe”, analisa.
Até 21 de abril, o projeto Segura a Curva das Mães arrecadou R$ 54.644,52 e atendeu mais de 200 mães. A ideia é apoiar as 732 até o final de abril e em maio reabrir a vaquinha e o mapeamento, “para ajudar outras mulheres, de onde saíram essas, tem mais”, finaliza.
Rede de ajuda e acolhimento
Um outro projeto, esse em São Paulo, nasceu de uma conversa entre a cozinheira Vânia Rodrigues, 33 anos, e um dos clientes para quem vendia cozinha congelada, o gerente comercial Caio Lopes, também de 33. Ele perguntou sobre a situação financeira que a amiga estava enfrentando com a quarentena na capital paulista e propôs a realização de um projeto que arrecadasse verba para distribuir marmitas na comunidade dela, em Portelinha, no Capão Redondo, zona sul da capital paulista, o que ajudaria outras pessoas e manteria sua renda.

“Eu aceitei, mas não sabíamos a proporção que isso iria tomar. Consegui um fogão industrial emprestado e fomos produzindo as marmitas na cozinha da minha casa, com a ajuda da minha mãe e das minhas duas irmãs”, conta Vânia. Já Caio consegui angariar fundos através de doações efetuadas por empresas, amigos e familiares comovidos com a situação, originando, assim, o coletivo Capão em Ação.
Através de parceria com a ONG Capão Cidadão, o coletivo doou 1.600 marmitas para 300 famílias no Jardim Pantanal e 1.200 cestas básicas na região da Portelinha, junto com o projeto Fazendo a Diferença e a ONG Unidos da Portela. O projeto garantiu remuneração para 20 pessoas que participaram da logística, incluindo Vânia.
Através da ONG Fazendo a Diferença, toda sexta-feira o projeto entrega marmitas para pessoas em situação de rua na zona sul. “A ideia era só ajudar a Vânia, e tudo cresceu bastante, já conseguimos movimentar quase 200 mil em doações, e tudo em comida, produtos de limpeza, higiene pessoal” conclui.
Para Vânia, que é a responsável pelo preparo e distribuição das marmitas, toda essa experiência a fez perceber que, na verdade, não é ela quem está ajudando, mas sim sendo ajudada, “a gente mais aprende do que ensina, é uma troca de humanidade”, finaliza.
Um local e várias tragédias
A comunidade da Portelinha já passou por diversas tragédias. Erguida em um terreno particular, em 2009 ela sofreu uma reintegração de posse, onde mais de duas mil pessoas, que moravam nos cerca de 800 barracos, foram despejadas. Dez anos depois, em 2019, foi atingida por um incêndio.

Em 2014, no início da recessão econômica, o profissional autônomo Jobson Gomes, 37 anos, se tornou morador do local após ter perdido duas empresas. Quando chegou, se desesperou com a situação de miséria que presenciou. “A falta de saneamento básico, de políticas públicas escancarada na minha cara, aquilo me doía muito”, diz.
Revoltado e com vontade de contar as histórias das Marias e Joãos que vivem ali, Jobson montou o grupo de teatro Aquarela Periférica, que após um mês de atuação tornou-se Unidos da Portela. “Essas pessoas têm história, e eu queria saber dessas histórias, então nós começamos a passar de casa em casa”, explica.
É através do seu conhecimento que são escolhidas as famílias a serem ajudadas com as cestas básicas do Coletivo Capão em Ação. Segundo Jobson, eles passam de casa em casa e, durante a distribuição, os beneficiados recebem uma ficha para preencher e registrar o recebimento da cesta.
Por meio dessa ficha é possível também ter um controle da situação dos moradores de cada casa e conscientizá-los sobre a importância do isolamento social, “algo difícil, quando mais de 10 pessoas moram em um cômodo, às vezes sem luz, sem água”. Para ele, “a comunidade vai ter morte em massa”, pois há mais de seis mil pessoas morando em cerca de dois mil barracos. “Eu vejo isso como uma guerra, é uma guerra que está sendo travada”, conclui.
Alimento ao povo de rua
Teóloga, pastora da Igreja Metodista da Luz, Eliad Santos começou a trabalhar com pessoas em vulnerabilidade ainda quando cursava a faculdade de teologia, em 1989. À época, trabalhou com as prostitutas da Estação da Luz, conhecida como “baixo meretrício”. De lá pra cá, participou de vários projetos de cunho social.

Na manhã do domingo de Páscoa, ela foi a responsável por entregar dezenas de cestas básicas para moradores de rua e usuários de carack da região, além de algumas famílias que residem nos cortiços próximos à igreja, ação que será repetida no Dia das Mães.
A doação para a distribuição das cestas foi feita por uma integrante da igreja que mora no exterior e, sensibilizada com a situação provocada pela pandemia, mandou a verba, o que, juntamente com as doações que já recebe, permitiu que ela incluísse itens de higiene pessoal, garrafas de água, álcool em gel e chocolate, para as crianças.
Aos domingos pela manhã, após o término dos cultos, costuma abrir a igreja para que as pessoas em situação de rua possam tomar café e se higienizar. “Mas nem todos podem vir. Por ser de manhã, eles estão dormindo, é mais seguro para eles dormirem de manhã do que à noite”, conta.
Para Eliad, enquanto não mudar o que leva as pessoas a ficarem nas ruas, não haverá uma solução. E lembra que a maioria delas são negras. “Não é só dar comida e lugar para morar, é uma questão estrutural. Enquanto não resolver a questão do racismo estrutural isso não será resolvido”, afirma.
Como ajudar
Segura a Curva das Mães
O contato para doações pode ser feito através dos canais: (21) 97503 1916 thaiz@casamae.org, doação direta via paypal: bit.ly/paypalcurvadasmaes
instituto casa mãe | cnpj: 32.542.253/0001-83, Financiamento coletivo:
bit.ly/doecurvadasmaes
Capão em Ação
Doações podem ser feitas através das ferramentas: Ame Digital: bit.ly/capaoemacao2 e Paypal: bit.ly/3cYtsAj
Unidos da Portela
Contato para doações pode ser feito através dos canais (11) 95233-5319 e jotakarenzzo01@gmail.com
Igreja Metodista da Luz
O contato para doações de roupas e objetos pode ser feito através da página da igreja no Facebook
Entregas pessoalmente podem ser realizadas no endereço Av. Santos Dumont, 33, Bom Retiro, São Paulo.
Doações em dinheiro:
Banco Bradesco:
Agência 0108-2
CC: 342721-8
CNPJ 040833690029-67 (Associação da Igreja Metodista)

