O pedreiro Matheus Lopes Silva Santos fazia reparos em um barraco quando PMs chegaram atirando em favela em Santos (SP), dizem familiares, que fizeram protesto nesta sexta-feira (13/6). Ele está hospitalizado e sob custódia

Familiares do servente de pedreiro Matheus Lopes Silva Santos, de 21 anos, fizeram um protesto na tarde desta sexta-feira (13/6) em Santos (SP), no bairro Bom Retiro, quando o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) esteve no local para visitar a obra de um conjunto habitacional.
O jovem pelo qual houve o ato está hospitalizado sob custódia, considerado preso em flagrante, depois de ter sido baleado pela Polícia Militar paulista (PM-SP) no último domingo (8/6), durante uma operação na favela Caminho São José, uma comunidade na zona noroeste da cidade, na divisa com São Vicente (SP). Matheus fazia reparos em um barraco de madeira no qual vive na favela quando policiais do 2º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), unidade especializada da PM-SP, chegaram ao local atirando a esmo, segundo relatam moradores.
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A ação policial ocorreu por volta das 14h, ocasião em que crianças brincavam na rua. Antes de ser baleado, o jovem se assustou com os tiros e tentou correr para o outro lado de um canal de água que percorre os fundos da comunidade, para se proteger. Acabou alcançado pelos agentes na outra margem, no lado de São Vicente, quando foi atingido com um disparo na barriga.
A cena de Matheus caído no chão já ferido foi filmada por familiares e vizinhos, que clamaram à PM-SP para que ele não fosse executado. O socorro chegou perto das 16h, quase duas horas depois de o jovem ter sido atingido. Ele passou por cirurgia e está no Hospital Vicentino, em São Vicente, onde acordou do trauma cercado por policiais. Os pais dele foram autorizados pela Justiça na quarta (11/6) a visitá-lo.
Matheus foi indiciado pelos crimes de tráfico de drogas, resistência e corrupção de menor. A Vara Regional das Garantias da 7ª Região Administrativa Judiciária (7ª RAJ), da Justiça estadual, converteu o suposto flagrante dele em prisão preventiva. O jovem não passou por audiência de custódia.
Família diz que PM plantou arma
A versão da PM-SP é de que teria sido recebida a tiros na favela por um grupo de cinco suspeitos, do qual Matheus faria parte, quando patrulhava a área. Dois homens adultos foram presos e um adolescente, apreendido. Um deles estava em posse de drogas ilícitas. Um quinto suspeito teria fugido.
Ainda segundo os policiais, após atravessar o canal, Matheus teria tentado sacar uma arma de fogo, quando foi baleado. A família do jovem nega que ele tivesse qualquer arma ou envolvimento com tráfico de drogas. Diz ainda que esse armamento só teria sido apresentado pela PM-SP posteriormente, já na delegacia onde foi registrada a ocorrência, sem ter sido visto por quem presenciou a cena.
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“O Matheus sai de casa às 7h da manhã para trabalhar de ajudante de obra e volta às 17h da tarde, e depois ele pega [serviço] em um ferro-velho, em que ele trabalha desde os 15 anos. Meu primo é trabalhador. Plantaram essa arma contra ele”, diz Hortência Alves, familiar do jovem, à Ponte.
Matheus prestava serviços mais recentemente em uma obra no condomínio no qual vive o prefeito da cidade, Rogério Santos (Republicanos) — ambos chegaram a posar juntos para uma foto no local. O político recepcionou Tarcísio em Santos agora na ocasião em que os familiares do jovem realizaram um novo protesto. Dias antes, a família e os vizinhos já haviam feito um ato na favela Caminho São José.
Polícia faz operações em que chega atirando
A prima de Matheus diz que as operações da PM no Caminho São José têm sido recorrentes, sempre com os policiais dando disparos indiscriminadamente. “A polícia só chega atirando. Na madrugada de terça, também invadiram atirando. Ontem teve tiroteio de novo. A gente está com medo. Se tem algo errado, o trabalho deles tem que ser prender e levar. E não está tendo troca de tiros, são eles [os policiais] que chegam atirando, eles acham que podem fazer tudo”, diz Hortência.
“Eles xingam a gente de vagabunda, xinga de bandido. Se a gente fala para não chegar atirando, que tem criança, eles dizem ‘foda-se, se deixou na rua é porque quer'”, afirma. “A minha casa está cheia de marcas de tiro. Já mataram um menino em frente à minha casa. Minha filha passa até por psicólogo.”
O que dizem a SSP e a Justiça estadual
A Ponte questionou à Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP) quais foram as circunstâncias da ocorrência e se a conduta da PM é investigada. “O caso mencionado foi investigado no 5º DP de Santos. Os autores, três homens, de 21, 38 e 41 anos, foram presos em flagrante, e um adolescente, de 17, apreendido. O inquérito policial foi relatado para apreciação da Justiça nesta terça-feira (10). A Polícia Civil esclarece que todos os procedimentos adotados seguiram estritamente o disposto no Código de Processo Penal. Demais questionamentos devem ser encaminhados ao Poder Judiciário”, disse a pasta.
O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) confirmou, via assessoria de imprensa, que o jovem baleado está sob custódia: “Matheus Lopes Silva Santos é indiciado pelos crimes de tráfico de drogas, resistência e corrupção de menor. Ele foi preso em flagrante e não foi apresentado à audiência de custódia por ter sido hospitalizado após troca de tiros com os policiais. Diante dos elementos probatórios presentes nos autos, a Vara das Garantias da 7ª RAJ converteu a prisão em flagrante em preventiva em 9/6/25. Matheus tem defensor constituído e, em decisão de 11/6/25, foi autorizada a visita dos pais e solicitado o prontuário médico dele, com informações sobre seu estado de saúde”.