Artigo | A violência policial descansa quando vigiada e mata quando esquecida

    Letalidade policial em SP sobe pelo segundo mês seguido, escancarando que o silêncio da sociedade e a ausência de controle do Estado seguem alimentando a política da morte — que tem cor e CEP definidos

    Manifestantes carregam estandartes dos 9 jovens mortos em Paraisópolis | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Os números da letalidade policial de março demonstram que basta a opinião pública voltar ao seu comodismo bovino para que a política de segurança pública volte à máxima da morte. Os dados oficiais da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), divulgados no fim de abril, revelam que as mortes cometidas por policiais em março deste ano tiveram aumento de 31% em relação a fevereiro. É o segundo mês consecutivo de alta, depois de um breve período de queda na última virada de ano.

    Os casos de violência publicizados ostensivamente pela imprensa no segundo semestre de 2024 já não estão mais na memória pública. É quase como se tudo tivesse sido resolvido, que foi  “apenas” um momento de lapso das polícias de São Paulo e não o padrão, como temos acompanhado na Ponte ao longo desses 11 anos de existência. 

    Leia mais: Letalidade policial em SP piora de novo e retoma patamar de 2024

    A morte de Ryan, de 4 anos, do estudante Marco Aurélio, 22, e de Gabriel, 26, foram esquecidas pela sociedade e pela imprensa. O choque pelo vídeo de um PM jogando um homem de uma ponte já passou. Cabe às famílias seguirem na luta para que a memória da violência contra seus entes queridos também não desvaneça na justiça.

    Como disse na última semana, são as mães, essas cujas existências celebraremos neste domingo (11/5), que capitanearam movimentos de familiares por justiça, memória e reparação.  

    Como disseram os especialistas ouvidos pelo repórter Paulo Batistella na análise dos dados da SSP-SP, o normal da política do governo Tarcísio é este: a política da morte com cor e CEP. Afinal, todos os mortos eram homens, jovens e, em sua maioria, negros. É uma letalidade com alvo certo, com algumas exceções na classe média que, geralmente, são destacadas como incomuns. Afinal, não é esperado que os moradores de bairros nobres estejam acostumados com a violência policial no seu dia a dia. 

    Leia mais: ‘A vida com um buraco no peito’: mães adoecem com luto silenciado por violência de Estado

    É cômodo acreditar que a violência policial é exceção, quando ela não invade seu bairro, não atinge o seu filho, não silencia a sua rua. Mas enquanto parte da sociedade fecha os olhos, a máquina da morte segue operando, legitimada pelo silêncio coletivo e pela conivência estatal.

    A letalidade policial não diminui por vontade política — ela só recua quando está sob holofotes. E, quando as câmeras se apagam, a matança recomeça. O que os dados de março escancaram é que, no Brasil, basta o conforto de alguns para que a morte de muitos seja naturalizada. Até quando você vai fingir que isso não tem nada a ver com você?

    Este artigo foi publicado originalmente na newsletter semanal da Ponte: clique aqui para assinar e receber textos exclusivos, reportagens da semana e mais na sua caixa de e-mail

    Já que Tamo junto até aqui…

    Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.

    Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.

    Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.

    Ajude

    mais lidas

    Sobre a sua privacidade

    Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.