Justiça do Ceará prevê últimos júris para 25 de agosto e 22 de setembro deste ano. Chacina do Curió ocorreu em novembro de 2015 e deixou 11 jovens mortos, em meio a ataques indiscriminados de policiais em vingança por um PM

Familiares de vítimas da Chacina do Curió, um dos maiores massacres cometidos pela polícia na história do Ceará, se reuniram em uma entrevista coletiva na sede da Defensoria Pública cearense (DP-CE) nesta terça-feira (15/7) para pedir por justiça. A manifestação do grupo à imprensa ocorreu logo após a Justiça estadual anunciar as datas dos julgamentos finais do caso, quase dez anos depois de ter ocorrido.
Em 25 de agosto, mais sete acusados serão submetidos a um Tribunal do Júri. Já em 22 de setembro deste ano, outras três pessoas serão julgadas pelo corpo de jurados. Antes disso, 20 réus já haviam sido julgados, entre os quais seis acabaram condenados pelo júri e os outros 14 foram absolvidos.
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A chacina ocorreu entre a noite do dia 11 e a madrugada de 12 de novembro de 2015, em um intervalo de seis horas. Na ocasião, policiais militares mataram 11 pessoas indiscriminadamente ao promover uma série de ataques em bairros da Grande Messejana, incluindo o Curió, em Fortaleza, por vingança à morte do PM Valtermberg Chaves Serpa em um caso de latrocínio — um dia antes, ele foi morto ao tentar intervir em uma tentativa de assalto contra a esposa no bairro Lagoa Redonda, também na região.
“Nosso sentimento nunca foi de alívio ou de alegria. Houve as condenações, e não ficamos alegres. E com as absolvições, ficamos menos [alegres] ainda. Mas tivemos um resultado gigantesco. Nosso objetivo não era só as condenações, era trazer à tona todo esse lado podre [da polícia] que sabemos que existe. É exatamente esse lado que temos que tirar fora. Se as pessoas que fizeram isso estão do lado da banda podre, elas têm que sair [da polícia]. Infelizmente, é esse o nosso sentimento”, disse Suderli de Lima durante a coletiva. Ela é mãe de Jardel Lima dos Santos, morto na chacina aos 17 anos de idade.
‘A gente luta a cada dia com esperança’
Junto dela, falaram à imprensa outras quatro familiares de vítimas da chacina: Ana Costa, viúva de José Gilvan Pinto Barbosa, morto aos 41 anos; Maria de Jesus, mãe de Renayson Girão da Silva, 17; Edna Carla, mãe de Álef Souza Cavalcante, 17; e Silvia Helena, irmã de Suderli e tia de Jardel.
Todas elas integram o Movimento Mães do Curió, formado para pedir por justiça desde então. O grupo também luta pela memória de Antônio Alisson Inácio Cardoso, assassinado na chacina aos 17 anos; Francisco Enildo Pereira Chagas, 41; Jandson Alexandre de Sousa, 19; Marcelo da Silva Mendes, 17; Patrício João Pinho Leite, 16; Pedro Alcântara Barroso, 18; e Valmir Ferreira da Conceição, 37.
“A cada dia, a gente está de pé porque tem esperança nesses próximos júris. A gente espera pela Justiça, que ela seja justa. A cada dia, durante esses dez anos, a gente não parou. A gente continuou e vai continuar até o final, porque nos tiraram algo muito precioso e, para que não aconteça mais com nenhuma mãe e esposa que mora na periferia, a gente luta a cada dia com essa esperança”, disse Ana.
“Nós pagamos uma polícia para entrar na nossa periferia, mas para deixar nossos filhos e nossos jovens vivos, e não mortos. Isso é um grito que temos na nossa garganta, que está entalado, porque a gente precisa de justiça. A gente não luta contra a polícia, a gente luta para que a polícia passe a trabalhar direito e com honestidade nas nossas periferias, no meio do nosso povo. Quando se pede justiça e um julgamento justo, a gente não está contra eles, a gente está ensinando eles a trabalhar, porque eles usam de abuso de autoridade para matar nossos filhos. Isso não pode acontecer mais”, afirmou Edna Carla.
Chacina do Curió despertou rede de luta contra violência policial
Além das vítimas fatais, sem envolvimento com o latrocínio contra Valtermberg, a Chacina do Curió teve quatro sobreviventes de tortura e três pessoas que sofreram tentativa de homicídio. O Ministério Público do Ceará (MP-CE) denunciou 45 policiais, entre os quais 44 se tornaram réus. A Justiça cearense pronunciou 34 deles, para que fossem levados a júri popular, e impronunciou os demais. Entre os pronunciados, um deles morreu e outros três tiveram o caso remetido à Justiça Militar.
A rede de apoio formada em torno da Chacina do Curió foi um marco na história do Ceará na luta contra a violência de Estado. Conforme mostrou a Ponte, foi disso que surgiu o Fórum Popular de Segurança Pública cearense (FPSP-CE), um espaço de acolhimento e mobilização contra a letalidade policial.
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O defensor público-geral do Ceará em exercício, Leandro Sousa Bessa, também presente na coletiva de imprensa com as mães do Curió, avaliou que a luta delas desde então ainda foi um marco para o órgão lidar com a violência de Estado. “Foi um caso diferente, emblemático. A Defensoria Pública não tinha atuado com essa intensidade na assistência da acusação e, principalmente, no acolhimento de vítimas de violência. Então, a partir desse momento, se instituiu uma rede de muitos parceiros. A Defensoria, a partir de então, criou a Rede Acolhe, que é um núcleo de atuação. Ela tem hoje um papel multidisciplinar, não só de assistência de acusação, mas também de acolhimento psicológico e social dessas famílias.”
Entre os parceiros citados pelo defensor está o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará (Cedeca Ceará), entidade que também contou com uma representante na coletiva, a coordenadora-geral Marina Araújo, e endossou o legado das famílias. “O Cedeca tem por missão defender os direitos de crianças e adolescentes e exercer o controle social do Estado. E é isso que essas mães demonstram a cada júri, a cada passo que dão com o movimento das Mães do Curió.”
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Também esteve presente na entrevista coletiva Thiago de Holanda, que é coordenador-técnico do Comitê de Prevenção e Combate à Violência da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece). “Esse é um trauma social que o Ceará vive e que precisa ser resolvido. É um trauma individual que essas mulheres sofreram e que precisa ser ressignificado, para que a gente possa avançar para um estado menos violento, um estado de paz. A gente sempre fala que a paz é fruto dessa justiça.”