Mais de 90% das crianças deixam de ser vacinadas na Maré em dias de operação policial

Confrontos armados interrompem o funcionamento de postos de saúde, afastam famílias e deixam milhares de crianças sem imunização. Relatório da Redes da Maré em parceria com o UNICEF denuncia padrão de racismo institucional

A imagem mostra uma favela em área de morro, com dezenas de casas de alvenaria em diferentes cores, muitas delas de tijolo aparente ou pintadas em tons de branco, verde e azul. Os telhados são simples, alguns cobertos com lonas azuis. Em primeiro plano, há uma densa área de vegetação verde. Ao fundo, aparece uma serra coberta por mata e o céu está nublado, com aparência de tempo chuvoso.
Vista parcial da Maré, maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, onde estudo mostra queda de mais de 90% na vacinação infantil em dias de operações policiais | Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Em um único dia de operação policial na Maré — o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro — em média 80 crianças deixam de ser vacinadas. O número é resultado de um estudo da Redes da Maré em parceria com o UNICEF que analisou dados de imunização infantil entre 2024 e o primeiro semestre de 2025. A pesquisa “A Primeira Infância na Maré: impactos da violência armada na saúde e imunização de crianças até 6 anos de vida”, lançada nesta sexta-feira (24/10) mostra que, quando uma clínica de saúde precisa fechar por causa de confrontos, a vacinação de crianças de até seis anos cai mais de 90%: de uma média de 89 crianças vacinadas em dias comuns para apenas 9.

O levantamento também aponta que não é só o fechamento de unidades que interrompe o acesso à saúde. Mesmo quando os postos permanecem abertos, a circulação de blindados, o som dos tiros e a tensão instalada afastam as famílias. Em dias de operação, mas sem paralisação formal de postos, a queda variou entre 55% e 80% no número de vacinas aplicadas.

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Formada por 15 comunidades onde vivem cerca de 125 mil pessoas, a Maré é situada entre a Avenida Brasil e as linhas Amarela e Vermelha — e convive diariamente com a presença de grupos armados e de operações policiais.

O levantamento cruzou dados de vacinação infantil do Sistema Nacional de Imunizações (SI-PNI) com registros de operações policiais documentadas pelo projeto De Olho na Maré. O estudo foi complementado por grupos focais com mães, avós e agentes comunitários de saúde, além de observação em campo e revisão bibliográfica.

Impacto desigual

Entre janeiro e dezembro de 2024, a organização Redes da Maré registrou 42 operações policiais, que se estenderam por 43 dias de impacto no território. Nesses dias, a vacinação de crianças de até seis anos caiu de uma média de 187 doses aplicadas diariamente em dias regulares para apenas 20 doses, o que representa mais de 80 crianças sem vacina por dia de operação.

O cenário se repetiu em 2025. No primeiro semestre, foram contabilizados 7 dias de clínicas fechadas durante operações. A média de doses diárias em dias comuns foi de 176,7, mas caiu para 21 em dias de operação, com apenas 11 crianças vacinadas. Mesmo quando as unidades não fecharam, mas houve ação policial em alguma parte da Maré, o número de vacinas caiu mais da metade: de 76 para 34 crianças atendidas por dia.

O impacto é desigual. A unidade mais afetada pelos fechamentos está localizada em uma área com 65% da população preta e parda. Em 2024, essa unidade fechou em 20 dos 22 dias em que houve interrupção de serviços por operações policiais. No ano seguinte, já havia registrado sete dias de portas fechadas até junho.

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Para a chefe do escritório do UNICEF no Rio, Flávia Antunes, os dados expõem um padrão de racismo institucional: “O território mais afetado pelos fechamentos é justamente aquele com maior concentração de população preta e parda na Maré. A violência armada e a negação do cuidado demonstram um padrão de racismo institucional que viola desproporcionalmente direitos de famílias negras.”

A pesquisa reforça que a violência armada deve ser tratada como determinante social da saúde. Cada dia perdido significa consultas desmarcadas, exames cancelados e crianças sem vacinas. No mesmo período, escolas também ficaram sem funcionar: entre 2016 e 2023, foram 146 dias de aulas suspensas na Maré por causa de tiroteios, o equivalente a 73% de um ano letivo. Em 2024, só na área da saúde, as paralisações resultaram em 8.715 atendimentos não realizados.

“A política de segurança pública hoje no Rio de Janeiro funciona como um determinante social da saúde, porque impõe barreiras para o acesso à saúde e à imunização da primeira infância”, diz Flávia Antunes.

SUS deve ter resposta a violência armada

O estudo mostra que a baixa imunização na Maré não está ligada à hesitação vacinal, mas às barreiras impostas pela violência armada. A pesquisa indica que a maioria das famílias valoriza a vacinação e mantém a caderneta das crianças em dia, mas muitas vezes não consegue chegar aos postos em dias de operação policial. O resultado é uma infância atravessada por tiroteios, escolas fechadas e vacinas atrasadas — efeitos diretos de uma política de segurança que interrompe direitos básicos.

Para reduzir esses danos, o relatório recomenda criar instâncias permanentes de governança entre saúde, segurança e justiça; incluir a violência armada no planejamento do SUS; ampliar a vacinação em espaços intersetoriais, como escolas e CRAS; e garantir reparação a famílias e profissionais prejudicados, com remarcação de consultas e apoio psicossocial.

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Flávia Antunes resume a urgência dessas medidas: “A gente acredita, como fundo das Nações Unidas para a Infância, que há caminhos possíveis. Estamos chamando os nossos parceiros e representantes de governo para esse diálogo.”

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