Cartilha, rodas de conversa, rede de apoio e fórum infantojuvenil foram alguns dos protótipos desenvolvidos no projeto Salve!, iniciativa do Instituto Procomum — que discutiu segurança pública com base na escuta em diferentes bairros

Dispostos em roda, os participantes do projeto Salve! conheceram-se em setembro, na sede do Instituto Procomum, no bairro Vila Nova, região central de Santos, no litoral paulista. Foram três dias de imersão com atividades voltadas a ouvir os moradores de regiões negligenciadas pelo poder público na Baixada Santista sobre o que consideram problema em segurança pública. A ideia era simples e ambiciosa: que a população que mais sofre com a violência pudesse ela mesma pensar em soluções.
O projeto foi desenvolvido pelo Instituto Procomum, organização que atua para fortalecer e articular comunidades, promovendo impacto social. Para Luísa Xavier, assessora de cuidado e mobilização do Procumum e coordenadora do Salve!, a proposta foi amplificar as vozes de quem reflete sobre segurança pública, investindo em processos de escuta em diferentes bairros e na criação de redes locais. “Operações pontuais, como a Verão ou a Escudo, não dão conta da complexidade da violência. Há episódios de violência policial e institucional que atravessam o cotidiano da cidade e não entram nos dados oficiais”, afirma a coordenadora.
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A diversidade foi central na formação dos grupos. Cerca de 80% dos participantes relataram viver diretamente os efeitos da violência, o que transformou as discussões também em um espaço de compartilhamento de experiências pessoais. A metodologia seguiu a linha já utilizada pelo Procomum, que entende a inovação cidadã como resultado da diferença — reunir pessoas de perfis e territórios distintos para pensar coletivamente problemas complexos.
Os protótipos desenvolvidos foram concebidos para serem replicáveis e autônomos, de modo a continuar existindo mesmo após o ciclo do laboratório. Mais importante que os projetos em si, destaca Luísa, é a rede formada entre os participantes. “O principal são as relações que essas pessoas criam entre elas. É uma forma de fortalecer a sociedade civil em Santos em relação ao tema da segurança.”

Segurança inclui paz, árvores e gente soltando pipa
Um dos quatro protótipos foi a produção de uma cartilha com orientações de segurança, elaborada após um processo de escuta com moradores do Morro Santa Maria, em Santos — comunidade marcada pela violência da Operação Escudo, que em 40 dias resultou em 28 mortes. Em agosto de 2023, um jovem de 19 anos foi morto no morro em um suposto confronto com policiais militares. Dias depois, a mesma narrativa foi usada para justificar a morte de Vinicius de Souza Silva, 20, assassinado um dia após o aniversário. Ao g1, a família negou que ele tivesse atirado contra os PMs.
A proposta da cartilha nasceu na imersão e foi apresentada por Thiago Telles, 40, bacharel em Direito e educador social. “Um novo modo de segurança pública seria levar conhecimento, educação, algo que pudesse ajudar de alguma forma, mesmo que relativamente pequena”, explica. A ideia foi somada a outras, como a geração cidadã de dados e uma campanha visual com lambes, e acabou se consolidando como protótipo do grupo.

No dia 11 de outubro, os integrantes realizaram a escuta no Santa Maria. O encontro incluiu oficinas de grafite com crianças e a criação do personagem “Salvinho”, símbolo do projeto. “Foi um dia maravilhoso, de muita troca com a comunidade. Ouvimos relatos sobre medo, insegurança, mas também sobre sonhos de melhorias. Conseguimos muitas informações bacanas para dar esse retorno em forma de conhecimento na cartilha”, conta Thiago.
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O material produzido reúne orientações práticas para enfrentar situações de violência e exercer direitos. Explica como agir em abordagens policiais e a quem recorrer em casos de abuso — Defensoria Pública, Ministério Público, Delegacia da Mulher e Ouvidoria das Polícias — além de canais de denúncia como o Disque 100 e o 125.
A cartilha também estimula a mobilização comunitária: cobrar políticas públicas, apoiar iniciativas culturais locais, incentivar jovens em atividades de educação, esporte e arte. Construída a partir das vozes dos moradores do Santa Maria, reforça em uma frase: “A segurança que a gente quer tem a ver com paz, árvores, pipas no céu e crianças brincando livremente nas ruas.”

Redes de apoio
Outro protótipo foi o Bem Viver, criado por mulheres da comunidade Vila Nova. Em 18 de outubro, elas organizaram palestras sobre violência contra a mulher, com discotecagem de DJ, e distribuíram kits de higiene, apitos de segurança e panfletos informativos. A ideia foi fortalecer redes de apoio entre mulheres e incentivar práticas de autoproteção.
“Acreditamos que o projeto pode mudar a vida das pessoas do bairro, porque traz acolhimento, informação e apoio para mulheres e crianças que sofrem com a violência”, disse Silmara Franco Baron, 49, analista de produção e integrante do grupo.
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Durante as conversas, chamou atenção a dificuldade de muitos moradores em falar sobre segurança pública, mesmo tendo muito a dizer. “A maioria quer um lugar mais seguro, com empatia e cuidado. E todos podemos fazer parte dessa mudança”, completou.
O Bem Viver pretende dar continuidade às ações com rodas de conversa, parcerias institucionais e novos encontros em comunidades da região, buscando se consolidar como uma rede permanente de apoio.

Fórum infantojuvenil do Território
O Salve também resultou na criação do Fórum Infantojuvenil do Território de Santos (FITS), que reuniu crianças e adolescentes das periferias da Baixada Santista para debater temas centrais no cotidiano juvenil: educação sexual, letramento racial, saúde da mulher, segurança menstrual e segurança pública. Diferente de iniciativas que levam conteúdos prontos, o Fórum trabalhou com dinâmicas baseadas na vivência e na linguagem dos participantes.
A primeira edição, em outubro, foi planejada para dois dias, mas a programação foi reduzida devido às fortes chuvas na Zona Noroeste. No primeiro dia, grupos de crianças de 7 a 12 anos e adolescentes de 13 a 16 participaram de rodas de conversa e atividades culturais. “As autoridades muitas vezes aparecem para ouvir e nada muda. O Fórum veio para inverter essa lógica, para que eles sejam reconhecidos como sujeitos de direitos”, diz Ariadney Deodato, 26, educadora sexual e integrante do grupo.
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Segundo Ariadney, a ideia não é impor conteúdos, mas construir coletivamente. “Usamos dinâmicas sobre educação sexual, racial e segurança pública voltadas à reflexão. Eles trouxeram suas vivências e, a partir delas, tivemos uma troca de aprendizado incrível”, relata. O Fórum também quer transformar o que foi discutido em relatórios e devolutivas para escolas e instituições parceiras.
A expectativa é transformar o FITS em um processo contínuo, capaz de percorrer diferentes territórios e incorporar novos temas. “Nosso desejo é que cresça, vire algo fixo e percorra Santos e outros lugares, levando essas pautas e outras urgentes, como inclusão e meio ambiente”, afirma Ariadney.

Juventude da Vila Israel discute segurança a partir da arte
Outro protótipo foi desenvolvido com nove adolescentes da Vila Israel, no Morro Santa Maria, em Santos, com idades entre 12 e 15 anos e integrantes da Batalha da Favelinha, competição de rap e rima que valoriza o protagonismo juvenil e a cultura Hip Hop nas periferias de Santos.
O grupo participou de dois encontros, nos dias 11 e 12 de outubro, realizados na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e no Instituto Procomum. As atividades incluíram oficinas de teatro, letramento racial e exibição de curtas-metragens produzidos por artistas da Baixada Santista, a partir das perguntas “o que faz você se sentir seguro?” e “em que lugar você se sente seguro?”.
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Para os organizadores, a proposta foi usar a arte como caminho de formação crítica, respeitando a linguagem da adolescência e incentivando a coletividade. “Um ponto extremamente importante foi ver crianças da Vila Israel ocupando uma universidade federal e pública, tendo aula com professores do Educafro”, destaca Deborest Mavarro, 31, artista de rua e integrante do grupo.