Marmitas consumidas pelas duas vítimas em Itapevi (SP) continham Terbufos, agrotóxico que compõe o “chumbinho”; motivação para o crime é investigada

Os dois moradores de rua que morreram após comerem uma marmita em Itapevi, Grande São Paulo, foram envenenados com “chumbinho”, usado irregularmente como veneno de rato. A Polícia Civil confirmou na sexta-feira (31/7) que encontrou a sustância chamada Terbufos, uma classe de inseticida bastante usada como agrotóxico, no alimento.
As marmitas foram consumidas por José Araújo Conceição, 61 anos, e Vagner Aparecido Gouveia de Oliveira, 37. Eles chegaram a ser socorridos, mas faleceram no Pronto Socorro Central de Itapevi. As vítimas estavam em um posto de combustível desativado. Um cão que convivia com eles também se alimentou e morreu.
Segundo informações da polícia, um dos moradores de rua entregou três refeições a um comerciante que passava pelo local. Ao levar as marmitas para casa, uma adolescente de 17 anos e uma criança de 11 anos consumiram o alimento, passaram mal e foram internados. A adolescente teve alta e o menino continua internado, mas fora de risco.
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A polícia tenta agora esclarecer se a comida foi envenenada no posto ou no momento da preparação. Para isso, irá analisar outras imagens de câmeras de monitoramento nas proximidades do posto onde as marmitas foram entregues.
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, o caso é investigado como homicídio consumado e tentado. “A motivação do crime ainda é desconhecida e todas as hipóteses são averiguadas. A equipe também está ouvindo testemunhas, realizando diligências e analisando imagens de câmeras de monitoramento para esclarecer todas as circunstâncias relacionadas aos fatos”, diz a nota.
“Comi a marmita e não passei mal”
As doações foram feitas por voluntários de uma igreja evangélica que fica na cidade de Cotia. À Ponte, Karoline Cristina, de 23 anos, filha da pastora que preparou as marmitas, já havia negado, na ocasião, que as comidas estavam envenenadas.
De acordo com ela, as doações aconteciam todas as terças-feiras na parte da noite. Como em Cotia já há outros grupos que fazem esse trabalho, ficou decidido, há dois meses, realizá-lo em Itapevi. Ela conta que o posto de combustíveis abandonado, onde ficavam os dois moradores de rua que morreram, era o primeiro lugar que os voluntários paravam.
Karoline se apresentou à Delegacia de Itapevi no dia 23 de julho para prestar depoimento. De acordo com ela, os policiais já tinham encontrado, em uma das marmitas deixadas no posto, um pedaço de carne com “bolinhas pretas” que estava “por cima da comida”, dando a impressão que “alguém o colocou lá”. Segundo a moça, a igreja nunca preparou carne para as doações.
“A gente faz salsicha, frango e linguiça. Sempre isso. O investigador disse que é como se alguém tivesse salpicado por cima da comida. Não é uma coisa que estava escondida. Colocaram lá por cima da comida”, disse, em relação ao pedaço com manchas pretas.
Durante o trajeto, ainda na noite de terça-feira, o grupo seguiu para outros pontos de Itapevi, entregando marmitas e roupas a moradores de rua e também para famílias necessitadas que frequentam a igreja. Uma dessas famílias é a de Luíza Vieira da Silva, que mora na Cohab II com o marido e um casal de bebês gêmeas.
“Peguei as marmitas por volta das 23h30. Já é a segunda vez que eu pego. Todo mundo em casa comeu, inclusive as minhas filhas, e ninguém passou mal. Tinha arroz, feijão, repolho e salsicha ao molho”, conta.
Ao todo, segundo a voluntária do grupo, foram entregues 50 marmitas. Durante o percurso até a delegacia onde prestou depoimento, ela e seu pai, que também ajuda nas doações, encontraram a última pessoa que pegou as marmitas. Segundo ela, o homem comeu as duas e disse que não passou mal.
ERRATA – reportagem atualizada às 12h02 do dia 3/8 para correção da informação sobre o “chumbinho”, que é um agrotóxico usado irregularmente como veneno de rato

