MP-SP pediu que operação no Moinho não fosse antecipada à PM-SP e à Polícia Civil

    Ministério Público também solicitou que mandados de prisão não fossem cadastrados em banco de dados, para evitar vazamentos. Operação na comunidade teve dez pessoas como alvo, incluindo duas líderes comunitárias

    Policiais militares e civis foram comunicados sobre operação somente após Ministério Público ser comunicado de mandados pela Justiça | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    O Ministério Público de São Paulo (MP-SP), à frente da operação que prendeu lideranças comunitárias na favela do Moinho, na região central da capital paulista, nesta segunda-feira (8/9), pediu à Justiça que, quando fossem expedidos os mandados de prisão e também de busca e apreensão da ação, a Polícia Militar paulista (PM-SP) e a Polícia Civil não fossem informadas antecipadamente deles.

    A Ponte teve acesso ao pedido do MP-SP, atendido pela Justiça. O órgão solicitou que os mandados fossem enviados exclusivamente por e-mail ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), vinculado ao próprio Ministério Público, sem que fossem cadastrados no Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões (BNMP). A intenção era evitar o vazamento da ordem judicial.

    A operação teve expedidos dez mandados de prisão. Para serem cumpridos, o MP-SP teve apoio de policiais civis e militares. Durante o dia, a comunidade esteve sob forte aparato policial, com a presença das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) e de um helicóptero da PM-SP em sobrevoo.

    Lideranças comunitárias foram presas na comunidade

    Entre as pessoas presas, estão Alessandra Moja Cunha e a filha dela, Yasmin Moja Flores, líderes de uma associação de moradores da comunidade bastante atuantes no local. A favela do Moinho passa por um processo de desocupação intensificado em maio, ocasião em que os governos Lula (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) anunciaram um acordo ainda não efetivado para garantir imóveis gratuitos às famílias que se mudassem, após recorrentes ações truculentas da PM-SP.

    A ação, batizada de Operação Sharpe, teve o objetivo, segundo o MP-SP, de desarticular um grupo criminoso que estaria atuando para impedir que funcionários da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) atuassem na remoção de famílias da comunidade. O grupo estaria atuando a mando de Leonardo Monteiro Moja, irmão de Alessandra e tio de Yasmin.

    Conhecido como Léo do Moinho, ele foi preso em um apartamento em Praia Grande, no litoral paulista, em agosto de 2024 e é apontado pelo MP-SP como responsável pelo abastecimento de drogas da chamada Cracolândia, além de ser uma das lideranças da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo. O grupo sob mando dele estaria atuando, ainda segundo o Ministério Público, para manter as atividades de tráfico de drogas e também para extorquir inquilinos que viviam em imóveis de Leonardo na favela e seriam contemplados pelo acordo de moradia gratuita.

    Alessandra estaria à frente dessas cobranças, além de prestar contas ao irmão. Já Yasmin foi vinculada ao caso por morar em uma residência de três andares na qual, no térreo, seriam armazenados produtos ilícitos. Moradores da comunidade e pessoas próximas a elas relatam que as prisões foram arbitrárias.

    Além das líderes comunitárias, também foram alvos de mandado de prisão José Carlos Silva, acusado de suceder Leonardo na chefia do tráfico na região; Ronaldo Batista de Almeida e Reginaldo Terto da Silva, responsáveis pela “disciplina” na comunidade e cobrança a moradores; Leandra Maria de Lima, também atuante na extorsão a quem se mudasse; Ademario Goes dos Santos, acusado de fazer a vigilância de imóveis de Leonardo e atuar no tráfico; Jorge Santana, dono de um bar que armazenaria drogas e armas de fogo; Paulo Rogério Dias, acusado de organizar a distribuição de entorpecentes; e Cláudio dos Santos Celestino, suspeito de envolvimento com o tráfico e lavagem de dinheiro. Já Roberto Gonçalves da Cruz foi preso em flagrante porque a polícia teria encontrado droga na casa dele.

    Moradores temem que acordo por imóvel gratuito não seja cumprido

    Moradores e pessoas que já deixaram o Moinho ouvidas pela Ponte relataram que, até aqui, não tiveram acesso ao imóvel definitivo prometido. Eles temem que a truculência policial para a remoção forçada da comunidade seja retomada agora. As famílias também têm receio de que, com a prisão das líderes comunitárias, que eram as interlocutoras da favela junto aos governos, o acordo não seja cumprido.

    Localizada na região dos Campos Elísios, a favela do Moinho se espreme entre trilhos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), embaixo do Viaduto Engenheiro Orlando Murgel e na divisa com o bairro do Bom Retiro. A remoção dos moradores se insere no contexto da alegada revitalização da região central pelo governador: a comunidade está a menos de um quilômetro da Praça Princesa Isabel, para onde Tarcísio pretende levar parte da sede administrativa do governo.

    A gestão estadual sempre vinculou o reassentamento da comunidade também ao combate ao PCC, facção à qual a favela estaria submetida e que faria dela base para o tráfico de drogas na Cracolândia. A gestão Tarcísio diz que os moradores vivem sob risco e em condições insalubres. Além disso, ela pleiteia a cessão do terreno pela União, onde prevê construir um parque e, eventualmente, uma estação de trem.

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