Pela democracia, #Mulheres Contra Bolsonaro vão às ruas gritar “Ele, não”

    Movimento de repúdio ao candidato e de afirmação da democracia mobilizou centenas de milhares, em todos os estados do Brasil e também no exterior

    Manifestante #EleNão diante de policiais militares na Avenida Paulista, em São Paulo | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

    O que começou como um grupo de Facebook, formado por mulheres incomodadas com as declarações de Jair Bolsonaro, o candidato do PSL que já disse que mulheres devem ganhar menos do que homens, que algumas nem merecem ser estupradas e que ter uma filha é “dar uma fraquejada” – saiu das redes sociais para as ruas neste sábado (29/9). E mostrou que o movimento #EleNão tem força.

    Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, estados onde o candidato lidera com folga nas pesquisas eleitorais, com mais de um terço das intenções de voto, os protestos reuniram mais de 100 mil pessoas em cada uma.

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    “Está melhor do que eu esperava”, disse a aposentada Lígia Maria Prado, 68 anos, animada ao ver a multidão que encheu o Largo da Batata, na zona oeste da cidade de São Paulo, onde a manifestação se concentrou. “Eu estou aqui porque sou negra e pobre e ele é contra tudo. É contra LGBT, negro, índio, contra todos os direitos das pessoas.”

    As Polícias Militares não divulgaram estimativa sobre o número de participantes dos eventos. Em São Paulo, os organizadores calcularam 150 mil pessoas. No Rio, onde os manifestantes se concentraram na Cinelândia, o número parecer ter sido semelhante.

    Manifestante #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

    As manifestações contrárias a Bolsonaro ocorreram simultaneamente em todos os estados do Brasil e também no Distrito Federal. No total, os atos se deram em 114 cidades brasileiras, segundo levantamento do G1.  O site também registrou a organização de atos pró-Bolsonaro, mas com alcance bem menor, de 40 cidades em 16 estados.

    Montagem carnavalesca feita por manifestantes #EleNao em São Paulo | Foto: Paula Rodrigues/Ponte

    Os gritos de #EleNão ultrapassaram as fronteiras, com pequenos protestos organizados em cidades estrangeiras, de capitais a cidadezinhas. Teve gente repudiando Bolsonaro em locais como Buenos Aires, na Argentina, Londres, na Inglaterra (onde contou com a participação da ativista Mônica Tereza Benício, viúva da vereadora Marielle Franco), Covilhã, em Portugal, Genebra, na Suíça, Berlim, na Alemanha, Atlanta, nos EUA, Malmö, na Suécia, entre outros.

    Patrícia, evangélica: ‘Nossa fé não tem a ver com racismo, homofobia’ | Foto: Paula Rodrigues/Ponte

    As mulheres eram a grande maioria, cerca de 70% dos presentes. E algumas rompiam com os estereótipos, representando segmentos sociais que costumam ser associados ao nome do candidato do PSL. A vendedora Patrícia Carneiro, 21 anos, reuniu um grupo de mulheres evangélicas no Largo da Batata, todas anti-Bolsonaro, justamente para demonstrar que sua religião não a obrigava a apoiar um candidato como ele. “Estamos na rua para que as pessoas não achem que a nossa fé tenha alguma coisa a ver com tortura, perseguição, mentira. Preconceito e mentira não combinam com a gente”, justificou. “A nossa fé não tem nada a ver com racismo, homofobia e misoginia, que é o que ele prega.”

    Janaína Mattos, inspetora, diz que política de Bolsonaro mata os pobres e a polícia | Foto: Leonardo Coelho/Ponte

    No Rio, Janaína Mattos, 33 anos, também destoava dos padrões. Mulher, negra e inspetora da Polícia Civil carioca, membro do grupo Policiais Antifascismo, Janaína não concorda com o apoio que muitos de seus colegas das forças de segurança costumam demonstrar em relação ao candidato, que, entre suas bandeiras, defende a garantia de impunidade para policiais que cometam crimes no exercício de suas funções. “Bolsonaro representa uma politica de segurança pública que não resolve nada e que só mata a juventude periférica e os próprios policiais”, afirmou a inspetora.

    Mulher mostra pintura corporal com #EleNão no Rio | Foto: Leonardo Coelho/Ponte

    Pela democracia

    No início da noite, em São Paulo, os manifestantes saíram do Largo da Batata. Seguiram pela Avenida Rebouças e chegaram à Avenida Paulista, encerrando o ato diante do Masp (Museu de Arte de São Paulo). O movimento foi pacífico e sem incidentes. Muitas das que participaram do protesto diziam que, além de repudiar o candidato Bolsonaro, foram ao protesto também pelo direito de continuarem a protestar, um direito que acreditam estar ameaçado por um eventual governo Bolsonaro.

    Manifestante #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo | Foto: Mathilde Missioneiro/Ponte

    Já que tanto Bolsonaro como seu vice, Hamilton Mourão, já defenderam a possibilidade de um golpe militar, e um dia antes do protesto o próprio Jair havia declarado que não aceitaria uma possível derrota nas urnas, muitas acreditam que gritar #EleNão é dizer um não também para o risco de uma nova ditadura.

    Manifestante #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo | Foto: Mathilde Missioneiro/Ponte

    “Deixou de ser uma questão eleitoral, de escolher o seu candidato, é uma defesa da democracia antes de mais nada. Da democracia, dos direitos humanos, do LGBT, do respeito às diferenças, da valorização da cultura, tudo o que ele é contra”, resumiu o músico Arnaldo Antunes.

    Manifestante #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo | Foto: Mathilde Missioneiro/Ponte

    Seu antigo colega da banda Titãs, Paulo Miklos, foi na mesma linha. “Fascismo a gente não discute, a gente combate, e estou aqui para combater o fascismo”, declarou. “Tem um candidato que está trazendo de volta tudo o que tem de mais retrógrado, de mais terrível na história, e a gente tem que combater isso.”

    Manifestante participam de protesto #EleNão em São Paulo | Foto: Sérgio Silva/Ponte

    A museóloga Maria Inês Franco, 64 anos, foi até o protesto para lutar pela democracia que ela viu nascer. Durante a ditadura militar, conta, testemunhou sua “professora mais amada” do ensino médio “desaparecer do dia para a noite”. Ela participou da luta pela redemocratização nos anos 80, marchando pelas Diretas-Já, e defende que o momento atual é tão importante quanto aquele. “Eu sou de uma geração que viveu a ditadura e vejo que estamos num turning point [ponto de virada] muito complicado”, afirmou.

    Manifestante participam de protesto #EleNão em São Paulo | Foto: Paula Rodrigues/Ponte

    Acostumada a trabalhar com o passado, Maria Inês afirma que o Brasil precisa recuperar sua memória, pois anda se esquecendo com muita facilidade dos males da ditadura e das conquistas trazidas pela democracia. “O Brasil nos últimos 30 anos teve conquistas incríveis na área social, cultural, nos direitos humanos. Não podemos retroceder agora”, disse.

    Manifestantes participam de protesto #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

    O medo de uma nova ditadura é muito real para a fotógrafa Nair Benedicto, 78 anos, que foi presa durante o regime militar. “Eu digo que é muito importante participar desse movimento porque já vi esse filme. Esses argumentos que andam usando, esse medo do comunismo, isso de ‘contra a corrupção’, é tudo balela, tem que acabar, chega”, desabafou.

    Manifestante #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo | Foto: Mathilde Missioneiro/Ponte

    “Ele é totalmente contra as mulheres, não tem um programa de governo para a população, nem para a educação, nem para a saúde, ele vem propagando o ódio”, afirmou a professora Thamires Alves de Almeida Santos, 26 anos. “Eu, como mulher negra, periférica, lésbica, não dá para aceitar Bolsonaro no governo.”

    Manifestantes #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo | Foto: Mathilde Missioneiro/Ponte

    O movimento não se pretendia apartidário. Havia muitas bandeiras do PT, do Psol, do PDT e algumas da Rede. Entre boa parte dos participantes, contudo, a sensação era de que o repúdio ao fascismo era mais importante do que o apoio a um candidato específico. “A gente não pode ficar calada num momento como esse, principalmente, nós, mulheres. Ele infelizmente é uma ameaça aos direitos humanos, às mulheres, à sociedade”, explicou a editora de vídeo Mônica Morais, 25 anos. Foi a primeira manifestação de que participou e achou a experiência “incrível”.

    Perguntada sobre seu candidato, Mônica ficou em silêncio por alguns segundos, até admitir que ainda não tinha um nome. E concluiu: “Estou em dúvida quanto a essa questão, mas uma coisa é certa: ele, não”.

    Manifestantes participam de protesto #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo | Foto: Daniel Arroyo/Ponte
    Manifestante #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo | Foto: Mathilde Missioneiro/Ponte
    Manifestante #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo | Foto: Paula Rodrigues/Ponte

    (Bruna Freire, Carolina Moura, Daniel Arroyo, Fausto Salvadori, Jeniffer Mendonça, Leandro Barbosa, Leonardo Coelho, Mathilde Missioneiro, Olavo Barros, Caê Vasconcelos e Sérgio Silva)

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