Nícolas Panizo estava na casa dele ouvindo música, quando um PM, que é seu vizinho, entrou no local e o agrediu com tapas, socos e um chute no rosto

Assim que passou pelo portão do terreno de sua casa geminada na Vila Júlia, bairro no município de Poá, na Grande São Paulo, Nícolas Panizo correu os olhos roxos – resultado de um nariz quebrado e uma série de lesões no rosto – pelas imediações. Com medo, ele conferia se seu vizinho, o PM Alessandro Rezzo de Almeida, 39 anos, estava aguardando sua chegada em casa. Era madrugada do último domingo (24/11), quando o jovem de 20 anos estava voltando do Hospital Municipal Dr. Guido Guida, onde passou boa parte do dia, e na Delegacia de Poá, onde registrou um boletim de ocorrência contra Rezzo por agressão.
Na noite anterior, por volta das 21h40 do sábado (23/11), Panizo havia ligado a caixa de som em seu quarto. O jovem estava sentado na cama enquanto se arrumava para ir a uma festa, de costas para o aparelho, quando, de repente, o instrumental da música eletrônica “Boy From School” foi interrompido. Ao olhar para trás, o jovem se deparou com Rezzo, sem farda, marchando em sua direção “muito alterado”, como relatou. Sem dizer nada, o PM, que estava de folga, começou a agredi-lo com uma série de tapas, socos e até um chute no rosto.
“Eu tentei me defender levantando os braços, só que nisso eu caí na cama e ele me levantava para continuar me batendo”, conta Panizo. “Por fim, ele me deu um chute na cara”, relembra, referindo-se ao golpe que lhe causou uma fratura no nariz, conforme atesta o relatório médico.

O jovem conta que não percebeu que havia tido uma fratura. “Não foi nem a força, porque ele não bateu muito forte, foi mais o como ele bateu, porque foi um chute com a canela”, conta. Rezzo aparece em uma foto em seu perfil do Facebook vestindo um kimono de jiu-jitsu com faixa branca. A foto é de 2013.

Mesmo com o nariz quebrado, Panizo levantou da cama para tentar fugir com medo de ser morto dentro da sua própria casa. O PM, no entanto, não deixou. Encostou o jovem contra a parede e disse em tom de ameaça, como registrado no B.O. horas depois, “se acontecer isso de novo eu vou vir aqui e vai ser pior para você”.
Leonardo Bonfim, seu amigo, presenciou toda a agressão. Ele estava deixando o local para chamar outro colega, que mora no mesmo terreno, para ir à festa com eles, mas retornou assim que viu o PM abrir a porta – que até esse dia estava com a fechadura quebrada – e entrar na casa de Panizo. Sem se sentir intimidado pela presença da testemunha, Rezzo começou a agressão. “Eu vi tudo, toda a cena”, disse em entrevista à Ponte. Antes de deixar o local, o PM foi em direção a ele e o encarou. “Pensei que ele também fosse me bater, fiquei em choque”. Depois que o policial voltou para sua casa, Bonfim se encontrou com o outro amigo e os jovens levaram Panizo ao hospital.
Na delegacia, depois de sair do hospital, Panizo registrou o B.O. por três crimes: lesão corporal, ameaça e invasão de domicílio. O caso é investigado por meio de inquérito policial instaurado pela Delegacia de Poá, segundo a SSP (Secretaria da Segurança Pública). A Ponte tentou contato com Rezzo pelo Facebook e também pediu entrevista ao policial, via assessorias da PM e SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo), mas até o fechamento desta reportagem não teve resposta.
‘Ele levantou a camiseta e mostrou a arma para mim’
Nos últimos três meses, período no qual o jovem vive no endereço, ele e Rezzo já se desentenderam outras vezes por conta do som alto. Essa foi a primeira vez, no entanto, que o PM agrediu fisicamente Panizo. Mas não foi a primeira vez que o jovem se sentiu ameaçado pela presença do vizinho em sua casa. Com a tranca da porta de entrada da casa de Panizo quebrada, Rezzo teve facilidade para entrar no local, assim como no dia da agressão.

“Da última vez, ele [o PM] entrou em casa também só que ele não me agrediu. Em compensação, ele levantou a camiseta e mostrou a arma para mim, o cabo da arma, dava para ver que era a arma”, relembra. Panizo acreditava na segurança do local, mas depois da truculência policial ele conta que tem medo de ficar em sua própria residência e que pretende ir morar em outro lugar. “Ainda permaneço em casa, mas já troquei a fechadura da porta”. O jovem paga o aluguel com as últimas parcelas do seguro desemprego e se mantém com ajuda de amigos.
Rezzo, durante a agressão, perguntou ao jovem onde ele morava e, em uma tentativa de intimidação, disse que “quem morava ali era ele [o próprio PM]”. Segundo Panizo, alguns dos vizinhos das seis casas do terreno já foram incomodados por Rezzo por causa do som alto.
‘Vão cobrar a publicação no Facebook’
Três dias depois da agressão, no dia 26 de novembro, um amigo de Panizo fez uma postagem no Facebook pedindo justiça. “Não dá para explicar o tamanho da tristeza que sinto de ver um amigo sofrer, se resta alguma empatia no mundo peço para que compartilhem para que justiça seja feita!”, dizia o post. A publicação foi excluída quando chegou aos 100 compartilhamentos, pois Panizo recebeu uma mensagem dizendo que os policiais do Vila Júlia estavam “atrás dele” e que iriam “cobrar a publicação feita no Facebook”.

Rezzo é ativo na rede social. Além de posar para fotos com kimono de artes marciais, a rede social do PM é repleta de publicações homofóbicas, de apoio ao presidente Jair Bolsonaro e a favor do armamento da população. Em uma delas, há a imagem do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) segurando uma arma de fogo ao lado da foto de Estanislao Fernández, filho do presidente eleito da Argentina, que é cosplayer e performa como drag queen. Em outra, há a imagem de uma arma de fogo e da frase “não faça 10 inimigos se você só tiver nove balas”.
Para o advogado Dimitri Sales, doutor em Direito pela PUC-SP e presidente do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana do Estado de São Paulo), o policial cometeu um abuso de autoridade. “O PM não pode se valer de suas prerrogativas de funcionário público para intimidar as pessoas, ainda mais fora do serviço. É uma situação que deve ser apurada com rigor”, aponta.
Outro lado
A reportagem procurou a PM e a SSP-SP para questionar as ações da Polícia Militar e do policial. A SSP informou que “o suspeito da agressão deverá ser ouvido na próxima semana e que o Comando da área também apura as circunstâncias dos fatos”. Até o momento de publicação desta reportagem, a assessoria da Polícia Militar não se manifestou.
