PM vai a júri popular por morte de adolescente na zona leste de SP

Justiça manteve prisão de Thiago Guerra, acusado de matar Victória Manoelly, de 16 anos, durante abordagem. O PM vai responder por homicídio qualificado

Victória Manoelly dos Santos, de 16 anos, chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital | Foto: Arquivo pessoal

O sargento da Polícia Militar de São Paulo Thiago Guerra será julgado por júri popular pela morte da adolescente Victória Manoelly dos Santos, de 16 anos. Ela foi atingida por um disparo durante uma abordagem policial em 9 de janeiro deste ano, na Vila Minerva, zona leste da capital. A decisão, assinada pelo juiz Renan Oliveira Zanetti, foi publicada na terça-feira (5).

Guerra vai responder por homicídio qualificado — quando há agravantes, como a dificuldade de defesa da vítima. O juiz aceitou o pedido do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), avaliando que há elementos suficientes para que o policial seja julgado. A prisão preventiva do sargento também foi mantida.

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Segundo depoimento do irmão da vítima, Kauê Alexandre dos Santos Lima, 21, ele estava com Victória, a mãe e amigos em uma adega do bairro quando uma viatura da PM subiu na calçada e parou próxima ao local. Um dos policiais desceu e correu atrás de uma pessoa. Kauê relatou que, após a prisão de um suspeito, um segundo policial se aproximou, mandou que ele se deitasse no chão e o agrediu com uma coronhada. Em seguida, o jovem foi virado de costas e recebeu um segundo golpe, momento em que a arma disparou. O tiro atingiu Victória.

Sargento alegou que Kauê resistiu à abordagem

Kauê afirma que foi algemado e colocado na viatura, onde foi ameaçado de ser amarrado com cordas. Dentro do veículo, viu a mãe pedindo socorro. Um vídeo divulgado pela TV Globo à época mostra o momento em que Kauê é informado da morte da irmã. Ele chorava enquanto era levado à delegacia. Foi liberado apenas no dia seguinte, por volta do meio-dia.

Em sua versão, Thiago Guerra disse ter sido acionado para dar apoio a uma ocorrência de roubo. E que ao chegar foi informado de que Kauê e Victória corriam e foram apontados como suspeitos. O sargento alegou que Kauê resistiu à abordagem e o agrediu com um tapa ou soco. Durante a contenção, Guerra segurava a arma com a mão direita e, com a esquerda, tentava afastar a blusa do jovem. Ao recuar, ouviu o disparo.

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Imagens da câmera corporal de Guerra registraram parte da abordagem. É possível ouvir Kauê dizendo “tira a mão de mim”, ao que o policial responde: “Como que é, mano? Você é louco?”. Em seguida, o PM segura Kauê pela gola, aponta a arma e dá uma coronhada. O tiro é disparado nesse momento.

Na decisão, o juiz apontou que o processo reúne provas da ocorrência do crime e indícios suficientes de autoria, com base nos depoimentos, na fala do próprio acusado e nas imagens das câmeras corporais.

O ponto central, segundo a sentença, é se o policial assumiu o risco de causar a morte — o chamado dolo eventual. Para o juiz, a forma como Guerra abordou Kauê, armado, em local público e com outras pessoas ao redor, permite considerar essa possibilidade. Como a questão ainda não está esclarecida, a Justiça determinou que o caso seja decidido por um júri.

A defesa pediu a absolvição imediata, alegando que o tiro foi acidental ou poderia ter sido disparado por outro agente. O juiz rejeitou o pedido, afirmando que ainda não é possível afastar a hipótese de dolo eventual. Também foi negado o pedido de desclassificação do crime para homicídio culposo — quando não há intenção de matar.

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O juiz manteve a qualificadora de dificultar a defesa da vítima. Segundo ele, as imagens mostram Kauê cercado por policiais e sem chance de reagir antes do disparo. Pela legislação, essa qualificadora só pode ser retirada se for considerada claramente improcedente, o que não ocorreu neste caso.

A Ponte procurou a defesa de Thiago Guerra, representada pelo advogado João Carlos Campanini, mas não obteve resposta.

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