Em cinco episódios, série “O Som que Fica”, do Caaf-Unifesp, reúne relatos e análises que reconstroem a noite de 1º de dezembro de 2019, quando policiais encurralaram participantes de um baile funk causando a morte de nove jovens

Para Maria Cristina Quirino, o som da noite de 1º de dezembro de 2019 ainda ecoa como um grito assustador: “Vai morrer, vai morrer todo mundo.” Mãe de Denys Henrique Quirino Silva, de 16 anos, uma das nove vítimas do massacre de Paraisópolis, ela conta que essas palavras — ditas por um policial — ficaram gravadas para sempre em sua memória.
“O som que ficou marcado na minha memória foi o policial gritando: ‘Vai morrer, vai morrer todo mundo’. A partir desse grito, houve um entendimento de que eles tinham a intenção de matar todos que estavam ali”, relata Cristina, hoje articuladora do movimento de familiares de vítimas. “Todos os dias eu me lembro dessa frase. Todos os dias, essa voz ecoa na minha mente.”
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Cinco anos depois da tragédia, o projeto “Os 9 que Perdemos”, do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com familiares, lança o podcast “O Som que Fica”. A série de cinco episódios busca reconstruir aquela noite e refletir sobre o que ela revela sobre violência policial e criminalização da juventude negra periférica em São Paulo. O primeiro episódio estreia nesta terça-feira (14/10).
A narrativa é conduzida pela jornalista Anne Barbosa e pela cientista social Aymê Brito. No episódio inicial, “O dia do baile”, sobreviventes e moradores relatam o que viveram durante a ação policial que terminou com nove jovens mortos no baile da DZ7. Já “Tirando um lazer” mergulha nas origens do funk e na importância dos bailes de rua para a cultura popular, com participações de DJ Marlboro, BioG3, Renata Prado e Thiagsson.
O terceiro capítulo, “Os territórios”, aborda como o espaço urbano e a busca por pertencimento levaram jovens de diferentes regiões a se reunir em Paraisópolis. Em “As operações”, a pesquisadora Desirré Azevedo analisa as políticas de segurança que permitiram a tragédia. O último episódio, “O luto e a luta”, traz as vozes de mães e familiares que seguem em busca de justiça e reparação.
Linha de continuidade
O lançamento do podcast se soma a outras iniciativas da Unifesp sobre o caso. Em 2021, o CAAF apresentou a análise “Paraisópolis: 3 atos, 9 vidas”, a pedido da Defensoria Pública e de familiares. O estudo mostrou que os nove jovens foram levados já sem vida ao hospital, após esperarem 34 minutos por socorro. Revelou ainda que a Polícia Militar liberou apenas uma ambulância para atender centenas de pessoas, obrigando os próprios policiais a transportar as vítimas até a UPA do Campo Limpo.
A pesquisa também resultou em uma série de nove vídeos no YouTube, cada um dedicado a contar a história de uma vítima e a desmontar a versão oficial da polícia, que falava em pisoteamento e resistência. As produções foram lançadas em 2021, durante um ato com familiares e entidades, e seguem disponíveis no canal do CAAF.
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Os achados desmentiram versões oficiais ao apontar que os jovens foram encurralados e que oito das nove mortes ocorreram por asfixia decorrente de sufocamento indireto. Vídeos de câmeras de segurança analisados pelo CAAF mostraram que não houve ataque contra os policiais, como chegou a ser alegado, e confirmaram o uso de bombas de gás e spray de pimenta para dispersar a multidão.
Para Desirré Azevedo, coordenadora do projeto, o podcast busca dialogar com esse acúmulo. “Ao longo desse período, tentamos entender como e por que essas vidas foram perdidas. Hoje podemos dizer que essa perda é resultado de decisões políticas do Estado de São Paulo, seja pelas políticas em segurança pública, seja pela ausência de políticas em cultura. Ambas são fruto da criminalização da juventude negra periférica. Esse podcast fala sobre isso e sobre a luta daqueles que sobrevivem, que insistem em nos dizer que essas são perdas coletivas. Por fim, é também uma homenagem à dona Graça e à dona Evanira, mães dos jovens Bruno e Eduardo, que não sobreviveram para ver a justiça, mas nos ensinaram que é preciso continuar”, afirma.