Protesto anti-Temer ocorreu sem incidentes, mas, no final, quando voltavam para casa, ativistas foram seguidos por 1,2 km e atacados com bomba de gás

Após encerrar sem incidentes uma manifestação pacífica contra o presidente Michel Temer (PMDB) na noite de ontem (10/4), manifestantes da Frente Povo Sem Medo, Movimento Palestina para Tod@s (Mop@t) e Marcha Antifascista foram perseguidos por policiais militares, que seguiram os manifestantes ao longo de 20 minutos e 1,2 quilômetro e ainda jogaram uma bomba de gás no grupo.
Batizado nas redes sociais de Rolêzinho no Jantar do Golpista, o protesto reuniu cerca de 50 pessoas diante do Clube Monte Líbano, no Jardim Luzitânia, na zona sul da cidade de São Paulo, onde o presidente foi homenageado com um jantar promovido por instituições líbano-brasileiras.

Enquanto a Frente Povo Sem Medo atacou as reformas propostas pelo presidente que considera prejudiciais aos trabalhadores, especialmente as da Previdência e da terceirização do trabalho, os palestinos miraram na aproximação do governo federal com apoiadores do governo de Israel e o uso da tecnologia de armamento israelense na repressão aos movimentos populares.
“Não existe lugar seguro neste ou em qualquer outro país para quem explora o povo. Se o presidente quer fazer um jantar, tem que convidar a PM, porque a gente vai em todos”, atacou Gabriel Simeone, coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), membro da Frente Povo Sem Medo. “Quando Israel bombardeava os palestinos, os empresários libaneses que estão aqui nesta noite diziam que era um crime, mas agora que o governo está importando tecnologia de repressão de Israel para tratar os trabalhadores brasileiros como Israel trata os palestinos, está tudo bem para eles. Não está tudo bem!”.

A manifestação começou por volta das 19h40, quando parte dos manifestantes colocou fogo em pneus na Avenida Ibirapuera, numa tentativa de tentar atrapalhar a chegada dos convidados do jantar. O bloqueio durou pouco tempo. Boa parte do fogo foi apagado por um motorista que desceu do ônibus com um extintor na mão e, quinze minutos depois, o trânsito já estava normalizado.
Os manifestantes, em seguida, se reuniram diante de uma das entradas do Clube Monte Líbano, na Rua do Gama. Uma fileira de PMs armados com cassetetes e escudos postou-se diante do protesto. Não houve incidentes. “Sou filha de italiano com cearense, então meu sangue ferve, mesmo, mas a gente não atiça os policiais. A gente está contra o governo, mas respeita os PMs porque eles também estão olhando por nós”, disse a Delmilda Zocatelli, 64 anos e três anos de MTST.

Durante uma hora, os manifestantes agitaram a bandeira palestina e cantaram palavras de ordem. Dentro do clube, o jantar prosseguiu normalmente. Temer discursou em defesa das reformas do governo e cometeu um ato falho ao dizer que, no debate sobre a lei que aprovou a terceirização ampla para os trabalhadores, “houve um diálogo entre empresários e empregadores” (na transcrição oficial, o Planalto buscou corrigir o erro, colocando “empregados” entre colchetes).

Por volta das 21h10, os manifestantes se reuniram em assembleia, fizeram discursos e decidiram ir embora. Nesse momento, veio a surpresa. Enquanto os manifestantes voltavam para casa, andando pela calçada da Avenida Ibirapuera, começaram a ser seguidos pelos policiais militares que até então guardavam o jantar do presidente. “Eles vão escoltar a gente?”, um manifestante brincou.

Conforme os manifestantes andavam, a situação ia passando de inusitada a inquietante. Sem nenhuma motivação clara, os PMs tomaram a iniciativa de fechar a Ibirapuera no sentido centro. Alinharam quatro viaturas de polícia, uma ao lado da outra, sobre três faixas da avenida, e montaram um cordão com policiais segurando armas e escudos. Os motoristas que estavam atrás da PM buzinaram. Aproveitando a “cortesia” do fechamento da trânsito, os manifestantes passaram a andar pela avenida, alguns agitando bandeiras diante dos policiais.

Durante cerca de 20 minutos, os policiais seguiram os manifestantes que voltavam a pé ao longo de uma quadra da avenida República do Líbano e seis quadras da avenida Ibirapuera. Nos últimos minutos, quando a PM já havia liberado as outras duas faixas da avenida e os manifestantes já caminhavam pela calçada, a PM jogou uma bomba de gás na direção do grupo.
“A intenção dos policiais era encurralar a gente e bater em todo mundo. Só não fizeram isso porque tinha imprensa filmando”, comentou outro manifestante.
Outro lado
A respeito das ações da PM, a Ponte enviou as seguintes perguntas para a CDN Comunicação, responsável pela assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública do governo Geraldo Alckmin (PSDB):
1) Por que a PM acompanhou os manifestantes que voltavam para casa, após o encerramento de um ato pacífico, ao longo de 1,2 quilômetro?
2) Por que a PM fechou a Av. Ibirapuera?
3) Por que a PM jogou uma bomba de gás nos manifestantes e jornalistas que estavam ali?
Atualizado em 12/4, às 0h20 – A assessoria respondeu com a seguinte nota:
A PM informa que o acompanhamento é realizado para garantir a segurança dos manifestantes e, porventura, do patrimônio público e privado nesse trajeto. Não há registro de uso de nenhuma ação para a dispersão do protesto.


