Geógrafa e ativista estadunidense, que veio ao Brasil para lançar seu livro Geografia da Abolição, fala à Ponte sobre como o racismo se tornou, mais do que ideologia, um fundamento da sociedade capitalista neoliberal
Lançado no final de junho no país, Geografia da Abolição: Ensaios rumo à libertação (Boitempo, 2025), da geógrafa e ativista estadunidense Ruth Wilson Gilmore situa o racismo não apenas como ideologia, mas como fundamento próprio da sociedade capitalista. Frutos de três décadas de pesquisa, os ensaios reunidos no livro revelam como as políticas de encarceramento em massa — levadas a cabo nos Estados Unidos e prontamente imitadas no Brasil — tornaram-se uma forma imprescindível ao neoliberalismo para administrar sua própria crise geradora de miséria e exclusão social.
Nesse sentido, como explica em seu prefácio à obra a escritora brasileira Juliana Borges, autora de Prisões: Espelhos de nós (Todavia, 2020) e Encarceramento em Massa (Pólen Livros, 2019), “o cárcere torna-se forma de gestão de excedente humano, desemprego, crise habitacional, falência de políticas públicas e marginalização racializada”. Por esse ponto de vista, complementa a também consultora do Núcleo de Enfrentamento, Monitoramento e Memória de Combate à Violência da OAB-SP e conselheira da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, “o Estado penal é um operador de contenção, um intensificador da expropriação e da negação de direitos”.
Leia também: Patricia Hill Collins, esperança para tempos de guerra
Expoente, ao lado do criminologista holandês Louk Hulsman, do chamado “abolicionismo penal”, Ruth Gilmore encara o sistema prisional não como solução para o crime, mas como problema em si mesmo, que reproduz desigualdades e não ataca as reais causas da criminalidade. O movimento busca alternativas à prisão baseadas na ideia de pertencimento, em centros comunitários para a integração das pessoas, e na justiça social, mediando conflitos e lançando mão da justiça restaurativa — que tem foco na responsabilização do ofensor por seus atos, reparando os danos causados à vítima e à comunidade.
Em entrevista exclusiva à Ponte [veja vídeo], a diretora do Center for Place, Culture, and Politics e professora no Departamento de Earth and Environmental Sciences no centro de pós-graduação da CUNY [Center University of New York] explicou sua ideia de liberdade enquanto lugar. “Pode ser um pouco surpreendente saber que esse conceito de liberdade como lugar não está particularmente associado à Geografia como disciplina. Mas, sim, do fato de que estamos constantemente lutando para realizar a liberdade ou a emancipação de formas imateriais, conceituais e simbólicas”, diz a ativista. “Ao transformar nossas relações uns com os outros e com o ambiente que construímos, com a natureza, os recursos, estamos refazendo o lugar onde vivemos.”
Um edifício chamado prisão
Mas como, num momento em que a preocupação com a segurança pública ganha protagonismo eleitoral inédito no país, e num contexto de medo e insegurança crescentes nas grandes cidades, um projeto anti-prisional pode se viabilizar na prática? “A abolição“, explica Gilmore, “não é simplesmente dizer ‘vamos derrubar aquele prédio chamado prisão‘ e fingir que todos os problemas que ele supostamente deveria resolver desapareceram.” Para a professora, o ponto é superar a ideia de punição generalizada como solução: “A diferença entre crime e dano é onde realmente precisamos chegar.”
Além de sua trajetória acadêmica, Gilmore esteve envolvida na fundação de muitas organizações sociais de base abolicionistas, incluindo a “Critical Resistance” (juntamente com Angela Davis), a “California Prison Moratorium Project” e a “Central California Environmental Justice Network”. Também esteve presente no início das mobilizações do movimento abolicionista de mães do sul de Los Angeles (o Mothers ROC – Mothers Reclaiming Our Children). Ela também é autora de Califórnia Gulag: prisões, crise do capitalismo e abolicionismo penal, publicado no Brasil pela editora Igrá Kniga. Pelo seu trabalho, ela recebeu o prêmio Lifetime Achievement 2020 da American Association of Geographers, a associação americana de geógrafos.
Para a autora de Geografia da Abolição, antes de mais nada é preciso lembrar o óbvio: “Usar violência em resposta à violência geralmente não produz uma ausência de violência. A segunda é que, onde a desigualdade é mais profunda, prisões e policiamento são mais prevalentes: aqui no Brasil, na África do Sul ou nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo.”
Leia também: Encarceramento em massa na Amazônia legal fortaleceu crime organizado, aponta FBSP
A segurança no topo das preocupações das pessoas, às vezes mais do que a saúde ou o emprego, não surpreende Gilmore. “É o mesmo processo por que passamos nos EUA dos anos 1980, quando a situação nas cidades estava terrível, devido a diversas questões, como a desindustrialização, e as pessoas queriam se tornar duas coisas: policiais ou donos de agências funerárias. São momentos em que as pessoas se sentem sem opções”, afirma Gilmore.
“É uma expressão profunda do que eu chamo de ‘abandono organizado’: o capital se retira, o Estado abandona a ideia de bem-estar social e coloca mais e mais recursos na polícia.” Inverter essa lógica perversa, defende Ruth Gilmore, é urgente.