Ponte Explica | Para onde vão os policiais presos?

    Saiba onde agentes de segurança como o PM Kaio Lopes Raimundo, que matou um homem e baleou seu filho de 9 anos numa briga de trânsito no domingo (27/7), cumprem prisão temporária, preventiva ou por execução de pena

    Fachada do Presídio Romão Gomes | Foto: Reprodução/Google Maps

    Kaio Lopes Raimundo, de 32 anos, está no Presídio Militar Romão Gomes, também conhecido como Barro Branco, após matar Clayton Juliano da Silva, de 38 anos, e balear uma criança de nove anos, na cidade de Mauá no último domingo (24), em uma briga de trânsito. Na prisão, o policial militar terá a companhia de colegas de farda. A penitenciária para qual foi levado recebe exclusivamente PMs do estado de São Paulo condenados pela justiça comum ou militar ou que ainda estão à espera do julgamento.

    Não são apenas os militares paulistas que têm uma casa de custódia só para eles. Policiais civis também são levados a um local exclusivo quando presos. Especialistas concordam que seria um risco colocar agentes da segurança pública junto com o restante da população carcerária. Porém, além de não viverem no mesmo ambiente e sofrerem as mesmas mazelas dos demais presos, os responsáveis por esses policiais presos também fazem parte da polícia.

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    O Presídio Militar Romão Gomes, localizado no bairro da Vila Albertina, na zona norte da capital paulista, foi inaugurado em 1957. Durante a ditadura militar brasileira também serviu de cárcere e local de tortura de presos políticos. 

    Em junho de 2025, 229 policiais, sendo 227 homens e apenas duas mulheres, ocupavam as celas do presídio — que recebe policiais sentenciados ou que estão em prisão preventiva ou temporária.

    Os policiais civis em dívida com a Justiça cumprem  pena em um presídio especial para corporação localizado também na zona norte de São Paulo. O prédio de dois andares contava, em fevereiro deste ano, com 91 detentos, sendo 69 no regime fechado e 22 no semiaberto.

    Quem guarda os guardas

    Em 2025, dois episódios evidenciaram que, mesmo com uma população carcerária pequena, os presídios que abrigam policiais têm falhas e estão expostos a esquema de corrupção entre os detentos e seus carcereiros. Em fevereiro deste ano, o  governo de São Paulo anunciou que iria desativar o presídio da Polícia Civil e transferir os detentos para um presídio da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), localizado em São Miguel Paulista, na zona leste da capital.

    A posição do executivo estadual se deu após uma vistoria onde foram encontrados 23 telefones celulares, diversos carregadores e mais de R$ 21 mil em dinheiro — além de cerveja, maconha e cocaína dentro do centro de detenção. 

    O Romão Gomes foi palco de um episódio semelhante em junho deste ano. Quatro policiais que trabalhavam no presídio foram acusados de extorquir propina em troca de permitir a entrada de celulares, substâncias ilícitas e anabolizantes na unidade prisional.

    A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo afirmou à época que a prisão dos policiais visava desmantelar completamente a rede de corrupção dentro da instituição penitenciária. O detalhe é que os agentes acusados por esses crimes ficaram presos no mesmo local onde trabalhavam e os teriam cometido.

    Risco à integridade

    “Nosso sistema penitenciário é muito complexo. Então, se colocarmos os policiais presos em presídios comuns, isso poderia causar um grande risco à integridade física deles”, argumenta o advogado criminal Matheus Deneno, especializado na defesa de policiais civis.

    A opinião é compartilhada pelo também advogado criminal Flávio Campos. Filho de um ex-policial militar, ele lembra que esse tema lhe assombrava dentro de casa. “Caso meu pai infringisse alguma lei e fosse, ele não poderia ir para um lugar onde estava as pessoas que ele ajudou a prender. Seria um risco para todo mundo”, explica.

    Deneno ressalta que mesmo sendo cadeias administradas pelas corregedoria das polícias, o funcionamento delas é igual ao de qualquer presídio, tendo diretores, carcereiros e diferentes agentes para a segurança do local e dos presos. O advogado acredita que, assim como qualquer pessoa que está cumprindo pena no Brasil, a ressocialização dos policiais enfrenta uma série de barreiras.

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    “Quando falamos de servidores públicos, principalmente policiais, eles são punidos duplamente. Em caso de uma demissão a bem dos serviços públicos, que é uma demissão agravada, quanto uma pena privativa de liberdade pelo bom juiz, que é a demissão a bem dos serviços públicos. Isso impede ele de concorrer a qualquer outro cargo público. Quando esse policial muitas vezes ficou na corporação 20, 30 anos, é muito complicado ele sair e conseguir um outro emprego”, complementa o advogado criminal.

    Flávio Campos argumenta que a hierarquização que existe dentro da polícia existe até mesmo quando um policial vai parar atrás das grades. “O policial está dentro de uma instituição que tem um pacto institucional e um corporativismo. Alguns militares acabam tendo privilégios, porque se você é oficial dentro dessas instituições você acaba ali ostentando, de certa forma, alguma posição institucional, mesmo sendo um presidiário”, conclui

    O que dizem as autoridades

    A Ponte entrou em contato com as assessorias da Polícia Militar e da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) para ouvir seu posicionamento sobre as condições dos presídios policiais, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

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