Manifestantes contestam versão da polícia e citam aumento recorde da letalidade da PM-PR desde o início da gestão Ratinho Júnior (PSD). Ponte divulgou na terça-feira (7/10) vídeo que mostra Yago já baleado, sendo arrastado por um policial

Familiares, moradores e movimentos sociais reuniram-se na noite desta quarta-feira (15/10) na Boca Maldita — ponto de encontro de debates e manifestações na rua 15 de Novembro, no centro de Curitiba (PR) — para cobrar justiça pela morte de Yago Gabriel Pires de Oliveira, de 20 anos, assassinado por policiais militares no bairro Parolin, no último dia 7 de outubro.
Cartazes com frases como “Parolin pede paz” e “Parem de nos matar” marcaram o ato, em que manifestantes contestaram a versão oficial da Polícia Militar e denunciaram a escalada da violência policial no Paraná, sob a gestão Ratinho Junior (PSD).
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O protesto foi convocado pela Rede Nenhuma Vida a Menos, coletivo que desde 2019 acompanha casos de violência do Estado em Curitiba e apoia famílias de vítimas da polícia. O deputado estadual Renato Freitas (PT) também esteve presente e prestou apoio aos familiares.
A repercussão do caso cresceu após a divulgação de imagens mostrando Yago ainda vivo, ensanguentado e pedindo para não ser morto, enquanto era arrastado por um policial até o galpão de recicláveis onde trabalhava com a avó.

‘Uma coisa inaceitável’
A Ponte apurou que, após o registro, o jovem teria sido executado no local. Yago dormia em casa, ao lado do irmão de nove anos, quando policiais invadiram a residência e o levaram à força.
“Isso [a morte do Yago] é uma coisa inaceitável. Quanto mais protestos tiver, mais pessoas falando, é melhor para a gente ser ouvido por alguém. A Polícia Civil parece que está querendo abafar o caso, porque estava junto [com a PM-PR na ocasião em que o jovem foi morto]”, disse um familiar da vítima à reportagem. Até agora, ninguém da família foi ouvido pela Polícia Civil.
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A Polícia Militar sustenta que houve confronto e que Yago teria reagido à abordagem, versão desmentida por moradores e pelos vídeos. Nenhum policial foi ferido. Procurada pela reportagem da Ponte na época dos fatos, a assessoria da PM encaminhou um vídeo de entrevista do coronel Marcelo Roke Fávero, comandante do 1º Comando Regional da corporação. Na fala, o oficial afirma que o policial que aparece arrastando Yago ensanguentado tentava, na verdade, “salvar a vida” dele.
Segundo a versão apresentada, os agentes cumpriam mandados quando foram confrontados por Yago, que estaria armado com uma pistola. O coronel afirmou que houve troca de tiros e que o policial o arrastou para impedir que ele pegasse a arma entre as latas e, ao mesmo tempo, tentar socorrê-lo.
Violência recorrente no Parolin
No Parolin, moradores contam que a execução de Yago não foi um episódio isolado. Desde maio, ao menos cinco jovens foram mortos em circunstâncias semelhantes, incluindo um adolescente de 16 anos.
Em setembro, a comunidade já havia organizado uma passeata pela paz e enviado ofício ao Ministério Público do Paraná (MP-PR) pedindo providências, mas não obteve retorno efetivo.
Moradores relatam, ainda, intimidações constantes após as operações policiais. Viaturas circulam em frente às casas e locais de trabalho de familiares de vítimas, e há denúncias de ameaças para que não denunciem abusos. No caso de Yago, a Ponte apurou que houve denúncia de que os policiais levaram dinheiro e celulares da família, além de moedas guardadas por uma das crianças em um cofre.
Letalidade em alta no estado
Os casos também refletem um cenário mais amplo no Paraná. Levantamento da Ponte, com base em dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que, desde o início do governo Ratinho Júnior, a letalidade da PM-PR alcançou níveis recordes: média de 370 mortes por ano — quase o dobro da registrada antes de sua gestão. A maior parte das vítimas é jovem e negra, em um estado cuja população é majoritariamente branca.
