O empresário Jhonnatan Silva Barbosa responde por tentativa de homicídio contra Gabriel da Silva Nascimento — a quem acusou de tentar furtar o próprio carro em 2021. Caso ocorreu em Açailândia (MA) e agressor pediu mais tempo para defesa

A Justiça do Maranhão decidiu adiar para 3 de junho o Tribunal do Júri que irá julgar Jhonnatan Silva Barbosa, empresário de 35 anos que responde por tentativa de homicídio qualificado contra Gabriel da Silva Nascimento, um jovem negro de 26 anos. O réu agrediu a vítima ao acusá-la de tentar furtar um carro que pertencia a ela própria, em episódio ocorrido em Açailândia, no interior do Maranhão, em 18 de dezembro de 2021. O agressor pediu maior tempo hábil para elaborar sua defesa.
O júri estava previsto para esta quarta-feira (2/4), conforme noticiou a Ponte na semana passada. Já na última sexta (28/3), após ter constituído um novo advogado no caso, Jhonnatan pediu o adiamento do julgamento, sob a alegação de que só assim teria seu direito de ampla defesa contemplado. O Ministério Públicou do Maranhão (MP-MA), à frente da acusação, não manifestou contrariedade ao pedido.
O advogado anterior do réu havia renunciado ao caso em novembro de 2023, logo após Jhonnatan ter sido pronunciado — ou seja, a Justiça ter decidido que ele iria a júri popular. Desde então, a defesa dele foi repassada à Defensoria Pública. Só na última semana, ele decidiu nomear um novo advogado.
“É incontroverso que o acusado era representado pela Defensoria Pública e que a defesa técnica foi recentemente constituída, conforme narrado na petição, o que corrobora a necessidade de tempo razoável para estudo dos autos, os quais, segundo alega, são extensos e compostos por elementos probatórios diversos”, escreveu o juiz Nelson Luiz Dias Dourado Araújo ao acatar o pedido.
O agressor também pediu ao magistrado que o processo passasse a correr sob sigilo, sob o argumento de que tem sofrido “inúmeras ameaças” e de que a privacidade do caso garantiria a sua segurança. Esse pedido acabou, no entanto, negado pelo juiz. Segundo o magistrado, a alegação do réu era genérica e não veio acompanhada de qualquer prova que sustentasse esse suposto risco ao qual está submetido.
Agressão sob falsa acusação de furto
Jhonnatan responde por tentativa de homicídio por motivo torpe, com emprego de asfixia e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. Na manhã em que quase foi morto, Gabriel se preparava para uma viagem, na qual participaria de uma confraternização do banco onde trabalhava como recepcionista.
Por volta das 6h20 daquele dia, Gabriel desceu à rua com ferramentas em mãos para fazer uma última checagem da refrigeração de seu carro, um Chevrolet Agile que havia comprado há dois meses. Chegaram então à rua Jhonnatan, um empresário local, e a esposa, a dentista Ana Paula Costa Vidal, a bordo de uma BMW, ocasião em que desembarcaram e foram a pé logo em direção ao jovem negro.
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Questionado pelo casal sobre o que fazia ali, Gabriel disse que vistoriava o próprio carro para viajar. O agressor contestou a resposta e ordenou que descesse, já o acusando de furto. O dono do veículo negou a acusação por mais de uma vez, mas atendeu ao pedido, saindo com as mãos para cima, com a preocupação de deixar evidente que não oferecia risco algum. Foi então que começaram as agressões por parte de Jhonnatan e também de Ana Paula, sem que a vítima revidasse.
Gabriel foi jogado no chão por mais de uma vez e encurralado contra um muro. Ele levou socos, tapas, chutes e pisões. Jhonnatan pisou por três vezes no pescoço da vítima para asfixiá-la e também lhe aplicou um mata-leão na tentativa de matá-la, segundo descreve a denúncia oferecida pelo MP-MA.
A mulher de Jhonnatan, Ana Paula, também pressionou o pescoço do jovem negro com as mãos e atiçava o marido: “Não deixa ele escapar.” As agressões só cessaram após um vizinho, Marcos Wessley Vieira de Oliveira, correr ao local e interceder pelo homem agredido, repetindo por várias vezes que ele era morador de um prédio naquela rua e dono do Chevrolet Agile.

Vítima denuncia racismo dos agressores
Em conversa anterior com a Ponte, Gabriel afirmou ser evidente a dimensão racista do caso — a mãe da agressora chegou a pedir a ele, diz a vítima, que não atribuísse à filha o crime de racismo.
“Eles fizeram uma avaliação por conta própria e um julgamento, foram um juiz naquela hora. Fizeram uma avaliação pelas minhas vestes, pela minha cor”, contou. “Aliás, não foi nem um julgamento, porque em um julgamento você pode se explicar, que foi a primeira coisa que tentei fazer. A chave estava na ignição, eu estava com os documentos do carro.”
A vítima também disse confiar que haja justiça no caso, como uma forma de combater essa ideia de “justiçamento” — a suposta justiça com as próprias mãos que ignora direitos como o de ampla defesa e contraditório, dos quais Jhonnatan usufrui hoje.
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“Fiz todo o procedimento legal para haver a prisão do infrator, e não ocorreu isso. A todo momento, ele responde em liberdade, o que é um direito dele, até que se prove [a culpa]. Por isso, as pessoas colocam isso no coração, porque a gente não vê o processo correr como deveria. O caso foi em 2021, e precisamos esperar até 2025 para ter um julgamento”, lamentou Gabriel.
“E ainda se corre o risco de o júri sentenciar a inocência, o que a gente espera que não ocorra, para ele não se promover acima da lei e seguir fazendo isso. Tem que ocorrer a punição correta”, pediu. “Eu acredito na justiça, tanto que, desde o início, sigo o processo legal correto. E espero que, no dia do julgamento, essa pessoa seja punida na medida da sua culpa.”
Réu responde em liberdade desde 2021
À Justiça, Jhonnatan e Ana Paula negaram os crimes imputados a si e alegaram que tentaram conter Gabriel enquanto buscavam a polícia. Uma câmera de segurança registrou, no entanto, toda a dinâmica das agressões. Além disso, o caso chegou à Polícia Civil apenas por iniciativa da vítima, que foi quem registrou um boletim de ocorrência — ele só conseguiu fazer isso e também realizar o exame de corpo de delito no dia seguinte ao ocorrido, já que, no sábado em que houve a tentativa de assassinato, uma “falha no sistema” da delegacia impedia o registro, segundo afirmaram os policiais.
Os agressores não foram presos em flagrante. Jhonnatan responde até hoje em liberdade. Já Ana Paula, que a princípio poderia ser levada a júri também por tentativa de homicídio, teve sua conduta desclassificada pela juíza Selecina Henrique Locatelli, com anuência do MP-MA: ou seja, a Justiça deixou de ver a eventual ocorrência de crime contra a vida, o que colocaria a ré diante de um Tribunal do Júri, e fez a agressora responder apenas por lesão corporal.
À Ponte, o advogado recém-constituído por Jhonnatan afirmou que a conduta dele também não pode ser classificada como tentativa de homicídio: “A defesa assegura que o acusado não tentou matar a vítima Gabriel da Silva Nascimento, tampouco os fatos se deram em razão de qualquer cunho racista”, escreveu, em curto posicionamento. A reportagem não conseguiu contato com Ana Paula. O espaço segue aberto caso ela queira se manifestar.
Agressor foi condenado por matar pessoa atropelada
Jhonnatan já havia sido condenado por um outro caso em 2019, por ter matado uma pessoa ao atropelá-la em 2013. Na ocasião, ele dirigia após voltar de um aniversário — sem ter carteira de habilitação. Ele não prestou socorro à vítima, sob a alegação de ter tido medo de sofrer retaliação de pessoas que se aglomeravam no local do acidente. Testemunhas relataram, no entanto, que poucos moradores se aproximaram do local, sem que ninguém estivesse com os ânimos exaltados.
A sentença no caso impunha uma multa e uma pena restritiva de direitos na modalidade prestação pecuniária, uma alternativa à prisão. O caso transitou em julgado em 2023.