Alex dos Santos Silva, de 29 anos, passou o domingo no trabalho na zona sul de SP, como mostra câmera de segurança, e ia voltar à oficina para um churrasco com colegas no fim do expediente. Esposa diz que PM plantou arma na cena

A Polícia Militar paulista (PM-SP) matou a tiros no último domingo (24/8) um homem negro de 29 anos quando ele trafegava de carro por uma avenida no Jardim Novo Horizonte, bairro da zona sul de São Paulo, por volta das 20h30. Alex dos Santos Silva havia acabado de sair de um posto de combustíveis, onde parou para abastecer antes de ir a um churrasco na oficina mecânica em que trabalhava, quando passou a ser perseguido por uma viatura das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) até ser baleado.
Estavam na viatura os policiais militares Fernando Felix, Ezequiel Scaffman Mota, Luis Fernando Santos Correia e Mario Di Cicco Filho. Eles teriam passado a perseguir Alex por entenderem que o Chevrolet Corsa conduzido por ele “trafegava em atitude suspeita” — conforme dois colegas de Rota dos envolvidos, os PMs Eduardo Gomes da Silva Guazzelli e Anderson Augusto de Oliveira, que não estavam na ocasião do assassinato, declararam à Polícia Civil em uma primeira versão do boletim de ocorrência.
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Um vídeo obtido pela Ponte mostra que a viatura da Rota trafegava na Avenida Paulo Guilguer Reimberg no sentido oposto ao de Alex até ter passado por ele. O mecânico havia recém-saído do posto com os faróis do carro apagados. Logo ao se depararem com a infração de trânsito, os policiais mudaram a direção e passaram a seguir a vítima.
O homem negro foi baleado na altura do número 2900 da avenida, onde ela é cercada de ambos os lados por terrenos baldios — ou seja, não há câmeras naquele trecho.
Os policiais atiraram contra Alex ainda de dentro da viatura. Mario disparou uma vez com um fuzil, Ezequiel deu dois tiros com uma Glock calibre 40 e Luis, que portava uma pistola semelhante, disparou uma última vez. O mecânico foi atingido duas vezes, uma no tórax e outra no braço esquerdo. Ele foi levado pelo Corpo de Bombeiros ao Pronto-Socorro Municipal (PSM) Balneário São José, a dez minutos de carro do local do assassinato, só depois das 22h — quando deu entrada, já estava morto.

‘Nem arma ele tem, não anda com droga’
Alex havia passado o domingo em que foi morto trabalhando, o que é possível confirmar a partir das imagens de uma câmera de segurança da oficina de motos em que atuava. Por volta das 18h, quando deixou o local de bermuda e chinelos, ele foi até a casa da mãe para tomar um banho. De lá, retornaria para uma confraternização no local de trabalho.
No B.O. comunicado pelos colegas de Rota dos atiradores, consta que Alex “demonstrava visível nervosismo” ao dirigir. Os PMs narram ainda que, quando os envolvidos emparelharam a viatura com o carro do mecânico, ele teria apontado a eles um revólver, o que os fez “repelir a iminente agressão”. Alegaram também que a vítima teria uma mochila aparentemente contendo maconha dentro do carro, sem saberem dizer a quantidade, “tampouco se se tratava de tijolos ou porções fracionadas”.
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Para a esposa de Alex, Eliana Souza, a versão da PM é fantasiosa. “Nem arma ele tem. Ele não anda com droga dentro do carro, porque eu e o filho dele [de quatro anos] andamos dentro do carro, e ele não faz essas coisas. Os policiais alegaram que ele ia trocar tiro. Como que ele vai trocar tiro com a Rota sozinho dentro de um carro? Não tem cabimento isso”, diz. “Eles são tão covardes que esperaram chegar em um local onde não tem câmeras, que não tem jeito de saber o que aconteceu, para poder livrar a cara deles.”
Família diz que Polícia Civil não localizou inquérito
Ao longo da semana, enquanto precisava lidar com o luto, Eliana ainda teve que circular entre órgãos da Polícia Civil para buscar esclarecimentos do caso. Na sede do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), na região central de São Paulo, acabou informada, contudo, de que, pelo nome da vítima e o número do B.O. já registrado, não é possível encontrar qualquer inquérito aberto.
Foi orientada então a buscar o número CNJ do caso, uma numeração padrozinada feita para facilitar o acesso a processos, no 101º Distrito Policial, no Jardim das Imbuias, na zona sul da capital, onde o boletim havia sido feito. No local, lhe foi dito que não existe tal número e que deveria, na verdade, buscar orientação no 85° Distrito Policial, no Jardim Myrna, também no sul de São Paulo. “Eles estão assim, um jogando para o outro, e não tem inquérito aberto”, lamenta a mulher agora viúva de Alex.
A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP) sobre as circunstâncias do episódio, o andamento das eventuais investigações e se algum envolvido foi afastado do trabalho operacional, mas não obteve retorno até esta publicação. Se houver, o texto será atualizado.