Alex Gabriel, de 16 anos, achou um celular em Pontal (SP) e devolveu o aparelho ao dono horas depois. Agressor o acusou de furto ainda assim e, junto de comparsas, torturou o jovem, segundo o MP-SP, com arame farpado, pauladas e brasa

Evilene Pereira dos Santos, de 37 anos, diz ainda tentar entender o que passou pela cabeça dos agressores que tiraram a vida do filho, Alex Gabriel dos Santos Rial, um adolescente negro de 16 anos. Conforme denunciou o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), o jovem foi torturado até a morte por quatro homens em 1º de junho, na pequena cidade de Pontal (SP), horas depois de ter pego um celular que encontrou em um estabelecimento comercial. Consta na denúncia, à qual a Ponte teve acesso, que ele devolveu o aparelho, mas isso não evitou que o dono o acusasse de furto e buscasse vingança.
“Eu não entendo, não entendo. Não entendo se já queriam fazer maldade com alguém, e então apareceu o meu filho, não consigo entender. Eu já tentei, já pensei várias vezes: meu Deus, matar uma pessoa por causa de um celular? Sinceramente, eu não consigo entender”, diz Evilene.
Leia também: Artigo | Linchamentos modernos: como o racismo autoriza mortes públicas no Brasil
Conforme o MP-SP, no início da madrugada em que foi morto, Alex Gabriel havia ido a um depósito de bebidas da cidade, onde encontrou um celular deixado sobre um balcão. Ele mostrou o item para uma funcionária do local, Eduarda Miranda do Amaral, que já conhecia por ter trabalhado informalmente no estabelecimento, e o levou consigo para casa. Pouco depois, o proprietário do aparelho, João Guilherme Moreira, de 27 anos, apareceu no depósito para tentar recuperá-lo após dar pela falta dele.
Eduarda teria dito a João Guilherme que uma outra pessoa havia levado o celular e o acompanhou de carro até a casa de Alex Gabriel. No local, o adolescente negro recebeu os dois e, prontamente, devolveu o item. A essa altura, ele já havia formatado o aparelho, para apagar contatos e aplicativos. O proprietário ordenou então que o jovem entrasse no carro, supostamente para que conversassem. Dali, ele teria sido levado para uma sessão de tortura em um terreno em Pontal onde o agressor criava cavalos.
Tortura com madeira e chicote
Para o MP-SP, João Guilherme teve a ajuda de outros três homens que o aguardavam no terreno: Alex Sander Benedito Ferreira, de 23 anos, Jean Carlos Nadoly, de 28, e Uanderson dos Santos Dias, de 19. Todos eles teriam agredido Alex Gabriel com chutes e socos, ferindo-o também com um pedaço de madeira e um chicote. Eduarda, que assistia a tudo, teria acusado o adolescente em meio às agressões de supostamente também já ter furtado uma bicicleta, em incentivo aos agressores. O dono do celular fez então, ainda conforme narra a denúncia, Alex Gabriel se ajoelhar sobre as brasas de uma fogueira.
Depois disso, João Guilherme saiu brevemente do local para levar Eduarda embora. De volta ao terreno, ele e os outros agressores amarraram os pés e as mãos do adolescente negro com uma corda e arame farpado. Com a vítima já morta, colocaram um saco plástico na cabeça dela e tijolos junto às roupas. Em seguida, segundo o MP-SP, jogaram o corpo do jovem no rio Pardo, que atravessa Pontal. Ele só foi encontrado seis dias depois, enquanto a família mantinha a esperança de que pudesse estar vivo.
Leia também: Jovem negro acusado de furtar o próprio carro pede justiça contra ‘justiçamento’: ‘Lei é para seguir’
“É uma coisa que ninguém espera que aconteça na família da gente. Na verdade, a gente não espera que aconteça com ninguém. E, quando acontece com a gente, é uma coisa que tira completamente a nossa estrutura, tira o chão da gente”, diz a mãe de Alex Gabriel. “Pegar um celular e formatar não é motivo para matar uma pessoa. Não existe motivo para uma pessoa tirar a vida da outra, não existe.”
Mãe diz esperar por justiça
O MP-SP denunciou os cinco envolvidos por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, emprego de asfixia e tortura, mediante recurso que dificultou a defesa da vítima), incluindo Eduarda — a princípio, ela foi tratada pela investigação policial apenas como testemunha do caso, o que foi alvo de protesto da família de Alex Gabriel. Jean Carlos, João Guilherme e Uanderson ainda terão de responder por ocultação de cadáver. Os quatro homens estão presos preventivamente, enquanto a mulher foi submetida a medidas cautelares diversas da prisão, por ter colaborado com a apuração do episódio.
Evilene diz que, passado um mês do caso, tem evitado as redes sociais, apesar de ter recebido mais mensagens de apoio até aqui, por conta de vídeos dos depoimentos dos agressores que passaram a circular. Ela também retomou o trabalho, mas com a sensação de que falta algo: “Tive que voltar porque, infelizmente, não dá para continuar parada. É complicado você seguir a vida sem uma parte sua. Está sendo bem difícil, mas, com a força de Deus e das pessoas, eu estou seguindo. Tenho que seguir”.
“Meu filho amava jogar bola. Tinha planos que estavam amadurecendo, sempre comentava comigo que, quando fosse maior de idade, iria comprar uma moto, porque ele era apaixonado com moto. É lógico que, de vez em quando, ele me dava alguma dor de cabeça, como é com todo filho. Mas ele nunca foi um filho de responder. Eu falava, e ele abaixava a cabeça. Sempre foi muito presente. E eu não posso nem falar, né, porque sou mãe, e, como se diz, para mãe, não existe filho imperfeito. Ele era uma benção”.
Ela afirma esperar agora que ao menos os agressores sejam responsabilizados dentro da lei: “A gente espera que a justiça seja feita. A gente pede para Deus para que eles paguem pelo que fizeram”.
A Ponte não conseguiu identificar as defesas dos cinco réus no caso. O espaço permanece aberto para caso queiram se manifestar. O processo judicial tramita sob segredo de Justiça.