Vídeo: CDHU destrói casa com moradores dentro na favela do Moinho

    Morador diz que esposa quase foi atingida pelo telhado nesta terça-feira (4/11). Justiça autorizou governo Tarcísio a retomar demolições semana passada. Lula segue em silêncio sobre derrubada de casas, mesmo com a favela ainda ocupada

    A Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) derrubou parte de uma casa ainda ocupada na favela do Moinho, na região central de São Paulo, nesta terça-feira (4/11). Em um vídeo, um morador do local mostrou os fundos do imóvel em destroços e relatou que a esposa quase foi atingida por uma parte do telhado, que cedeu após uma parede ter sido destruída.

    Em um outro registro, o morador filmou trabalhadores da CDHU que atuam na favela com uma retroescavadeira. “Olha a cara dos elementos aí, [olha] o que estão fazendo conosco. E aí nós é que somos os bandidos da favela, nós é que não prestamos, entendeu?”, desabafou. Além da moradia, ele teve móveis e uma televisão danificados por conta da derrubada da estrutura.

    Leia também: Famílias que seguem no Moinho temem expulsão por Tarcísio sem reparação e cobram Lula

    A Ponte questionou a CDHU, sob ordens do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), sobre por qual razão a casa foi derrubada e onde irá agora alocar os moradores prejudicados. Não houve retorno ao menos até a publicação desta reportagem. Se houver, o texto será atualizado.

    A CDHU retomou as demolições na favela do Moinho na segunda-feira da semana passada (27/10), autorizada pela Justiça Federal. A Defensoria Pública da União e também a do estado de São Paulo pediam que isso fosse feito somente após a desocupação total da comunidade, o que não foi acatado. Foi concedida apenas uma interrupção de dez dias nas demolições, para retirada do entulho que se acumulava no local e que fazia proliferar ratos e escorpiões entre casas ainda ocupadas.

    Teto cedeu após atuação da CDHU com maquinário em estrutura vizinha | Foto: Reprodução

    Moradores já alertavam risco contra casas ocupadas

    Desde o início do processo de reassentamento da favela do Moinho, os moradores pediam que a derrubada das casas ocorresse apenas após a comunidade ser esvaziada, justamente devido ao medo de que imóveis ainda ocupados ruíssem caso paredes vizinhas fossem demolidas.

    Em contato com a Ponte há duas semanas, a CDHU alegou que “as demolições são realizadas observando todos os critérios técnicos para impedir danos a imóveis ainda ocupados”.

    À época, a reportagem questionou também o governo Lula (PT), por meio do Ministério das Cidades e do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, se concordava com as demolições mesmo sem a plena desocupação da comunidade — o terreno onde está a favela pertence à União. Nunca houve retorno aos pedidos de manifestação. A Ponte voltou a solicitar agora um posicionamento.

    Famílias que seguem na comunidade não tiveram acordo cumprido

    A favela do Moinho passa por um processo de reassentamento iniciado pela CDHU em setembro do ano passado. Os moradores começaram a deixar a favela em abril de 2025, pressionados pela violência policial no local. Naquele mesmo mês, tiveram início os protestos contra a remoção das famílias sem uma reparação. As manifestações de maior projeção ocorreram em maio, ocasião que a PM-SP montou um cerco à comunidade para apoiar a CDHU em demolições de casas.

    Ainda permanecem no Moinho cerca de 300 famílias, muitas delas de mãos atadas: elas não têm para onde se mudar, ao mesmo tempo em que a CDHU tem feito da comunidade um espaço cada vez mais hostil. Conforme mostrou a Ponte, os destroços tornaram o local um aparente cenário de guerra.

    Leia também: ‘Você luta a vida inteira e querem tomar da gente’: demolições forçam saída do Moinho sem moradias prometidas

    A Ponte identificou diversos casos de moradores que têm tido negado o direito a uma nova moradia gratuita, o que os governos Lula e Tarcísio haviam prometido em maio para que fosse feita a desocupação da comunidade. Há relatos de abandono inclusive pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo (DPESP), que deveria zelar pelos interesses das famílias e buscar reparação junto à CDHU — a reportagem também voltou a procurar a DPESP diante da casa ainda ocupada que foi destruída.

    Os moradores cobram providências especialmente do governo Lula, a quem atribuíam até então a costura do acordo dos imóveis gratuitos. A gestão federal tem se mantido, no entanto, em silêncio desde que lideranças comunitárias do Moinho foram presas em setembro — famílias da favela relatam terem sido detenções forjadas para enfraquecer a luta por moradia digna.

    Onde fica a favela do Moinho

    Localizada na região dos Campos Elísios, a favela do Moinho se espreme entre trilhos por onde passam trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), embaixo do Viaduto Engenheiro Orlando Murgel e na divisa com o bairro do Bom Retiro. A remoção dos moradores se insere no contexto da alegada revitalização da região central pelo governador: a comunidade está a menos de um quilômetro da Praça Princesa Isabel, para onde Tarcísio pretende levar parte da sede administrativa do governo.

    Tarcísio também atribui o reassentamento a um alegado combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa à qual supostamente a favela estaria submetida e que faria dela base para o tráfico de drogas na região chamada de Cracolândia — cena aberta de uso de drogas.

    A gestão Tarcísio ainda diz que os moradores vivem sob risco e em condições insalubres. Além disso, ela pleiteia a cessão do terreno pela União, onde prevê construir um parque e uma estação de trem.

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