Mulher chinesa de 69 anos deitou-se no chão na tentativa de ficar com o carrinho após policial determinar a apreensão do pertence. SSP-SP diz que conduta do policial “não condiz com protocolos da instituição”
Um policial militar foi filmado chutando um carrinho de feira de uma idosa enquanto ela estava caída no chão durante uma abordagem no Centro Histórico de São Paulo. O agente está acompanhado na ocasião de ao menos outros três policiais que, ao final da ocorrência, levam consigo o pertence da mulher.
A cena ocorreu na Rua Florêncio de Abreu e foi divulgada, a princípio, pela influenciadora digital Sarah Abravanel, nesta segunda-feira (23/6). Conforme publicou o g1, o fato ocorreu na última sexta (20/6), contra a imigrante chinesa Zho Xiao Wei, de 69 anos, conhecida ali como Nainai — o apelido significa “vovó” em mandarim. A gravação ocorre à luz do dia, sob olhares de pessoas que apenas assistem ao episódio.
Antes de chutar o carrinho da idosa, o PM determina, de início, que os outros policiais apreendam o pertence dela. É quando a mulher se deita no chão na tentativa de segurá-lo. Ela tenta, sem sucesso, chutar um dos policiais e passa a chamar cada um deles de “maluco” e “ladrão”.
O policial que determinou a apreensão aos colegas afirma então que a idosa chinesa “deve seguir as leis do Brasil”. Neste momento, os demais policiais se afastam, ainda sem levarem o carrinho, e a mulher acerta com ele a bota do policial que dava as ordens. Nesse momento, o agente chuta para longe o carrinho de feira, que ainda era segurado por Nainai, acertando uma motocicleta estacionada no local.
O policial termina por apreender o carrinho, enquanto a idosa segue no chão e tenta jogar um pepino, retirado de um sacola que carrega, nos policiais.

‘Transgressão grave’
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP), a ação ocorreu durante uma fiscalização contra o comércio ilegal na região. Esse tipo de atividade com apoio da PM é realizada por meio da Operação Delegada, um convênio firmado entre a prefeitura paulistana, sob gestão Ricardo Nunes (MDB), e o governo estadual, de Tarcísio de Freitas (Republicanos), para que policiais militares possam, em horários de folga, prestar serviços remunerados pelo município na repressão a ambulantes.
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Para o coronel reformado da PM-SP José Vicente da Silva Filho, membro do conselho da Escola de Segurança Multidimensional (ESEM) da Universidade de São Paulo (USP), a conduta dos policiais no caso é inadequada. Além disso, o PM que chutou o carrinho deveria ser afastado desse tipo de atividade.
“A prefeitura, naturalmente, faz um trabalho de repressão ao comércio irregular pelas ruas, só que esse tipo de abordagem não é a PM que deve fazer, são os fiscais da prefeitura ou a Guarda Civil Metropolitana. A PM deve dar apoio de retaguarda aos fiscais. Outra questão é que, no caso de uma idosa, precisaria haver uma série de cuidados, porque ela não está cometendo um crime que justifique uma ação de força. Essas pessoas precisam ser atendidas de uma forma delicada, até pela circunstância de estar trabalhando com essa idade, em uma situação de vulnerabilidade”, diz.
“Chutar o carrinho de uma idosa é uma transgressão grave. É para punir esse policial e não aceitá-lo mais nesse tipo de trabalho, porque não está em condições”, afirma José Vicente.
O também coronel reformado da Polícia Militar paulista Sugar Ray concorda que uma outra postura deveria ter sido adotada: “O exercício da atividade policial tem exigido do servidor policial militar, cada vez mais, paciência, tolerância e serenidade no cumprimento do dever, evitando-se provocar um problema ainda mais complexo do que a situação que exigiu a intermediação policial”.
O que dizem as autoridades
A Ponte questionou a SSP-SP sobre quais foram as circunstâncias do caso e se instaurou algum procedimento administrativo para eventualmente responsabilizar os policiais. Em resposta, a pasta reprovou a conduta do PM e comunicou que irá tomar as medidas cabíveis, sem especificar quais serão elas.
“A Polícia Militar ressalta que a abordagem, feita durante fiscalização contra o comércio ilegal no centro da cidade, não condiz com os protocolos da instituição. As imagens divulgadas são analisadas para que os policiais envolvidos sejam identificados e tomadas todas as medidas cabíveis”, escreveu a SSP-SP.
A reportagem também procurou a prefeitura de São Paulo, à frente das atividades de fiscalização contra o comércio ilegal na cidade, mas não obteve retorno até esta publicação.