Vítimas e PMs faltam à audiência e juíza mantém inocente preso

    Jovem foi preso após ser assaltado e pedir ajuda a dois PMs. Vítima deu endereço e telefones errados em BO

    Vitima- Padu
    Jovem está preso injustamente há três meses

    “Foi a cena mais chocante que vi em minha vida. Uma mãe jogada no chão do quarto em prantos. Eu senti a dor dela”. É assim que a advogada Diana Cabral resume o seu encontro com a mãe de I.G.S, 19 anos, preso há mais de três meses após ser acusado de roubar três pessoas na região da rua Peixoto Gomide.

    Impossibilitada de comparecer à audiência do filho marcada para a tarde do dia último dia do mês de novembro, a advogada foi até a residência da mãe para explicar os desdobramentos de uma audiência que foi suspensa pelo não comparecimento dos principais envolvidos na acusação e detenção do rapaz.
    A tristeza da mãe, enfermeira, contrasta com a atitude das vítimas, R.G.D e D.C.G.O.S, de 25 anos, e C.T.C, de 24; e de dois policiais militares lotados na 1° Companhia do 7° Batalhão de Polícia Militar, os soldados Ricardo Araújo de Lima, de 36 anos, e Rodrigo Marcolino Siqueira, 30, que deixaram de responder à determinação da juíza Fátima Vilas Boas Cruz, da 17ª Vara Criminal e não compareceram à audiência. O promotor de Justiça, Airton José Vicente, também participa do processo.
    A mãe do jovem, preso desde o dia 5 de setembro, esperava que a audiência marcada para o dia 30 de novembro no Fórum da Barra Funda (zona oeste) pudesse ser o divisor de águas na vida de seu filho, um garçom negro, que tem como sonho estudar engenharia no Mackenzie.
    A reportagem da Ponte Jornalismo teve acesso aos documentos remetidos pelos oficiais de justiça ao Judiciário, e, pelo que consta, as vítimas não foram localizadas. Em um dos casos, a mesma vítima, C.T.C, forneceu na elaboração de ocorrência um endereço inexistente, e um telefone fixo que não pode receber ligações. Outra vítima, também uma mulher, R.G.D. forneceu um endereço na região central com apenas o número do condomínio de prédios, sem identificar o bloco ou apartamento; no edifício, porém, a informação dada é de que no local não reside tal pessoa. A terceira vítima, D. C. G. O. S., que afirmou à reportagem em texto anterior que sabia da audiência do dia 30/11, também não compareceu.
    Para o advogado e especialista em políticas de segurança pública pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) Ariel de Castro Alves “a falta de sensibilidade do Judiciário, mesmo havendo indícios fortes da inocência do réu, é patente e vergonhosa”, conclui.
    A reportagem não conseguiu localizar documentos que mostrem se os PMs Lima e Siqueira foram encontrados.
    Com o comparecimento apenas das testemunhas de defesa, uma nova audiência foi remarcada para 11/1, ou seja, o jovem inocente passará as festas de fim de ano preso. Por outro lado, nem as vítimas e nem os policiais militares mostraram se importar em deixar mais um jovem sonhador encarcerado em uma cela superlotada do CDP 2 do Belém.

    Outro lado
    Sobre a falta dos policiais militares na audiência, o promotor de Justiça informou à reportagem da Ponte Jornalismo que foi comunicado o fato à Corregedoria da Polícia Militar. Durante a tarde de terça-feira (1/12), o tenente-coronel Canjerana, responsável pelo 7° BPM entrou em contato por telefone com a reportagem. Ao ser informado sobre o ocorrido, o oficial disse que iria se inteirar sobre os motivos da falta dos PMs e entraria em contato. Até a publicação do texto, ele não havia retornado.
    O promotor também informou que novas diligências serão feitas para localizar as vítimas; questionado se o jovem não poderia responder ao processo em liberdade, o promotor disse que “na audiência de novembro não se cogitou de soltura do réu; se fosse formulado novo pedido pela defesa, o promotor de Justiça seria contrário”, revelando sua posição em manter o jovem preso.
    A manutenção da prisão de I.G.S também pode ser questionada através das palavras do próprio promotor, que confirma que nem arma e muito menos pertences das vítimas foram encontrados em posse do acusado.”A faca empregada e os pertences das vítimas não foram encontrados, salvo um cartão bancário e a cédula de identidade de uma das vítimas”, conclui, sem informou se tais objetos foram encontrados com I. ou com outros três jovens menores de idade detidos antes, e em local diferente, mas acusados pelo mesmo delito.
    Procurada, a juíza da 17ª Vara Criminal, Fátima Vilas Boas Cruz, informou via assessoria de imprensa do TJ, que preferia não se manifestar sobre o caso. “Em razão de estar julgando o referido processo e por isso mesmo atendendo ao que determina o artigo 36, inciso III da Loman (Lei Orgânica da Magistratura Nacional), que impede o magistrado de se manifestar sobre processo pendente de julgamento, seu ou de outrem”.
    O caso
    I.G.S, jovem, negro, voltava para casa após uma balada quando foi assaltado. Ao pedir ajuda a uma viatura do 7° Batalhão da Polícia Militar na avenida Nove de Julho, no Bixiga, foi apontado como criminoso por três jovens (duas mulheres e um homem) que já estavam dentro da viatura e diziam ter sido assaltados a cerca de 2 quilômetros dali, na rua Peixoto Gomide.
    Levado ao 78°DP (Jardins), I. não passou por reconhecimento com pessoas semelhantes e não teve seu retrato elaborado pelas testemunhas. Primário, com trabalho e residência fixa, e mesmo com uma das vítimas, D., não o reconhecendo, não teve levado em consideração dois pedidos de liberdade. Sobre o caso, a delegada do 78°DP, que elaborou o boletim, e determinou a detenção, afirma que I. foi reconhecido com certeza por uma testemunha, colocando em xeque versão de um dos amigos assaltados.
    Tanto o jovem preso como uma testemunha que estava junto a ele, e que foi liberado pelos PMs ainda no local, contaram para a mãe e para a advogada, que o trio assaltado estava aparentemente sob o efeito de álcool.

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