
Dois anos depois de anunciar sua transição aqui na Ponte, o jornalista e homem trans Caê Vasconcelos conta como sua vida foi transformada depois da mastectomia
Caê diz que foram dois anos de muito amadurecimento e recorda o começo dessa jornada quando ainda escrevia seu TCC na faculdade e assistiu ao documentário “Bixa Travesty“, da Linn da Quebrada.
A terapia hormonal foi uma escolha do jornalista que adverte: “não são as nossas cirurgias ou harmonizações que nos fazem ser pessoas trans. A transição, ou percebimento, é muito mais interna do que externa”.
“Eu não acredito que exista um tipo de corpo masculino e um tipo de corpo feminino. Existem corpos, no plural. Cada pessoa, seja cis ou trans, tem a sua singularidade e ela precisa ser respeitada”, pontua.
O jornalista conta que nesse processo percebeu a disforia ao não se sentir confortável com o próprio corpo e sentiu a necessidade de se sentir bem longe das cobranças da cisgeneridade.
Aos 30 anos, Caê decidiu realizar a mastectomia pela rede privada por conta da longa fila para realizar o procedimento pelo SUS. Em três meses, conseguiu arrecadar boa parte do dinheiro para a cirurgia em uma vaquinha online.
“Fiquei com raiva de todos os meninos que haviam passado pelo procedimento e não falado a real: é um sonho realizado, mas é horrível (...) Chorei de raiva, de agonia, de alegria. Então decidi, começar a fazer alguns conteúdos no meu Instagram sobre a desromantização da mastectomia”.
Caê, então, transformou toda sua experiência em luta: “Quantos homens trans ou pessoas transmasculinas vocês conhecem? Cabem em uma mão, né? Mas somos muitos. Só falta sermos vistos, termos visibilidade”.
Apesar da recuperação difícil, o resultado foi o esperado. Caê foi à praia pela primeira vez sem camiseta em janeiro de 2022: “sentir a brisa do mar, o sol, a água do mar, a areia. É um sentimento inexplicável”.
“O medo me bloqueou por tantos anos, me impedindo de ser quem sou. Se eu esperasse ir embora, perderia a minha vida. Por isso a transição me salvou, me deu um motivo para viver: ser feliz, sendo eu”, afirma.