GCM lança gás contra membros do Teatro do Contêiner, alvo de tentativa de despejo pela prefeitura

Vídeos mostram uso de gás de efeito moral por guardas municipais em espaço com crianças no fim da tarde desta terça-feira (19/8). Coletivo afirma que ação atende a interesses políticos de Tarcísio e Nunes

Ação da GCM no Teatro de Contêiner nesta terça-feira (19/8) é alvo de denúncias | Foto: Reprodução

Uma ação da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo nesta terça-feira (19/8) foi denunciada pela página do Teatro de Contêiner Mungunzá. Em vídeos divulgados, pessoas aparecem sendo retiradas por agentes, e é possível ver guardas lançando gás contra o público, enquanto gritos alertam que havia crianças no local.

Em uma das gravações, compartilhada às 17h, um dos organizadores afirma que o prédio foi ocupado para evitar o despejo. “Estão falando que vão nos despejar e destruir tanto o Tem Sentimento quanto o Teatro de Contêiner simplesmente para o governador e o prefeito virem no espaço onde era a Cracolândia fazer palanque aqui”, diz o responsável, que se apresenta como Lucas.

Leia também: ‘Trator por cima da cultura’: Teatro de Contêiner pede apoio e atribui despejo a plano higienista em SP

Em nota enviada à Ponte, a Guarda Civil Metropolitana disse que foi ao local em uma ação para desocupar um prédio supostamente invadido. 

O Teatro de Contêiner está instalado na Rua dos Gusmões, na Santa Ifigênia, próximo à antiga Cracolândia e à Praça Princesa Isabel — áreas marcadas por ações de remoção sob o argumento de revitalização do centro. Para os artistas do espaço, essas medidas fazem parte de um projeto de higienização ligado à chegada do governo estadual à região.

Imagens da ação: https://www.instagram.com/reel/DNjNcLXRARt/?utm_source=ig_web_copy_link

Criado em 2016 pela Companhia Mungunzá, o teatro surgiu após um levantamento de áreas ociosas e se consolidou como referência cultural e social. Durante a pandemia, chegou a abrigar políticas públicas, distribuindo refeições, cestas básicas, kits de higiene e água a pessoas em situação de vulnerabilidade.

Marcos Felipe, um dos responsáveis pelo Teatro de Contêiner, afirmou que o prédio é ocupado há nove anos pelo grupo. No térreo, funcionavam a oficina de serralheria para a construção de cenários, além do depósito de materiais de limpeza e dos cenários em cartaz.

De acordo com ele, os integrantes foram surpreendidos com a ação de despejo realizada pela Guarda Civil Metropolitana (GCM). Para o grupo, a operação teria como objetivo viabilizar um ato político com a presença do governador e do prefeito nas proximidades. A Ponte questionou a Prefeitura e o governo do Estado sobre essa acusação, mas não obteve retorno.

A vereadora Luana Alves (PSOL) registrou nas redes sociais o que seria a desmontagem do evento que teria a presença de Ricardo Nunes (MDB) e Tarcísio de Freitas (Republicanos). A parlamentar também anunciou que apresentará um requerimento solicitando informações sobre os custos de montagem e retirada da estrutura.

Os responsáveis pelo teatro protocolaram um pedido formal à Prefeitura para que o prazo de desocupação seja prorrogado em 120 dias. No documento, também solicitam a apresentação de alternativas que respeitem a historicidade e a autenticidade do espaço.

Em maio, a gestão Ricardo Nunes deu 15 dias para a desocupação, sob a justificativa de construir moradia popular. No dia 6 de agosto, conforme noticiado pelo g1 São Paulo, a Prefeitura enviou uma nova notificação informando que o prazo não seria prorrogado e se encerraria nesta quinta-feira (20/8). Segundo a administração municipal, a área, de propriedade do município, será destinada a um programa habitacional voltado à revitalização do centro.

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Os responsáveis pelo teatro denunciam que a medida representa uma forma de limpeza urbana que desvaloriza a cultura local e integra um plano higienista. “É uma tristeza enorme estar passando por isso, um espaço referência para a nossa cidade, para o nosso país, que deveria ser chancelado e promovido pela própria prefeitura como um equipamento de sucesso, que caminha com as próprias pernas”, disse Marcos Felipe, em entrevista à Ponte em maio deste ano.

O Ministério da Cultura e a Funarte emitiram uma nota para repudiar a ação da Guarda Civil Metropolitana (GCM) na retirada dos membros do teatro. No documento, representantes dos órgãos também solicitam à prefeitura de São Paulo a ampliação do prazo para o despejo.

O que dizem as autoridades

A Ponte procurou a Prefeitura de São Paulo para pedir um posicionamento sobre a atuação da GCM no Teatro de Contêiner na tarde desta terça-feira (19/8).

Em nota, a Guarda Civil Metropolitana informou que realizou nesta terça-feira (19) uma operação na Rua dos Protestantes para desocupar um imóvel ao lado do Teatro de Contêineres. Segundo a corporação, o prédio, interditado e com demolição prevista pela Prefeitura de São Paulo, havia sido invadido por um grupo que utilizava um acesso clandestino a partir do terreno do teatro. Diante da recusa em deixar o local, a GCM afirmou que foi necessária a intervenção das forças de segurança. Após a ação, acrescentou, o imóvel permaneceu trancado e preservado.

*Matéria atualizada às 19h30 de 19/8/2025 para incluir a nota da GCM. O texto foi novamente atualizado às 11h50 de 20/8/2025 para acrescentar a fala de Marcos Felipe e a informação da vereadora Luana Alves.

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