Justiça barra despejo e garante permanência do Teatro de Contêiner por 180 dias em SP

Decisão reconhece risco de prejuízo cultural e aponta investigação do Ministério Público sobre o símbolo cultural ameaçado pela ‘revitalização’ do centro de SP

Teatro de Contêiner Mungunzá, no centro de São Paulo, permanece no local após decisão judicial que suspendeu despejo por 180 dias
Teatro de Contêiner Mungunzá, no centro de São Paulo, permanece no local após decisão judicial que suspendeu despejo por 180 dias | Foto: Teatro de Contêiner Mungunzá/Divulgação

A juíza Nandra Martins da Silva Machado, da 5ª Vara da Fazenda Pública, concedeu tutela cautelar que garante a permanência do Teatro de Contêiner Mungunzá no terreno da Rua dos Gusmões, no centro de São Paulo, por 180 dias. O local é alvo de tentativa de despejo pela gestão Ricardo Nunes (MDB), no contexto da chamada revitalização do centro, que também envolve a remoção de famílias da favela do Moinho pelo governo estadual, que pretende transferir parte da sede administrativa para a região.

O Teatro de Contêiner ocupa o espaço há nove anos, onde mantém atividades culturais reconhecidas nacional e internacionalmente, com parcerias oficiais em vigor até 2025.

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A Subprefeitura da Sé havia determinado a desocupação em 15 dias, sob alegação de que no local seria implantado um projeto habitacional. O prazo terminaria na quinta-feira (21/8), sem ordem judicial e sem viabilidade técnica para desmontar a estrutura de 15 contêineres e equipamentos culturais, conforme alegaram os responsáveis na ação judicial.

Na terça-feira (19/8), houve uma intervenção da Guarda Civil Metropolitana, acompanhada de funcionários da COHAB/SP, no prédio ao lado do teatro, usado como depósito e oficina de cenários. Vídeos divulgados pelo grupo mostram agentes da GCM imobilizando pessoas e lançando gás contra manifestantes que protestavam contra a ação.

Segundo a petição, parte da parede lateral do prédio foi demolida sob a alegação de que o imóvel estaria em risco.

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Na decisão, a juíza ressaltou que o teatro tem programação confirmada até dezembro deste ano, fruto de parcerias com os governos municipal e estadual, “cuja interrupção acarretaria prejuízos não apenas para o Teatro de Contêiner, mas para toda a sociedade e para os inúmeros artistas, educadores e públicos diretamente envolvidos”.

A magistrada também destacou que o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) abriu inquérito civil para investigar possível improbidade administrativa envolvendo o prefeito e secretários municipais no caso. A prefeitura pode recorrer da decisão.

Na noite de quinta-feira (21/8), quando venceria o prazo da desocupação, a prefeitura anunciou que prorrogou por 60 dias a ordem de despejo, passando a data para 20 de outubro. Em nota enviada à Ponte, a prefeitura informou que ofereceu ao grupo um espaço na Rua Helvétia, a menos de um quilômetro do atual teatro, com área de 1.043 metros quadrados. A gestão também afirma já ter apresentado três terrenos na região central para a manutenção das atividades.

Marcos Felipe, um dos responsáveis pelo Teatro de Contêiner, explicou que a discussão sobre a mudança não se resume à metragem do espaço físico. Segundo ele, cada terreno envolve características próprias, como laterais, projeto paisagístico, possibilidade de playground e ampliação de salas de apresentação e ensaio. No caso do terreno da Rua Helvétia, o grupo pleiteava a totalidade da área de 3 mil metros quadrados, mas a prefeitura ofereceu apenas mil. A intenção, disse Marcos, não era apenas garantir espaço suficiente para o teatro, mas transformar o local em um centro cultural público de maior alcance.

Mobilização pela permanência do teatro

A luta pela permanência do teatro contou com apoio e mobilização da classe artística. Vídeos divulgados na página oficial do espaço no Instagram mostram artistas como Marieta Severo e Fábio Porchat pedindo pela manutenção do local.

Em junho, quando os responsáveis anunciaram a ordem de despejo, a atriz Fernanda Montenegro fez um apelo público para que o governador revisse a decisão.

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Outro movimento foi a divulgação de uma carta que, até esta sexta-feira (22/8), já havia reunido mais de 7 mil assinaturas em defesa da permanência do teatro.

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