Ação de criminosos na morte de delegado Ruy sugere treinamento militar, dizem especialistas

    Ruy Ferraz Fontes foi morto durante ação rápida e coordenada de executores em Praia Grande, na última segunda (15/9). Policiais e pesquisadores ouvidos pela Ponte afirmam ser plausível cogitar participação de agentes de segurança

    Movimentação de criminosos foi coordenada e durou cerca de 50 segundos | Foto: Reprodução

    Um carro surge em alta velocidade em uma avenida movimentada, em aparente fuga, se choca contra um ônibus e capota. Logo atrás, um outro veículo que o perseguia consegue frear a tempo, sem se acidentar. Desse segundo carro, descem três homens encapuzados, com coletes balísticos e fuzis. A ação a partir disso é rápida e coordenada: um deles intimida testemunhas na retaguarda, para ninguém se aproximar; os outros dois progridem em linha em direção ao motorista acidentado e o executam a tiros. Não há chance de reação. Um quarto envolvido manobra o carro do grupo, ainda com as portas abertas, e os criminosos fogem ilesos. O veículo usado no crime é depois incendiado, para não deixar vestígios.

    Especialistas ouvidos pela Ponte dizem que o profissionalismo do atentado contra o ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo Ruy Ferraz Fontes — ocorrido em Praia Grande, no litoral paulista, na segunda-feira (15/9) — sugere que ele possa ter sido praticado por criminosos com treinamento tático-militar ou policial.

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    A reportagem conversou com policiais da ativa, ex-integrantes de forças de segurança e pesquisadores da área. Para a maior parte deles, é plausível cogitar o envolvimento de agentes de segurança pública, seja diretamente na execução do assassinato ou no treinamento dos executores, ainda em função das características da ocorrência.

    “É bem provável que haja policiais nessa execução”, disse uma das pessoas ouvidas. Mesmo quem julga ser precoce considerar a participação de policiais no episódio neste momento concorda em dizer que não foram amadores que executaram o crime.

    A hipótese não foi levantada publicamente pela Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP) até agora, mas é comentada entre policiais civis desde a noite do crime. O chefe da pasta, Guilherme Derrite (PL), anunciou apenas, na terça (16/9), que dois suspeitos foram identificados a partir da perícia de materiais genéticos e impressões digitais encontradas em um segundo carro envolvido no episódio — um dos alvos teria antecedentes criminais por roubo e tráfico de drogas.

    Caso é semelhante a outras execuções emblemáticas

    Chama a atenção das pessoas ouvidas pela Ponte as semelhanças entre a execução de Ruy e outros assassinatos emblemáticos nos quais, posteriormente, foi descoberta a participação de policiais e de ex-agentes: são os casos de Vinícius Gritzbach, o delator da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) morto no Aeroporto de Guarulhos, em novembro do ano passado; e da vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada junto de seu motorista, Anderson Gomes, em março de 2018.

    No caso de Gritzbach, morto sem chance de reação também em uma ação coordenada, descobriu-se que policiais militares faziam a escolta pessoal dele como um “bico” e que outros agentes da Polícia Militar paulista (PM-SP) foram os executores do crime, na condição de matadores de aluguel. O primeiro suspeito identificado naquela ocasião, assim como no caso de Ruy, foi uma pessoa comum com passagem por tráfico de drogas, e não um policial, que teve uma função lateral no episódio, a de “olheiro”, para avisar os atiradores sobre a movimentação da vítima no aeroporto.

    Leia também: O que o caso Gritzbach explica sobre o envolvimento do PCC com as polícias de SP?

    No caso de Marielle e Anderson, eles foram mortos a tiros de submetralhadora também ao serem perseguidos de carro, sem que fossem deixados vestígios — no episódio em que Ruy foi morto, os atiradores disparam também com o veículo dele em movimento, antes de se acidentar. Os executores confessos do crime contra a vereadora e seu motorista foram Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, ex-integrantes da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PM-RJ).

    O caso do ex-delegado-geral também guarda semelhanças com o assassinato do juiz Antônio José Machado Dias, o Machadinho, ocorrido em 2003. Sem escolta policial, assim como Ruy, o magistrado foi morto a tiros ao ser perseguido de carro quando saía do trabalho, a cerca de 300 metros do Fórum da Comarca de Presidente Prudente, no interior de São Paulo. Na ocasião, foram encontradas na cena cápsulas de pistolas de uso exclusivo do Exército. Os atiradores agiram a mando do PCC.

    Motivação do assassinato de Ruy ainda é investigada

    No caso de Ruy, também foi levantada agora a hipótese de que ele teria sido morto em retaliação da facção criminosa. O delegado era inimigo declarado do PCC desde o início dos anos 2000. Em 2019, a Ponte mostrou que ele estava na mira do Bonde dos 14, célula da facção que planejava executar o então delegado-geral e outros dois investigadores. As anotações detalhavam ameaças de morte e que a ordem partia de Décio Gouveia Luiz, o Décio Português, homem de confiança de Marcola.

    Já em 2010, segundo o promotor Lincoln Gakiya, Ruy escapou de um plano para ser morto na porta de um distrito policial, frustrado após ação das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), então com participação do hoje secretário Derrite. Para Gakiya, o delegado era jurado de morte desde 2006, por ter idealizado a transferência das lideranças da facção para a Penitenciária II de Presidente Venceslau.

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    Outra linha de apuração considera que a morte pode estar ligada à atuação de Ruy na Secretaria de Administração da prefeitura de Praia Grande, chefiada por ele desde 2023, quando se aposentou da Polícia Civil. Ali, ele teria contrariado interesses locais ao gerir contratos e fiscalizar áreas estratégicas.

    Dois dos especialistas que conversaram com a Ponte afirmam que, independentemente das motivações e mandantes, a dinâmica do ocorrido evidencia que os executores eram treinados para um atentado organizado. Uma outra das pessoas ouvidas pela reportagem pondera que, ainda que não haja a participação de agentes de segurança do estado, é razoável cogitar que os executores possam ter tido treinamento tático-militar fora do país — especificamente na Bolívia e no Paraguai, onde líderes do crime organizado têm se escondido das autoridades brasileiras.

    Derrite nega apoio federal em investigação

    A morte de Ruy é investigada por uma força-tarefa da Polícia Civil. O grupo é liderado pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Além disso, ele tem apoio do Ministério Público estadual (MP-SP). O atual delegado-geral, Artur Dian, foi deslocado ao litoral para acompanhar as apurações.

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    O governo federal se dispôs a participar da investigação, com suporte da Polícia Federal. A ajuda, no entanto, foi negada, conforme anunciou o secretário Derrite. Para parte dos especialistas ouvidos pela Ponte, a decisão é de caráter político, devido ao interesse da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) em esclarecer o caso sem depender de cooperação do governo Lula (PT), com o qual rivaliza.

    Derrite também anunciou, com um vídeo nas redes sociais, que agentes das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) e de um Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), unidades de elite da PM-SP, seriam deslocados para reforçar o policiamento ostensivo na região.

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