SSP-SP reforçou policiamento ostensivo após assassinato de Ruy Ferraz Fontes, o que gerou temor de retaliação indiscriminada em comunidades. Falta de proteção ao ex-delegado reabre debate sobre tratamento do Estado com Polícia Civil

O assassinato a tiros do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes, que chegou a chefiar a Polícia Civil de São Paulo, despertou um clima de medo na Baixada Santista desde a noite desta segunda-feira (15/9), quando ocorreu o crime. Moradores de comunidades da região temem que as forças de segurança de Tarcísio de Freitas (Republicanos), com efetivo reforçado no local, promovam uma nova “operação vingança”, com uma matança indiscriminada de pessoas sem relação alguma com o episódio.
Ainda na noite do crime, o secretário da Segurança Pública paulista, Guilherme Derrite (PL), anunciou com um vídeo nas redes sociais que agentes das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) e do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), unidades de elite da Polícia Militar de São Paulo (PM-SP), seriam deslocados para reforçar o policiamento ostensivo na região. A presença policial é maior agora mesmo em municípios próximos a Praia Grande, onde ocorreu o assassinato.
Leia também: PCC ordenou morte de delegado-geral e outros dois policiais civis
Uma moradora da Vila Israel, em Santos, relatou à Ponte, na condição de anonimato, que houve tiroteio na comunidade e que um homem foi baleado no pé na noite desta segunda. Ela afirmou que muitas viaturas desceram para a região, onde o medo é de que hajam prisões seguidas de execuções.
“Geralmente eles não levam para a delegacia, eles matam”, disse a moradora. O clima de apreensão fez com que famílias mantivessem as crianças em casa, sem ir à escola, e reduzissem a circulação pelas ruas. “Estamos todos apreensivos, conversando no grupo da comunidade para avisar qualquer coisa.”
Operações vingança e crimes de maio
O medo encontra lastro em ações deflagradas nos últimos anos após a morte de policiais militares na Baixada Santista: as Operações Escudo e Verão, em que 84 pessoas foram mortas. Elas são alvos de denúncias de moradores e de movimentos sociais por execuções, abordagens truculentas e invasões a residências. Além disso, foram definidas por especialistas como operações de vingança.
O temor também remonta aos crimes de maio de 2006, quando centenas de pessoas foram mortas indiscriminadamente por agentes de segurança no estado, sobretudo na Baixada Santista, em resposta a ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) — o delegado Ruy Ferraz Fontes era considerado inimigo da facção criminosa, o que levantou a suspeita de que teria sido morto em represália.
“As mães estão tensas. A gente fica muito preocupado com retaliação. Isso não deveria existir: a gente assiste a essas operações de vingança há duas décadas, e isso não para. Nós, a periferia e os nossos filhos pagamos um preço alto. As autoridades deveriam prevenir esses acontecimentos com inteligência, porque a inteligência não mata, ela pune severamente quem tem de ser punido. A operação vingança é politiqueira”, diz Débora da Silva, fundadora do Movimento Independente Mães de Maio.
Leia também: O que o caso Gritzbach explica sobre o envolvimento do PCC com as polícias de SP?
A entidade articulada por ela divulgou um comunicado no qual presta solidariedade a familiares e amigos do ex-delegado e também pede a resolução do caso sem uso desmedido da violência. “As investigações precisam ser severas e punir quem tem de ser punido, mas não punir uma sociedade vulnerável à qual o Estado só é presente com opressão e extermínio”, afirma ainda Débora.
Além do policiamento ostensivo anunciado por Derrite, a SSP-SP montou uma força-tarefa da Polícia Civil para atuar no caso, tratado pelo governador Tarcísio como prioridade máxima. O grupo é liderado pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Além disso, ele apoio do Ministério Público estadual (MP-SP). O atual delegado-geral, Artur Dian, foi deslocado ao litoral para acompanhar as apurações.
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, afirmou que o governo federal também colocou as forças de segurança à disposição de São Paulo para colaborar na investigação. Ele disse ter ligado para o governador para prestar solidariedade e ressaltou que o crime foi “brutal”.
Descaso com a Polícia Civil
Ruy Ferraz Fontes foi morto a tiros enquanto dirigia pela Avenida Doutor Roberto de Almeida Vinhas, em Praia Grande, por volta das 18h de segunda, após sair do trabalho — aposentado da Polícia Civil, ele era secretário de Administração do município, governado por Alberto Mourão (MDB), aliado de Tarcísio.
O ex-delegado bateu em um ônibus e capotou com o carro quando era perseguido por um outro veículo. Do carro que o seguia, desceram três criminosos: dois deles foram até o veículo capotado e executaram Ruy com 21 tiros de fuzil, enquanto o terceiro intimidava outros motoristas na retaguarda. Após o assassinato, eles fugiram rapidamente do local a bordo do carro, pilotava por um quarto suspeito. A atuação do grupo aparentou ser de pessoas treinadas, conforme relatos feitos à Ponte.
Durante o ataque, um homem e uma mulher que passavam pela avenida também foram baleados, mas não correm risco de vida. O secretário Derrite anunciou, no começo da tarde desta terça (16/9), que um dos carros utilizados pelos criminosos, que trocaram de veículos durante a fuga, passou por perícia — a partir disso, teria sido descoberta a identidade de um dos participantes do crime.
Leia também: PM de Tarcísio tem nova colisão com Polícia Civil ao cumprir mandado judicial sem avisá-la
Duas semanas antes de ser assassinado, Ruy Ferraz Fontes afirmou em entrevistas à CBN e ao Globo que vivia “sem estrutura nenhuma” de segurança. Ele atuou por mais de 40 anos na Polícia Civil, chefiou a corporação durante o governo João Doria (PSDB) e teve papel central na prisão de líderes do PCC.
O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) lamentou a morte e afirmou que o crime escancara o descaso do governo paulista com a própria Polícia Civil. Em nota, a entidade criticou a falta de valorização da carreira, o déficit de contratações e a escassez de investimentos em estrutura e materiais, o que, segundo o Sindpesp, enfraquece o combate ao crime organizado.
À Ponte, o delegado André Pereira, presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Adpesp), afirmou que a entidade também entende que houve uma falha do Estado em proteger o ex-delegado. “A gente precisa ter uma legislação que ampare esses agentes públicos. Existe, sim, uma falha, e não localizada, mas uma falha generalizada no tratamento com as forças de segurança”.
Trajetória contra o PCC e atuação em Praia Grande
As motivações do crime ainda não foram esclarecidas. Uma das linhas de apuração é sobre o eventual envolvimento do PCC, facção da qual Ruy era inimigo declarado desde o início dos anos 2000. Em 2019, a Ponte mostrou que ele estava na mira do Bonde dos 14, célula da facção que planejava executar o então delegado-geral e outros dois investigadores. As anotações detalhavam ameaças de morte e a ordem partia de Décio Gouveia Luiz, o Décio Português, homem de confiança de Marcola.
Já em 2010, segundo o promotor Lincoln Gakiya, Ruy escapou de um plano para ser morto na porta de um distrito policial, frustrado após ação da Rota, então com participação do hoje secretário Derrite. Para Gakiya, o delegado era jurado de morte desde 2006, por ter idealizado a transferência das lideranças da facção para a Penitenciária II de Presidente Venceslau. Ele criticou a ausência de proteção estatal a autoridades que dedicaram décadas ao combate ao crime organizado, afirmando que o PCC age como uma máfia que “não perdoa” e cujas execuções podem demorar, mas não falham.
Outra linha de apuração considera que a morte poderia estar ligada à atuação de Ruy na Secretaria de Administração de Praia Grande, onde teria contrariado interesses locais ao gerir contratos e fiscalizar áreas estratégicas. Ele ocupava o cargo desde 2023.
