Local é o mesmo em que um PM da Rota foi morto em 2024, fato que antecedeu disparada da letalidade policial da Operação Verão daquele ano. Para vizinhança, destruição é novo episódio de retaliação indiscriminada contra moradores
Policiais militares destruíram um coreto, além de bancos e mesas de concreto, de uma pequena praça na comunidade do Mangue Seco, uma favela de palafitas na zona noroeste de Santos (veja vídeo acima). A derrubada do patrimônio público ocorreu sem que a prefeitura local sequer tivesse sido avisada.
O caso foi revelado pelo veículo independente Frequência Caiçara, que publicou um vídeo dos agentes da Polícia Militar paulista (PMESP) fazendo a destruição do local com marretas, na segunda-feira (24/8).
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Os policiais ainda atearam fogo no espaço e largaram entulho em frente às casas que margeiam a praça. Somente à noite, passadas horas após a depredação, funcionários da Terra Santos, a concessionária de limpeza urbana da cidade, foram ao local para retirar o material deixado pelos agentes.
A praça José Lamacchia virou agora um pátio de concreto, com ferros pontiagudos que sobraram no chão em função dos bancos destruídos. O espaço é frequentado principalmente por crianças e adolescentes, uma vez que se trata do único equipamento público de lazer da comunidade.
A vizinhança ainda o utilizava especialmente no verão, quando o calor torna insuportável a permanência nos barracos da favela, a maioria deles construídos em madeira e telhas de fibrocimento.

Para vizinhança, destruição é nova retaliação por morte de PM
À imprensa de Santos, a PMESP comunicou que o espaço seria utilizado por traficantes de drogas e que estaria “sob domínio de organização criminosa”, razão pela qual o destruiu. Disse também que os bancos e mesas, concretados no chão, eram utilizados como barricadas, embora não impedissem a circulação pelo local — a praça dá acesso a pequenas vielas pelas quais não passam carros.
Para moradores do entorno, a destruição se tratou, na verdade, de mais um episódio de retaliação indiscriminada da PMESP contra a vizinhança, em função de ter sido nesta mesma praça, em fevereiro de 2024, que um policial foi morto — o soldado Samuel Wesley Cosmo, que integrava as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), o batalhão mais letal da PM paulista.
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A morte de Samuel foi o estopim para a alta letalidade da Operação Verão 2023/24, classificada como uma ofensiva de vingança e na qual 54 pessoas foram mortas pela PMESP na Baixada Santista.
Desde então, são comuns ações ostensivas e intimidatórias na comunidade. Também houve mortes de moradores no local, como ocorreu com Edneia Fernandes Silva, uma mulher de 31 anos e mãe de seis filhos que foi baleada pela Polícia Militar quando estava sentada em um dos bancos da praça.
“Teve uma época em que eles [os policiais] invadiam as casas. Eles agem como verdadeiros bandidos, com micha, arrombando as portas das casas. Invadem sem ninguém saber”, relatou à Ponte uma pessoa que vive na favela. “Eles trazem fluído de isqueiro e tacam fogo. Quem deixa bicicleta para fora de casa, eles rasgam o pneu. Quem tem moto, se for Biz, eles deixam a parte do trás, do banco, aberta.”
“E ninguém nega que existe tráfico na comunidade, como tem em vários lugares. Mas a solução não é quebrar o patrimônio público. As pessoas usufruem disso. Isso não soluciona nada. Foi mais uma tentativa de aterrorizar os moradores”, disse ainda a pessoa ouvida pela reportagem.

PM conduziu à delegacia moradora que criticou destruição
À imprensa em Santos, a PMESP comunicou ter apreendido pouco mais de um quilo de drogas durante a ação na praça, sem esclarecer, no entanto, onde o material estava acondicionado.
Não houve nenhuma prisão em razão do suposto flagrante. Apenas uma pessoa foi conduzida a uma delegacia por suposto furto de água. A Ponte apurou ter se tratado de uma moradora que criticou a destruição da praça operada pelos agentes e que, em retaliação a isso, foi levada por eles, por manter uma ligação irregular para fornecimento de água em casa. Ela foi liberada posteriormente.
A PMESP em Santos também divulgou que o espaço será reconstruído e passará a ter policiamento contínuo. A Ponte questionou a prefeitura local, sob gestão Rogério Santos (Republicanos), sobre isso. Em resposta, ela comunicou apenas que fará uma vistoria na praça para avaliar os reparos necessários.
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A Ponte também procurou a Secretaria da Segurança Pública paulista, sob gestão Tarcísio Freitas (Republicanos). Questionou se havia alguma ordem judicial para a destruição da praça ou se ocorreu por iniciativa apenas da PMESP e se pretende manter alguma estrutura fixa no local. Não houve retorno ao menos até esta publicação.
Leia a íntegra do que diz a prefeitura de Santos
A Secretaria de Prefeituras Regionais (Sepref), por meio da Prefeitura Regional da Zona Noroeste, fará uma vistoria na praça para avaliar os reparos que serão necessários. Não houve comunicação sobre a demolição. A Terra Santos foi acionada pela PM para a retirada dos resíduos.