Artigo | Ajuda humanitária nas favelas: quando a guerra não é declarada, mas a população precisa sobreviver

Diante de operações policiais, mortes e interrupção da vida cotidiana, organizações de favelas constroem redes próprias de proteção, cuidado, memória e denúncia

Operação da Policia Militar em comunidade da Baixada Fluminense, em2016 | Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Quando ouvimos falar em ajuda humanitária, quase instantaneamente pensamos em guerras. Pensamos em Gaza, Ucrânia, Sudão, Congo ou em outros territórios onde guerras abertas, disputas militares e intervenções imperialistas produzem destruição, deslocamentos forçados, mortes, fome e colapso das condições básicas de reprodução da vida. Nesses contextos, a ajuda humanitária aparece como resposta emergencial diante daquilo que os Estados e as guerras produziram.

Mas há uma pergunta que precisamos fazer a partir do Brasil: o que acontece quando a guerra não é oficialmente reconhecida como guerra, quando não há necessariamente um exército estrangeiro ocupando o território, mas comunidades inteiras vivem cotidianamente sob operações armadas, incursões policiais, mortes, prisões, interrupção de serviços, destruição de bens e produção permanente do medo?

É nesse ponto que precisamos ampliar nossa compreensão sobre ajuda humanitária.

Nas favelas e periferias brasileiras, centenas de organizações, coletivos, movimentos sociais, redes comunitárias e organizações de direitos humanos realizam cotidianamente aquilo que poderíamos denominar como uma ajuda humanitária produzida pela favela. Não porque as populações desses territórios estejam vivendo uma guerra convencional, mas porque estão submetidas a uma política permanente de violência, precarização e controle territorial.

A Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJRacial) é parte desse campo. Seu trabalho de monitoramento das operações policiais, acompanhamento de familiares de vítimas da violência de Estado, produção de memória, denúncia pública, incidência política popular e defesa de direitos revela uma dimensão frequentemente invisibilizada do debate humanitário brasileiro: quem cuida das populações quando o próprio Estado é o produtor da violência que as atinge?

Existe uma geopolítica racial daquilo que reconhecemos como guerra.

Quando um míssil destrói uma residência em uma zona de conflito internacional, imediatamente reconhecemos a existência de uma emergência humanitária. Quando famílias precisam abandonar suas casas, quando hospitais são atingidos ou quando crianças são mortas em um bombardeio, instituições internacionais mobilizam vocabulários como crise humanitária, direitos humanos, proteção de civis e assistência emergencial.

Nas periferias brasileiras, entretanto, determinadas formas de violência foram historicamente naturalizadas. O tiro que atravessa uma janela durante uma operação policial, a escola que precisa interromper suas atividades, o posto de saúde que deixa de funcionar, o trabalhador que não consegue chegar ao emprego, a criança que aprende a diferenciar os sons dos diferentes armamentos, a família que precisa reconhecer um corpo no Instituto Médico-Legal e a mãe que passa a lutar por justiça depois da morte de seu filho raramente são apresentados como elementos de uma crise humanitária.

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São frequentemente classificados como “efeitos colaterais”, “confrontos”, “ocorrências policiais” ou consequências inevitáveis da “guerra às drogas”. Essa linguagem não é neutra.

Ela contribui para transformar o sofrimento social em estatística policial e mortes em números administrativos. É justamente contra essa naturalização que a produção de conhecimento das organizações de favelas e periferias possui importância política. A IDMJRacial, ao monitorar sistematicamente as operações policiais na Baixada Fluminense, produz uma espécie de infraestrutura civil de proteção, memória e denúncia.

O relatório 5 anos de Operações Policiais na Baixada Fluminense/RJ – 2020-2025 é uma expressão concreta desse trabalho.

5.298 operações: uma emergência que não recebe esse nome

Segundo o levantamento da IDMJRacial, entre 2020 e 2025 foram registradas 5.298 operações policiais nos 13 municípios da Baixada Fluminense. Essas operações produziram 282 pessoas mortas; 652 pessoas feridas ou baleadas; 5.783 pessoas presas; 41 adolescentes apreendidos.

Não estamos, portanto, diante de episódios isolados. Estamos diante de uma política continuada de intervenção sobre determinados territórios e populações. A pergunta humanitária, portanto, precisa ser recolocada: o que acontece com a população quando uma operação policial invade determinado território?

A emergência humanitária não começa necessariamente quando uma bomba cai. Ela também pode começar quando uma comunidade inteira passa a viver sob a possibilidade cotidiana de uma operação armada.

O relatório da IDMJRacial mostra uma forte concentração territorial da letalidade. Esses números não representam apenas indivíduos. Cada morte produz uma cadeia de danos.

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Existe a mãe que perde o filho. O filho que perde o pai. A companheira que perde o marido. A criança que perde uma referência familiar. A família precisa interromper sua rotina para lidar com hospital, delegacia, IML, sepultamento e processos judiciais. Existe também a dimensão econômica. Quando uma pessoa é morta ou ferida, a renda familiar pode desaparecer. Quando alguém é preso, uma família pode perder seu principal provedor. Quando uma motocicleta é apreendida, um trabalhador pode perder seu instrumento de trabalho.

O próprio relatório evidencia a importância desse último aspecto: as motocicletas representaram aproximadamente 60% das apreensões de veículos identificadas nas operações no período. Em uma realidade marcada pela uberização e pela expansão do trabalho de entregadores, mototaxistas e trabalhadores que dependem da motocicleta para gerar renda, uma apreensão pode representar muito mais do que a retirada de um veículo: pode significar a interrupção da capacidade de produzir renda.

É aqui que a noção de emergência humanitária precisa ultrapassar a imagem da cesta básica entregue depois de uma catástrofe. Quem protege quem está sob fogo?

Em uma guerra internacional, organizações humanitárias podem montar hospitais de campanha, distribuir alimentos, retirar pessoas de áreas de risco, prestar apoio psicológico, registrar violações e acompanhar refugiados. Nas favelas brasileiras, muitas organizações realizam funções semelhantes — embora raramente sejam reconhecidas dessa maneira. Organizações de direitos humanos acompanham familiares de vítimas. Coletivos comunitários comunicam quando uma operação começa. Moradores criam redes de proteção. Movimentos sociais pressionam autoridades. Familiares de vítimas constroem memória para impedir que seus mortos sejam transformados em números anônimos.

Organizações como a IDMJRacial monitoram operações, sistematizam informações, denunciam violações, produzem comunicação comunitária e transformam experiências individuais em evidências públicas capazes de disputar a política de segurança. Tudo isso pode ser compreendido como uma forma de ajuda humanitária política e comunitária. Não se trata de caridade. E essa diferença é fundamental. A ajuda humanitária produzida pelas organizações de favelas não busca apenas aliviar os efeitos da violência. Ela também questiona quem produz a emergência, por que ela se concentra sobre determinados territórios e quais vidas são consideradas protegíveis pelo Estado.

É uma ajuda humanitária que, ao mesmo tempo em que protege, denuncia. Que acolhe, mas também produz conhecimento. Que atende a vítima, mas também questiona o mecanismo que produziu a vitimização. Que preserva a memória, mas transforma a memória em instrumento de luta.Existe ainda outra diferença fundamental. Em contextos internacionais de guerra, a ajuda humanitária costuma ser pensada como resposta à emergência. Nas favelas, porém, a emergência é permanente. Por isso, não basta oferecer assistência depois da operação. É necessário pensar em reparação.

Uma família que perdeu alguém precisa de acompanhamento jurídico, psicológico e social. Precisa de acesso à justiça. Precisa de memória. Precisa de reconhecimento. Precisa ser protegida contra novas violências. Precisa ter condições materiais para reconstruir sua vida. A ajuda humanitária, nesse sentido, precisa estar articulada à luta por direitos. É por isso que o trabalho da IDMJRacial não pode ser compreendido somente como uma organização de produção de relatórios.

O relatório é uma ferramenta de proteção. É uma forma de transformar aquilo que parece episódico em padrão. É uma forma de demonstrar que 282 mortes não são 282 acontecimentos isolados, mas parte de uma estrutura territorial de produção da violência. É uma maneira de perguntar ao Estado: qual é a finalidade de 5.298 operações policiais em cinco anos? E, principalmente: qual é o resultado dessa política para quem vive nesses territórios? Talvez seja necessário inverter a lógica tradicional da ajuda humanitária.

Em vez de imaginar que a população é apenas objeto da assistência, precisamos reconhecer moradores de favelas, familiares de vítimas, coletivos e organizações populares como sujeitos produtores de proteção. A IDMJRacial é parte dessa experiência histórica de organização popular que enfrenta uma contradição brutal: as populações que mais precisam de proteção são justamente aquelas sobre as quais o Estado concentra políticas de controle, policiamento, encarceramento e militarização. Essa contradição precisa ser nomeada.

Se segurança pública significa que milhares de operações podem ocorrer e centenas de pessoas podem morrer, precisamos perguntar: segurança para quem?

A experiência da IDMJRacial demonstra que produzir dados também é uma forma de cuidado. Registrar uma morte é impedir o apagamento. Mapear uma operação é tornar visível aquilo que o discurso oficial pode naturalizar. Acompanhar uma família é impedir que ela enfrente sozinha a burocracia da morte. Produzir memórias é disputar a narrativa sobre quem eram aqueles que morreram. Denunciar uma operação é tentar impedir que a próxima vítima seja produzida.

Nesse sentido, a ajuda humanitária nas favelas é também uma prática de resistência ao genocídio, ao racismo e à violência de Estado. Não é apenas assistência. É organização. Não é apenas acolhimento. É proteção. Não é apenas denúncia. É produção de memória. Não é apenas resposta à emergência. É a construção de uma outra ideia de segurança baseada na preservação da vida.

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Os números do relatório da IDMJRacial são, portanto, mais do que estatísticas. São sinais de uma emergência. Por trás de cada número existe uma vida, uma família, uma história e uma comunidade afetada. É justamente por isso que precisamos ampliar nosso vocabulário político.

Quando olhamos para uma guerra internacional, reconhecemos imediatamente uma crise humanitária. Quando olhamos para as favelas brasileiras, precisamos aprender a reconhecer também a emergência humanitária que se produz todos os dias — não como resultado de uma guerra estrangeira, mas de uma política interna de gestão territorial, racial e econômica da vida e da morte.

E talvez a pergunta mais importante seja justamente esta: se as organizações populares precisam construir redes de proteção para que moradores de favelas sobrevivam às operações policiais, não deveríamos reconhecer essas práticas como uma forma brasileira de ajuda humanitária — uma ajuda humanitária produzida por quem resiste, cuida e luta para continuar vivo?

A resposta passa necessariamente pelo reconhecimento de que não existe justiça humanitária sem justiça racial, e não existe proteção da vida sem enfrentar as estruturas que produzem sua exposição permanente à morte.

Sobre os autores

Fransérgio Goulart é diretor-executivo da IDMJRacial, historiador e especialista em Cartografias Insurgentes. Giselle Florentino é diretora-executiva da IDMJRacial, graduada em Ciências Econômicas pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – Instituto Multidisciplinar – IM/UFRRJ e mestranda em Sociologia no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – IESP/UERJ.

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