Artigo | Carta Coletiva das Mães pela Verdade e pela Justiça

    Têm nomes, vidas e rostos as vítimas da violência de Estado que deixa mães adoecidas — com “o coração em carne viva” —, como relatam elas neste apelo ao Ministério Público contra os arquivamentos de casos e por responsabilização

    Deuza Cordeiro de Lima, tia que criou o jovem Thiago Gomes da Silva, morto por um PM em 2023, reuniu forças e companheiras para organizar o Ato Unificado Contra a Violência Policial, dia 29/10, em SP | Foto: Arquivo pessoal

    Nós, mães que escrevem com as mãos trêmulas e o coração em carne viva, viemos por meio desta carta dirigir-nos ao Ministério Público, instituição que deveria ser guardiã da verdade, da justiça e da dignidade humana, para clamar: ouçam nossas vozes, olhem nossos filhos, enxerguem a dor que o Estado nos causou. Somos Deuza Cordeiro de Lima, Maria Aparecida Urbano Soares, Juliana Paiva Korosi, Roseane da Silva Ribeiro, Arlene Dantas, Regiane Aparecida Alves, Jaqueline Rosa Fernandes, Rosana da Silva, Mercia Gracieli de Souza, Cicera Vieira Santos, Eliene Souza e tantas outras vidas marcadas para sempre pela violência policial.

    Cada uma de nós carrega um nome de filho que já não respira, mas que continua vivo dentro de nós. Cada uma guarda no peito o peso de uma ausência que não cessa e a revolta de um crime que o Estado tenta enterrar junto com a verdade. Não viemos apenas lamentar. Viemos denunciar. Viemos dizer, com todas as letras, que o Brasil mata seus filhos, e depois arquiva seus nomes em pilhas de papel que chamam de justiça.

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    Maria Aparecida Urbano Soares, de Bauru (SP), era uma mulher simples e alegre. Trabalhava como faxineira, cuidava da casa e dos seus cães, vivia com disposição e amor. Até que, há um ano, perdeu o filho Luís, assassinado por policiais do 13º Batalhão do BAEP. Luís foi torturado e executado com três tiros — um no pescoço, outro no abdômen e o último na cabeça, já caído no chão. Naquele instante, junto com o sangue do filho, ficou estendida no asfalto uma parte de Maria Aparecida.

    O Luís era um menino de coração grande. Se ganhasse dinheiro para um lanche, dividia com os amigos. Trabalhava com o avô de ajudante de pedreiro e com o irmão como pintor. Tinha TDAH, fazia tratamento desde criança, mas era doce, querido, solidário. Tentava viver, mesmo enfrentando o vício que o cercava. Quando devia, apanhava, e mesmo assim perdoava, voltava a rir com quem o havia machucado. Era esse o menino que o Estado matou sem julgamento, sem defesa, sem chance.

    Desde então, Maria Aparecida não cozinha mais, não limpa a casa, não dorme. Vive à base de remédios, entre crises de pânico e lembranças do filho. “Com o meu Luísinho se foi uma parte de mim”, ela diz. E sua única força é a de continuar lutando por justiça, por um país em que mães não precisem enterrar seus filhos por culpa de uma farda e de um gatilho fácil.

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    Juliana Paiva Korosi, mãe de Christian, de São Paulo, viu sua vida ser partida em duas: antes e depois da morte do filho. Christian tinha 19 anos, servia ao Exército Brasileiro e sonhava em ser policial. Era doce, responsável, trabalhador. Um menino íntegro, educado, respeitoso, de sorriso fácil e alma generosa. Passou entre 35 mil candidatos no alistamento e ficou radiante com a conquista. “Eu passei!”, gritou, orgulhoso. Juliana acreditava que o filho estava seguro, protegido, construindo um futuro. Mas, em 27 de julho de 2024, o Exército destruiu sua vida e lhe devolveu o filho dentro de um caixão lacrado, coberto pela bandeira do Brasil. Nenhuma explicação, nenhuma resposta. A versão oficial? “Suicídio.”

    Mas Juliana conhece o filho que criou: o menino que fazia planos, que amava a vida, que nunca apresentou sinais de depressão, que queria prestar concurso e continuar servindo com honra. Hoje, ela vive um luto que não acaba. “Metade de mim foi enterrada junto com ele”, diz. A casa antes cheia de risadas virou silêncio e vazio. As datas se perderam: os aniversários agora são comemorados no cemitério. A mulher alegre e confiante que ela era foi substituída por uma mãe que luta, que chora e que exige o que o Exército e o Estado lhe devem: verdade, transparência e justiça.

    Manifestantes caminham no Ato Unificado Contra a Violência Policial e a Impunidade, dia 29/10, em São Paulo | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    ‘Quando arquivam um caso, é como se enterrassem a mãe junto’

    Deuza Cordeiro de Lima, enfermeira que dedicou 15 anos da vida à saúde pública e salvou incontáveis vidas durante a pandemia, teve sua própria vida destruída pelo Estado. Em 7 de janeiro de 2023, o sobrinho que ela criou desde os 2 anos de idade, Thiago, um jovem de 19 anos cheio de planos, que havia se inscrito no dia anterior em um curso de tecnólogo em marketing, foi morto. Thiago era habilitado para trabalhar como motorista de aplicativo, aguardava apenas o pai trocar o carro. Mas a violência o alcançou antes dos sonhos.

    Desde então, Deuza vive com o corpo cansado e o coração faminto por justiça. “Durmo e acordo com sede de justiça”, ela diz. Mesmo em meio à dor, ela se levantou para criar o “Ato Unificado Contra a Violência Policial e a Impunidade”, que aconteceu em São Paulo no dia 29/10, ao lado do doutor Julio César Acosta Navarro, pai do estudante de medicina Marco Aurélio, morto pela PM no bairro de Vila Mariana, e outras mães. Criou espaços de acolhimento, buscou apoio de estudantes da USP e uniu mães no grupo Mães Leoas em Luto e Luta, que, como ela, têm seus casos ameaçados de arquivamento. Porque, como diz Deuza, “quando arquivam um caso, é como se enterrassem a mãe junto.”

    Roseane da Silva Ribeiro perdeu o filho Rogério Ferreira da Silva Jr. no dia do seu aniversário de 19 anos, 9 de agosto de 2020. Ela acreditava na justiça, confiava nas instituições, até que viu a verdade: a justiça, neste país, tem lado, e raramente é o lado das vítimas. Hoje, Roseane vive com traumas profundos. Não consegue ver um policial sem que o coração dispare, o corpo tremendo de medo e lembrança. “Nunca mais vou ser a mesma”, ela diz. O assassino do seu filho está solto, livre para repetir o crime, enquanto ela tenta sobreviver ao vazio. O Estado, que deveria garantir a vida, garantiu apenas o silêncio.

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    Arlene Dantas, 46 anos, trabalhadora e mãe de um único filho, teve sua vida destroçada em 20 de outubro de 2025, quando seu menino, João Vitor, de 18 anos, foi assassinado por agentes da Polícia Militar. João era alegre, gentil, tinha TDAH e um coração bom. No dia em que foi morto, estava sem a medicação, um pouco agitado, mas desarmado, de mãos limpas, apenas com medo. Seis policiais o cercaram, e ele implorava: “Eu não quero morrer! Me levem preso!” Nenhum deles teve piedade.

    Um dos policiais o imobilizou, pressionando o joelho sobre suas costas enquanto ele se debatia e perdia o ar. Uma policial assistiu, imóvel, quando ele suplicou: “Tia, você vai deixar eles me matarem?” Minutos depois, João estava morto, com marcas de coturno no rosto. Para esconder o crime, levaram o corpo até o pronto-socorro da Vila Nova Cachoeirinha. As câmeras corporais gravaram tudo, mas o Ministério Público, em vez de agir, arquivou o caso, chamando aquela sessão de tortura de “conduta normal”.

    “Meu filho não resistiu à abordagem, ele implorou pela vida. E ainda assim o mataram”, diz Arlene. A mãe que perdeu tudo agora vive para lutar. “A impunidade não pode ser resposta pela vida do meu filho.”

    ‘Levaram minha paz, meu riso, minha fé’

    Regiane Aparecida Alves, mãe de Thayllãn Henrique Barbosa da Silva, escreve com o coração dilacerado. Seu filho tinha 18 anos, trabalhador desde os 10. Vendia na feira, ajudava na roça, trabalhou como jovem aprendiz nos Correios e fazia curso no SENAI. Sonhava em ser mecânico de moto, tirar a habilitação, construir uma vida honesta. Mas em 15 de maio de 2024, faltando uma semana para completar 19 anos, Thayllãn saiu de casa para cuidar do cavalo que tanto amava e nunca mais voltou.

    “Levaram o meu filho, a minha paz, o meu riso, a minha fé e o sentido da minha vida”, diz Regiane. Hoje ela vive com o corpo aqui, mas com a alma quebrada. Caminha devagar, tropeçando em lembranças e lágrimas. “O que fizeram com o Thayllãn não pode ser esquecido. Eles não tiraram só uma vida. Eles destruíram uma família inteira.” Mesmo doente e cansada, Regiane segue: “Dentro de mim ainda bate um coração de mãe. E esse coração vai gritar por justiça até o meu último dia.”

    Eliene Souza, mãe de três filhos, de Guarulhos, conta o terror que viveu em sua própria casa: no dia 7 de dezembro de 2024, dois policiais fardados invadiram seu lar e mataram seu filho Guilherme, de 21 anos. Ela descreve a dor profunda que assola sua família: suas filhas, seu esposo e ela mesma vivem uma tristeza sem fim. Eliene clama por justiça e pela devolução de sua saúde mental e de seus familiares, lembrando que sabe do papel do Estado na perpetuação de tantas injustiças e no sofrimento causado. Guilherme, seu único filho homem, era um menino bom, e sua perda deixa um vazio irreparável.

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    “Não sei mais quem eu sou desde que ele se foi. Aquela vida que eu tinha acabou naquele dia, três anos atrás”, conta Jaqueline Rosa Fernandes, de 48 anos, mãe de Gabriel Kaic, morto em Bauru, no interior paulista, dia 6 de fevereiro de 2022. “Dizem que a dor de perder um filho não tem nome… e eu sei que é verdade. Mas perder assim, de forma tão cruel e injusta, é ainda pior. Ele foi morto a tiros numa ação policial, e até hoje insistem naquela história de que ele teria ‘atirado primeiro’. Nunca provaram nada.”

    Uma dor compartilhada por Rosana da Silva, de 53 anos, mãe de Giovanni, morto por policiais do Baep de Bauru mais recentemente, no dia 26 de junho de 2025. Ela, que sempre foi trabalhadora, gostava de ajudar todo o mundo no bairro e de frequentar a igreja evangélica, mudou muito. “Estou vivendo no automático, não estou tendo vontade de nada”, desabafa. “Desde que Giovanni morreu sou triste, choro, não consigo dormir nem me alimentar. Meu sistema nervoso ficou muito alterado, não tenho mais paciência, não amo mais ninguém, meu filho era tudo pra mim.”

    Mercia Gracieli de Souza, mãe de Caio Mateus, de 21 anos, conta que sua vida era cheia de alegria antes da morte do filho. Todos os dias, Caio ia vê-la, a enchia de beijos e dizia o tempo todo o quanto a amava. Ela se recorda com ternura dessas conversas e da ligação constante que tinham. Desde a morte de Caio, tudo mudou. A casa se encheu de silêncio e dor. Os irmãos dele também sofrem: o de 15 anos, com diabetes tipo 1, vive adoecendo de tristeza; o de 17 chega do trabalho chorando todos os dias, porque passa pelo túmulo do irmão; e o de 14, que é autista, chora perguntando por que fizeram isso com Caio.

    Caio era um jovem amoroso, um pai e marido exemplares. Tinha dois filhos pequenos, um menino de dois anos e dez meses e uma bebê de quatro meses, e vivia feliz com a família que construiu. Era carinhoso, gentil, nunca levantou a voz com a companheira, com quem viveu por cinco anos. Estava animado porque tinha conseguido um emprego registrado e só esperava a chegada de um documento do tiro de guerra para começar a trabalhar. Mas não teve tempo: foi morto antes disso.

    Desde então, Mércia vive uma dor que parece não ter fim. Ela conta que perdeu a vontade de tudo, chora o tempo todo, sofre de ansiedade, não consegue mais trabalhar nem fazer as tarefas de casa. Antes, Caio brincava com ela sobre o trabalho na roça, dizendo que não aguentaria nem meia hora ali; hoje, ela mal consegue sair de casa. “Minha vida está destruída”, diz.

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    Cicera Vieira Santos, mãe de Mateus, carrega no corpo e na alma as marcas da violência que tirou a vida de seu filho, executado aos 20 anos na Vila Mariana. Antes, era uma mulher ativa, que trabalhava em dois empregos para sustentar a casa. Hoje, vive adoecida: não pode mais trabalhar, precisa tomar 25 comprimidos por dia, além de insulina, para suportar o peso da dor. Ela conta que sua esperança era ver justiça. Mas, ao receber a notícia do arquivamento do caso de Mateus, sentiu como se o Estado a estivesse enterrando junto do filho. Ainda assim, Cícera resiste. Diz que, mesmo cansada e machucada, amanhã vai gritar, junto de suas companheiras de luto e luta, por todos os filhos que o Estado tomou.

    Nós, mães, viemos aqui dizer ao Ministério Público: Basta de arquivamentos. Basta de laudos falsos. Basta de silêncio. Queremos investigação, responsabilização, punição. Queremos que o Estado assuma o que faz. Nossos filhos não são números. Eles tinham nome, rosto, história, sonhos.

    Queremos que olhem para nossas dores como parte de um mesmo grito: o grito das mães que o Brasil tenta calar, mas que se recusam a morrer junto com seus filhos. Por trás de cada processo engavetado, há uma vida destruída, uma casa em ruínas, uma mãe que deixou de dormir. Por trás de cada “arquivado”, há um Estado cúmplice da barbárie. Exigimos que o Ministério Público cumpra o que a Constituição promete: defender a sociedade e a verdade.

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    Não aceitamos mais o silêncio. Não aceitamos mais ser chamadas de “mães histéricas”. Somos mães conscientes, feridas, mas firmes. E sabemos que justiça que se nega a enxergar é justiça que mata. Que cada promotor, cada procurador, cada autoridade leia esta carta e se pergunte: quantas mães precisam gritar até que o Estado escute? Enquanto houver uma de nós de pé, haverá denúncia, haverá memória, haverá luta. Porque o amor de mãe é o que resta de mais vivo neste país que tanto insiste em matar.

    Por nossos filhos: Luís, Christian, Thiago, Rogério, João Vitor, Thayllãn, Guilherme, Matheus e Caio Mateus. Por todas as mães que choram em silêncio. Por justiça, por verdade, por vida.

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