O Estado e a sociedade vivem cerceando a vida, acesso e oportunidades para pessoas negras no Brasil, independentemente da idade, gênero, escolaridade, profissão, renda ou religião

Não há uma área da vida em que o racismo não afete a vida de uma pessoa negra. Na vida profissional, você pode ouvir o mesmo que uma jovem negra, ex-trainee, teria ouvido do CEO da Leroy Merlin: a empresa, segundo ele, “teria tudo para utilizar trabalho escravo em suas lojas no Brasil, o que traria significativa economia de impostos, mas não o faz porque é uma empresa muito boa”. Contamos essa história essa semana aqui na Ponte. Para quem acompanha o noticiário, o presidente Lula, mais uma vez, deixou de lado a opção de uma mulher negra para o TSE, no caso a ministra substituta Vera Lúcia Santana, para optar por uma mulher branca. Um presidente, vale lembrar, que foi eleito com a força do voto da mulher negra, que é maioria na população brasileira.
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Semana passada, um policial civil negro foi morto por um PM em meio a operações de ambas as corporações em um mesmo local, mas que nenhum dos grupos sabia da presença do outro. Graças às imagens da câmera corporal do PM, vemos que ele atira antes e mesmo depois que Rafael Moura da Silva e seus colegas se anunciam como polícia.
Além de demonstrar a falta de inteligência e comunicação entre os setores da segurança pública paulista, essa ação revela o modus operandi da polícia: se o corpo é preto, atira primeiro, depois pergunta. Será que se Rafael fosse um policial branco teria acontecido a mesma coisa?
Anuário mostra que até policiais negros morrem mais
Na quinta-feira dessa semana, publicamos nossas análises do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em uma delas, destacamos que pessoas negras são mais vítimas de violência sendo civis ou policiais, sendo mulher ou criança. Olhando para o infográfico do anuário, é possível perceber que em quase todo tipo de violência o alto, em sua maioria, é negro. Roubo de celular? A maior parte das vítimas são negras. Mortes de policiais? Também. Estupros? É a mesma coisa. A segurança pública não é feita para defender nosso direito à vida em nenhuma idade ou profissão.
O Estado e a sociedade vivem cerceando a vida, acesso e oportunidades para pessoas negras, independentemente da idade, gênero, escolaridade, profissão, renda, religião. O “defeito de cor” dos tempos de escravidão é marca indelével nas nossas vidas. Um sistema montado e criado para privilegiar a branquitude, independentemente de seu gênero, idade, religião ou renda, massacra corpos e sonhos diuturnamente.
Avançamos em muita coisa, mas ainda falta uma jornada longa até apagar da realidade os traços delineados por uma estrutura colonial, racista e supremacista branca. Quando convidamos você, a pensar em uma segurança pública com participação popular, também é um convite a questionar a estrutura racista da sociedade em todos os aspectos. Afinal, como os números comprovam, segurança não é colocar mais policiais armados na rua. Essa lógica não dá certo, mas deve estar enchendo o bolso de alguém.
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