Alçada à condição de pauta prioritária do eleitor e tratada com violência e punitivismo tanto por governos de direita como de esquerda, criminalidade urbana não será resolvida se país não ouvir as vozes de quem mais sofre com a questão

Em um impactante artigo publicado em 2023, o escritor e acadêmico negro Evandro Cruz Silva relatou a traumática e reveladora experiência de um assalto que sofreu em Salvador, na Bahia (“Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão”, revista Serrote 44).
Intelectual que credita sua ascensão aos estudos propiciados pela política de cotas, o autor de “O Embranquecimento” (Patuá, 2024) fala no texto da perplexidade, do medo e da raiva que sentiu na posição de um igual que não era um igual: “Para aquele garoto esquálido e com disposição de apontar um revólver para a cara de alguém, eu não seria considerado, pelos seus, como ‘um de nós’. Eu era um playboy distraído numa esquina qualquer. Para o policial (…), o moleque retinto a ser capturado não estava entre os seus, e tampouco eu, turista desavisado, era seu igual. Ele, policial, era um trabalhador; o moleque, um inimigo; e eu, uma vítima.”
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Ao final de sua reflexão, Evandro alerta para os perigos de uma sociedade que ensaiou uma inclusão social muito imperfeita somada aos temores — reais e imaginários — que cercam a questão da insegurança nas grandes cidades. Uma questão para a qual a única solução proposta tem sido a “defesa do patrimônio privado e do punitivismo”. E alerta: “Ignorar essa discussão pressupondo uma eventual aliança racial derivada da simples identificação entre os negros é ignorar seu aspecto de classe e abrir caminho para os ‘jagunços’ e suas respostas baseadas na violência pura.”
Há 11 anos a Ponte Jornalismo tem se dedicado não só a denunciar violências cometidas por agentes do Estado no país, mas também a buscar soluções que superem o binômio “polícia e cadeia” para esse problema. Na última semana, nossa reportagem se debruçou sobre números oficiais da Secretaria da Segurança Pública (SSP) da gestão Tarcísio/Derrite, que registram outra subida na letalidade policial. O aumento, em abril, foi de 62% em relação ao mesmo período no ano passado. As vítimas, como sabemos, têm cor e CEP definidos.
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Essa violência policial, claramente racista e descolada de qualquer melhoria nos índices de criminalidade no estado, suscita uma reação débil das instituições responsáveis pelo controle da atividade policial no Brasil, como o Ministério Público. A própria Justiça brasileira tem se mostrado incapaz de dar resposta às demandas das vítimas, a ponto de uma denúncia contra o Brasil pelo desaparecimento de Paulo Alexandre Gomes, nos chamados Crimes de Maio em 2006 — quando agentes do Estado mataram 560 pessoas e desapareceram com outras quatro, como vingança por ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) — ter sido aceita pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
Foi pensando neste cenário que Ponte produziu, em parceria com a Fundação Friedrich Ebert Stiftung – Brasil, a série de reportagens “Segurança é Pública”, com a proposta de mapear o que movimentos sociais e grupos periféricos de todo o país, sediados nos territórios-alvo da maior parte das operações policiais, desejam e propõem para a segurança pública brasileira.
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A série de nove reportagens, cuja publicação foi iniciada na quarta-feira (4/6), é fruto de 6 meses de entrevistas e ouviu representantes dos Fóruns Populares de Segurança Pública de 6 estados da federação — Pernambuco, Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe, Ceará e São Paulo — além do Fórum Regional do Nordeste. São esses os ambientes que vêm pensando caminhos possíveis e formulando políticas para uma segurança pública solidária, inclusiva e voltada não à violência, à punição e ao encarceramento em massa, mas ao bem viver.
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