Editoria “Ponte do Amanhã” propõe refletir sobre o fracasso das políticas atuais e construir outras respostas possíveis à violência do Estado — a partir de vozes como a da geógrafa e ativista do abolicionismo penal Ruth Wilson Gilmore

Em seus 11 anos de existência, a Ponte vem se dedicando a denunciar o que não tem dado certo nas políticas de segurança pública no Brasil. Policiamento ostensivo, racismo estrutural, falta de trabalho de inteligência são alguns dos pontos que sempre destacamos, ouvindo tanto a sociedade civil na figura de movimentos sociais quanto a academia. Nosso papel tem sido o de denunciar realidades violentas que têm endereço e cor a partir de histórias que chegam até nós das mais variadas fontes. Esse tipo de trabalho nos consolidou, em mais de uma década, como um jornalismo especializado em segurança pública, justiça social e direitos humanos.
Ao longo desse tempo, tivemos contato com outros olhares para essas questões, desde defensores do fim do militarismo no policiamento até do abolicionismo penal. A cada vez que isso acontecia nos perguntávamos: como seria esse amanhã da segurança pública por outros meios que não os que estão vigentes há mais de meio século?
Em uma pesquisa com nossos leitores em 2022 já aparecia essa demanda por outras soluções que não foram efetivamente testadas em larga escala. Com o projeto Segurança é pública, série de reportagens que publicamos esse ano em parceria com a FES Brasil, buscamos jogar luz sobre um movimento de quem acredita e quer trabalhar por formas que não sejam mais do mesmo, do que só tem causado mais violência e mais mortes.
Propostas da base para o alto
Foi assim que surgiu a editoria que lançamos essa semana: Ponte do Amanhã. A ideia é conversar e registrar esses outros olhares no modus operandi desse sistema a partir de entrevistas com quem está botando a mão na massa em um trabalho da base para o alto. Nesta primeira edição, nosso editor Ivan Marsiglia conversou com a professora estadunidense Ruth Wilson Gilmore, autora das obras Geografia da Abolição: Ensaios rumo à libertação, recém-lançada no Brasil pela editora Boitempo, e “Califórnia Gulag: prisões, crise do capitalismo e abolicionismo penal”, pela Igrá Kniga.
Tanto no meio acadêmico quanto no movimento social, a intelectual está envolvida na discussão sobre o abolicionismo penal. Nos últimos 30 anos, Ruth vem debatendo e aplicando ao fundar organizações como “California Prison Moratorium Project”, “Central California Environmental Justice Network” e também esteve presente no início das mobilizações do movimento abolicionista de mães do sul de Los Angeles (o Mothers ROC – Mothers Reclaiming Our Children).
Para ela, pensar em abolir as prisões não é apenas uma questão de derrubar o prédio físico, mas desmantelar um Estado que é feito para encarcerar. Na conversa com a Ponte, ela pontuou que “usar violência em resposta à violência geralmente não produz uma ausência de violência”. E, você há de convir que essa prática não produziu melhora na sensação de segurança nem diminuiu os crimes. Ao encarar a liberdade como um lugar, Ruth Wilson propõe que o X da questão seja “a diferença entre crime e dano”.
No Ponte do Amanhã, vamos trazer debates como esse em busca de encaminhamentos e soluções. Queremos fazer pontes entre conhecimentos e o nosso público, e amplificar discussões que já têm sido feitas. Você pode fazer parte do Ponte do Amanhã enviando suas dúvidas ou sugestões de temas que gostaria de ver a gente abordando. Ou apoiando financeiramente para que consigamos manter essa editoria por mais tempo e com cada vez mais conteúdo.
Este artigo foi publicado originalmente na newsletter semanal da Ponte: clique aqui para assinar e receber textos exclusivos, reportagens da semana e mais na sua caixa de e-mail