Artigo | Segurança eficiente é a que tira os corpos da mira

Em ano eleitoral, discutir segurança pública exige olhar para quem mais sofre com a violência e pensar políticas capazes de prevenir, responder e responsabilizar

Contornos de corpos desenhados com tinta branca sobre uma rua de pedras, com pés de pessoas passando ao redor.
Silhuetas de corpos no Largo da Carioca, no Rio de Janeiro, em ação contra homicídios de jovens negros, em dezembro de 2013 | Foto: Fernando Frazão/Arquivo Agência Brasil

Resumo

A violência atinge de forma desigual a população brasileira, com maior exposição de pessoas negras, jovens e mulheres ao risco de morte.
Políticas de segurança pública precisam integrar prevenção, proteção, investigação de crimes e controle de armas para reduzir a violência.
As eleições são uma oportunidade de cobrar propostas que enfrentem essas desigualdades e garantam proteção a todas as pessoas.

Na voz de Elza Soares, A Carne tornou-se uma das mais contundentes expressões das desigualdades que atravessam a sociedade brasileira. Lançada há mais de duas décadas, a canção continua provocando porque nos mostra um país em que determinados corpos são historicamente mais expostos à violência, à exclusão e à morte. Em ano eleitoral, quando a população volta seus olhos para as escolhas que definirão os próximos anos, é natural que o debate sobre o futuro passe pela economia, pelos investimentos, pelo emprego, pela saúde e pela educação. A segurança pública, com razão, também está no centro dessa discussão. Queremos respostas para a violência, para o avanço das organizações criminosas, para a circulação de armas, para os homicídios sem respostas e para a sensação de insegurança que modifica a vida cotidiana de milhões de brasileiros. Mas há uma pergunta que precisa estar no centro dessa discussão: segurança para quem?

Uma política de segurança pública só cumpre plenamente sua função quando é capaz de proteger todas as pessoas. Mas já sabemos que a violência não atinge todos da mesma maneira. Os dados mostram que gênero, raça, idade e território influenciam a exposição à violência e à morte. Por isso, construir uma política de segurança pública de verdade exige mais do que respostas depois que o crime acontece. Exige integrar prevenção, proteção, resposta e responsabilização.

É nesse sentido que a campanha Vote pela Paz coloca uma imagem tão potente no debate eleitoral: a de corpos “na mira”. A ação MIRA chama atenção para o impacto da violência armada na vida das pessoas e essa é uma provocação que deveria acompanhar o debate sobre segurança durante todo o processo eleitoral: precisamos escolher representantes comprometidos com políticas capazes de tirar nossos corpos da mira.

Os números ajudam a dimensionar essa realidade. Ainda que o Brasil tenha registrado redução dos homicídios nos últimos anos, ainda perdemos mais de 40.000 vidas por ano e essas mortes não atingem a todos da mesma maneira. A presença da arma de fogo aumenta o risco de morte em 85% nos casos de tentativa de feminicídio e 7 em cada 10 homicídios foram cometidos com armas. Mas sabemos que essas dores afetam mais a população negra, segundo dados do Anuário Brasileiro, quase 80% dessas mais de 40.000 mortes violentas intencionais são de negros e entre as 1.571 mulheres vítimas de feminicídio, as mulheres negras também são a maioria (65,1%).

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Esses números não são apenas estatísticas sobre a violência brasileira, eles revelam quem está mais exposto a ela e ajudam a indicar onde as políticas públicas precisam chegar com maior intensidade. Se jovens negros permanecem desproporcionalmente expostos aos homicídios, se mulheres continuam sendo assassinadas em contextos de violência de gênero e dentro de suas próprias casas, e se as armas de fogo estão presentes em grande parte das mortes violentas, não é suficiente formular uma política de segurança que responda apenas depois que a violência já aconteceu. É preciso agir antes.

Isso significa fortalecer a capacidade do Estado de investigar crimes, responsabilizar seus autores e retirar armas ilegais de circulação. Mas significa também prevenir essas violências, ampliar oportunidades, fortalecer vínculos comunitários, proteger populações e articular segurança pública com outras políticas capazes de reduzir fatores de risco. Prevenção não é uma agenda paralela à segurança pública, é parte integrante.

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Do mesmo modo, falar em prevenção não significa abrir mão da resposta do Estado diante da violência. Essa perspectiva é especialmente importante em um período eleitoral. As escolhas que serão feitas nas urnas não dizem respeito apenas às propostas para combater a violência depois que ela acontece, mas também às estratégias para reduzir os riscos que tornam determinadas pessoas e territórios mais vulneráveis a ela. Uma política que pretenda proteger a população precisa reconhecer essas diferenças sem abrir mão de um princípio fundamental: todas as vidas devem ser igualmente protegidas pelo Estado.

Por isso, em vez de perguntar apenas quais propostas prometem combater a violência, talvez seja necessário fazer uma pergunta anterior: essa candidatura apresenta propostas que são capazes de reduzir os riscos para que determinados corpos continuem sendo colocados na mira? Em uma eleição, discutir segurança pública é discutir proteção e quais compromissos estamos dispostos a cobrar de quem pretende governar e legislar. Nesse período eleitoral, mais do que promessas genéricas, precisamos cobrar propostas capazes de responder a uma pergunta fundamental: o que será feito por quem não deve tratar sua carne como a mais barata do mercado, afinal todos merecem respeito e justiça.

Sobre a autora

Danielle Tsuchida é coordenadora de projetos do Instituto Sou da Paz. Psicóloga formada pela PUC/SP, com experiência em medidas socioeducativas e prevenção da violência.

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