Em notas repetitivas, SSP e MP-SP dizem não compactuar com desvio de conduta da Polícia, mas o crescimento da letalidade policial parece mostrar o contrário

E o mote do texto passado se repete essa semana: “A Polícia Militar ressalta que é uma instituição legalista e não compactua com desvios de conduta de seus agentes”. É assim que começa a nota da Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP) em resposta ao questionamento da Ponte sobre maio de 2025 ter sido o mais letal em 5 anos, de acordo com dados da própria pasta.
Desta vez, o Ministério Público paulista (MP-SP) também veio a reboque: “A instituição envida todos os esforços, por meio do Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (GAESP) e dos promotores que têm atribuição neste campo, no sentido de apurar todos os casos”.
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A pergunta sarcástica que volto a fazer é: se estão as duas instituições cumprindo seu papel, por que ainda noticiamos PMs matando jovens e crianças e batendo em idosas? E não só isso: todo mês vem um novo aumento desses casos. “Ah”, virão os defensores ferrenhos da PM, “mas isso são algumas maçãs podres”. Ou “o que será que essas pessoas estavam fazendo para serem mortas, hein?” Ou, ainda, o clássico: “Se estivesse em casa, não teria morrido”. Afinal, a culpa nunca é da PM, tão heroica, tão intocável, tão casta, quase virginal. Deveria ser beatificada para essa gente se ajoelhar em oração.
Em 2026, vão completar 20 anos que Edson Rogério Silva dos Santos, de 29 anos, foi morto no maio mais sangrento da história de São Paulo. Seu crime era voltar do trabalho como gari em meio à matança generalizada que ficou conhecida como os Crimes de Maio. Ele foi uma das 425 pessoas mortas entre 12 e 21 de maio de 2006, por agentes do Estado, supostamente em resposta a ações de uma facção criminosa.
Sua mãe, Débora Silva, articuladora do Movimento Mães de Maio, como sempre, é cirúrgica na avaliação: “Quando o país não traz reparação e memória para um massacre vergonhoso como foi o de maio de 2006, a gente vê aquele maio se repetindo. E a gente fica se perguntando o porquê, mas existe uma resposta. É porque temos um Ministério Público conivente, um Judiciário que também aperta o gatilho com uma canetada quando arquiva esses casos de crimes contra a vida.”
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A piora da violência policial é uma escolha diária do governo estadual, encabeçado por Tarcísio de Freitas e comandada por seu secretário, Guilherme Derrite. Como apontou Débora, também é uma escolha do MP e da Justiça, que validam sempre a voz do policial, mesmo quando todas as provas apontam contra. Talvez sejam esses os esforços que todos estão “envidando”. Inclusive, vale lembrar que foi o mesmo MP que disse que PM como braço em riste com cruz pegando fogo não é coisa de supremacista.
E a culpa é também dos setores da política institucional que se identificam como de esquerda, mas, quando o assunto é segurança pública, ficam um pouco Maluf, querendo Rota na rua. Os dados históricos do Estado da Bahia não me deixam mentir. Mudam as cores ideológicas dos governos ou das maiorias parlamentares, mas a toada é sempre a mesma. Mais polícia, mais armas, mais confronto, mais morte. E quem morre não são os nobres estudantes brancos, filhotes de Higienópolis e dos Jardins. Ah, quando isso acontece vira matéria no Fantástico, hashtag, dia nacional e tudo mais.
Quem segue morrendo são como Edson: jovens negros periféricos. É só olhar para os números: 64% dos mortos pela policia em SP eram negros. Número que se repete todo santo mês de forma quase religiosa. (Isso o pessoal santo que defende a vida ignora.)
O que “condiz” é o que dizem os números – e não palavras bonitas de uma nota fria, escrita há anos e replicada como uma fotocopiadora. Quem tem “envidado” esforços são mães como Débora que, passados 20 anos da morte do filho, ainda busca justiça para si e para os outros, busca também o fim dessa máquina de moer filhos e futuros. Não à toa, quando teve oportunidade, cobrou pessoalmente o presidente Lula, com quem nunca havia se encontrado, para que receba oficialmente o movimento de mães.